Os avanços científicos que envolvem terapias para o uso de células-tronco levaram ao surgimento de um negócio que é novo no país, mas já causa polêmica: os bancos privados de armazenamento de sangue de cordão umbilical.
O sangue do cordão possui células-tronco, que podem vir a ter várias utilidades no futuro, mas atualmente têm uma única aplicação principal - produzir material para substituir o transplante da medula óssea.
A polêmica é sobre a estratégia de armazenamento: em bancos particulares, onde só quem pode ter acesso ao material é o usuário ou um parente, ou públicos, onde é doado a quem necessitar.
O Ministério da Saúde adverte que guardar o cordão do bebê em laboratórios particulares é praticamente inútil. ''A possibilidade de usar o cordão para a própria criança é mínima: de 1 para 20 mil'', avisa João Paulo Baccara, coordenador de Política Nacional de Sangue e Hemoderivados. 'A célula-tronco da criança traz todos os eventuais problemas que aquele adulto desejará tratar no futuro.''
Baccara defende a doação do cordão para os bancos públicos da rede BrasilCord, lançada em setembro. Ali, qualquer paciente na fila de transplante que achar uma amostra compatível poderá usar o sangue, sem pagar nada. No momento, ele serve para tratar leucemias. É possível ainda o uso em pacientes com doenças hematológicas e imunológicas.
A discussão é acalorada entre representantes de lado a lado. Os bancos particulares têm seus argumentos. ''Deve-se pensar que os pais estarão beneficiando não só a criança, mas a família. Se for descoberto um câncer hereditário, a criança não poderá usar seu cordão. Mas, se um irmão o tiver armazenado, será um doador com maior chance de compatibilidade'', diz Lygia da Veiga Pereira, coordenadora de um banco privado.
A demanda nos cinco bancos particulares em funcionamento no Brasil tem aumentado. Nos últimos meses, o movimento no paulista CordVida cresceu 25%. Lá, a armazenagem custa R$ 4 mil e a manutenção R$ 699 por ano. A procura pelo banco carioca Cryopraxis aumenta 30% ao mês. Pagam-se R$ 4.435 pelo armazenamento e R$ 584 pela manutenção.
Fora da disputa entre público e privado, Patrícia Pranke, médica do Laboratório de Células-Tronco e Banco Público de Sangue de Cordão Umbilical do New York Blood Center, em Nova York, opina: ''Deve-se entender um banco de sangue de cordão umbilical público como se fosse um banco de sangue normal. Se alguém sofre um acidente hoje, não é preciso que tenha guardado seu sangue na semana passada, porque poderá usar o de um doador'', diz.
Para ter idéia, até 2003 apenas cinco transplantes foram realizados no mundo com sangue do cordão do próprio bebê. Há ainda outro forte argumento. ''O volume de sangue de um cordão é suficiente apenas para um paciente de até 50 quilos, ou seja, pouquíssimos adultos. Nos bancos públicos, podem-se juntar amostras de dois doadores compatíveis'', acrescenta Patrícia.
Coordenador do banco público do Inca anuncia
novos cinco transplantes com sangue do instituto
A rede pública tem duas unidades em operação: no Instituto Nacional do Câncer (Inca), no RJ, e no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. No ano passado, o Inca realizou um transplante de medula óssea com células de cordão guardadas em seu banco.
''A genética diz que são de 25% as chances de encontrar doador compatível nas famílias. Daí a importância de ter um banco com células de outras pessoas'', argumenta Luis Fernando Bouzas, diretor do Centro de Transplantes de Medula Óssea do Inca. O instituto está prestes a realizar outros cinco transplantes a partir de material dos cordões estocados. No exterior, essa polêmica começou mais cedo e produziu veredictos.
Em 2004, o comitê de ética europeu declarou achar desnecessário o armazenamento do cordão umbilical dos filhos para uso próprio. A França, por exemplo, proibiu bancos privados de cordão umbilical por considerá-los improdutivos. A Itália e a Bélgica tomaram a mesma decisão.
Como no Brasil os dois bancos existem paralelamente, os laboratórios privados ''vendem'' o negócio como uma espécie de seguro de vida, uma aposta nas futuras pesquisas. Eles têm clientes como o apresentador César Filho e a modelo Joanna Prado, que congelaram ali, em nitrogênio líquido, o cordão umbilical dos filhos. O ator Marcelo Serrado e a mulher, Rafaela Mandelli, fizeram o mesmo no CordVida. ''Fomos avisados da baixa probabilidade de uso. Mas a ciência avança rápido e qualquer chance que se tem à mão vale usar por um filho'', declara Marcelo.
De qualquer maneira, a aplicação de novos resultados de pesquisas com células-tronco no Brasil depende de sua evolução, agora que foi aprovada na Câmara dos Deputados a Lei de Biossegurança.
Fonte: Revista Época, 12/3/05, reproduzida em JC e-mail 2725, de 14/03/05