Mas o que vem a ser as células-tronco? Por que foram tão exploradas pela mídia no mês passado? O que elas representam para a qualidade de vida? Quais são suas promessas?
Para poder responder a estas e outras tantas questões a equipe do Portal do Envelhecimento preparou este dossiê com o objetivo de informar seus usuários sobre a temática. Selecionamos alguns artigos que saíram na mídia e os reproduzimos a seguir. Artigos que "traduzem" o linguajar e os jargões científicos para uma linguagem acessível e interessante ao grande público. Afinal, trata-se de um tema que mais cedo ou mais tarde afetará a todos nós e, por isso, acreditamos que todo cidadão deve estar informado para poder opinar sobre os rumos da humanidade. Que civilização queremos? A Ciência está a serviço de quem? Segundo Stephen Jay Gould, durante seu discurso de posse na presidência da AAAS (American Association for the Advancement of Science), em janeiro de 1999: "a ciência precisa ser compreendida por todos, não somente por razões de bem estar público, mas por ser, também, tão excitante e inspiradora". Assim como ele, acreditamos que a melhoria da opinião pública sobre a possibilidade de regenerar o tecido humano terá um efeito positivo na própria forma da ciência como instituição neste nosso novo milênio. Leiam com atenção, informem-se e tenham também sua opinião a respeito das células-tronco.
Células-tronco liberadas

Nos laboratórios brasileiros, existem estudos experimentais em andamento em São Paulo, Minas Gerais, no Rio de Janeiro e na Bahia (foto:Agência Brasil)
A partir de agora, os cientistas brasileiros podem trabalhar com um pouco mais de tranqüilidade e liberdade em dois temas que geravam polêmica há meses. Em clima de euforia, a Câmara dos Deputados aprovou ontem a Lei de Biossegurança, que permite a pesquisa científica de células-tronco embrionárias para fins terapêuticos e libera a produção e a comercialização de alimentos transgênicos.
Assistida do plenário por dezenas de pessoas em cadeiras de rodas – portadores de doenças degenerativas, um dos grupos de maiores interessados na aprovação da pesquisa com células-tronco –, a votação do texto terminou com 352 votos favoráveis, 60 contrários e 1 abstenção. O novo texto, que resolve temas polêmicos, debatidos há meses, só entra em vigor após a sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
No mundo todo, as células-tronco são vistas com otimismo, em vista de sua capacidade de poder formar diferentes células – nervosas ou musculares, entre outras. Diante dessa capacidade de substituir tecidos doentes, podem se constituir em uma alternativa promissora para o tratamento de doenças como diabetes, Parkinson ou Alzheimer.
Nos laboratórios brasileiros, existem estudos experimentais em andamento em São Paulo, Minas Gerais, no Rio de Janeiro e na Bahia, que ainda precisam cumprir muitas etapas antes que as novas terapias possam ser aplicadas em seres humanos. O ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos, acredita que em alguns anos essas pesquisas poderão beneficiar cerca de 5 milhões de pessoas no país.
A mesma lei aprovada pela Câmara aprova a produção e a comercialização de soja transgênica, além de aumentar o poder da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que se torna o único órgão do governo responsável por aprovar a pesquisa com organismos geneticamente modificados. Caberá ao Conselho Nacional de Biossegurança, que será formado por nove ministérios, a autorização para a comercialização de transgênicos no Brasil.
Células progenitoras
As células-tronco são células progenitoras que mantêm a capacidade de diferenciar os inúmeros tecidos do corpo humano, explica Mayana Zatz. Podem ser obtidas pela técnica de transferência de núcleo ou clonagem terapêutica - como acaba de ser anunciado pelo grupo de cientistas coreanos - de cordão umbilical ou de embriões.Por meio da clonagem terapêutica ou transferência de núcleo, detalha Mayana, é possível transferir o núcleo de uma célula de uma pessoa - da pele, por exemplo - para um óvulo sem núcleo, esse novo óvulo, em tese, se tornaria capaz de produzir qualquer tecido daquela pessoa em laboratório, sem risco de rejeição. A clonagem terapêutica permitiria, por exemplo, reconstituir a medula de um paraplégico ou substituir o tecido cardíaco de quem sofreu um infarto.Essa técnica, no entanto, não poderia ser utilizada em portadores de doenças genéticas, já que todas as células teriam o mesmo defeito. Daí a importância das pesquisas com células-tronco.
Existem células-tronco em vários tecidos de crianças e adultos, mas em pequena quantidade. "Não sabemos ainda em que tecidos elas são capazes de se diferenciar", observa Mayana. O sangue do cordão umbilical também é rico em células-tronco, mas os cientistas tampouco sabem qual o potencial de diferenciação destas células em distintos tecidos. "Se as pesquisas mostrarem que células-tronco de cordão umbilical serão capazes de regenerar tecidos ou órgãos, esta será, sem dúvida, a mais importante fonte para a sua obtenção", diz Mayana. Neste caso, seria necessário observar a compatibilidade entre doador e receptor e criar um banco público de cordão umbilical. Se estas pesquisas não derem o resultado esperado, a alternativa será o uso de células-tronco embrionárias que, de acordo com Mayana, são certamente pluripotentes, ou seja, têm capacidade de diferenciar-se em qualquer um dos tecidos humanos. Podem ser obtidas por meio de transferência de núcleo - como demonstraram os coreanos -ou a partir de embriões de má qualidade, que não teriam potencial para gerar um vida.
Fonte: revistapesquisafapesp.br, 04/03/2005
http://www.agencia.fapesp.br/boletim_dentro.php?id=3372