Incubida de entrevistar um idoso morador do município de Carapicuíba para o Portal do Envelhecimento, adentrava a cidade tentando me aproximar do que sensibiliza e particulariza essa região.
Caminhando para o Centro de Especialidades, onde eu teria uma entrevista já agendada com o representante da Secretaria de Saúde para a pesquisa "Quem Cuidará de Nós em 2030 ?", me deparei com pessoas apressadas, com esgoto a céu aberto e com uma fila interminável para o atendimento médico. Passei pelo estacionamento e avistei um grupo de idosas que parecia estar a espera de alguma atividade física. Me aproximei na esperança de travar um diálogo com uma delas, a maioria era mulher.
Muito receptivas me pergutaram o que me trazia ali, expliquei-lhes que eu fazia parte de um grupo de pesquisadores que estudava o que havia hoje desponível para a saúde do idoso no município de Carapicuíba e antes de qualquer outra explicação me interromperam e despejaram durante longos minutos uma série de críticas, a principal delas era o descaso com que tratavam a atividade física disponibilizada no local.
A atividade era ministrada duas vezes na semana, mas por falta de espaço, ocorria no estacionamento do Centro de Especialidades Médicas. As idosas reclamavam que os carros das diferentes instâncias médicas entravam e saíam durante toda atividade, sem demonstrar nenhum respeito por parte dos trabalhadores. Contaram, também, que já reivindicaram para que tirassem os carros antes de iniciar a atividade, mas nada foi feito.
Perguntei sobre outras atividades que ocorria na cidade para os idosos, mas a resposta foi que não conheciam nenhuma outra, e que a respeito desta adoravam a médica responsável, e que se sentiam muito melhor quando praticavam exercícios físicos. Aproveitei e indaguei sobre o que consideram bom no município, pergunta que era o motivo de eu ter entrado em contato com elas. Dona M disse que estava irritada com tudo o que estávamos discutindo, e que não havia nada de bom e que odiava a poluição do lugar.
A médica chegou e iniciou as atividades, as duas senhoras simpáticas me convidaram a assistir a ginástica matinal. Observei de longe, o pátio em que estavam encontrava-se extremamente sujo, havia inúmeras folhagens no chão. Estavam rodeadas por peruas, vans e carros de passeios a serviço da Secretaria de Saúde. O sol já estava quente, mas nada disso aparentava distrair a atividade que as divertia.

Um grupo de trabalhadores do Centro de Especialidades Médicas descontraidamente adentrou o pátio, e munidos de mangueira e sabão começaram a lavar os carros, conversando, rindo, como se estivessem sozinhos, pareciam desconsiderar a importância do trabalho que estava sendo ali realizado. Não bastando isso, um deles entrou no carro para sair do estacionamento, mas como ele estava sendo impedido pelo círculo de idosas praticando a atividade ele foi dando a ré, como se elas tivessem que abrir caminho, mas a cada centímetro que se aproximava isso não acontecia porque as idosas estavam muito concentradas, prestando atenção na professora. Então, o carro chegou muito perto e buzinou, som alto e estridente, que assustou e quase derrubou uma senhora que estava de cócoras praticando os exercícios.
Neste momento as duas pessoas que haviam sido entrevistadas anteriormente me lançaram um olhar confirmativo, ocorreu tudo o que haviam me descrito anteriormente.
Após o susto, abriram espaço para o carro, que passou no local interrompendo completamente a atividade, mostrando o descaso dos trabalhadores para com os usuários. As mulheres conversavam de se organizarem e irem reclamar na prefeitura, pois tudo dia essa ação se repetia.
A indignação tomou conta de todos. Como tinha uma entrevista agendada com o Representante do Conselho do Idoso, em que muitas vezes essas entrevistas adquiriam um tom avaliativo, apesar de serem apenas uma forma de se aproximar do que tem sido feito no município, aproveitei a situação para dar visibilidade ao problema.
Ao final da entrevista narrei os fatos e perguntei ao Conselheiro se tinha conhecimento da situação que presenciei pela manhã, muito aflito e surpreso respondeu que não, e me pediu mais infomarções do local e data que ocorria a atividade. Não precisei falar nada, me confirmou que na semana seguinte iriam pessoalmente verificar a situação porque era uma situação incabível.
Voltei para São Paulo e uma dúvida me acompanha: "Será que semana seguinte chegou?"
*Lidiane Almeida é estudante de Psicologia da PUC-SP, membro do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento (NEPE), certificado pelo CNPq, bolsista Iniciação Científica da pesquisa "Quem Cuidará de Nós em 2030?"