Gracias a la vida! Com o refrão imortalizado pela cantora chilena Mercedes Sosa, a especialista em envelhecimento Tomiko Born abre na manhã de sábado (30/04/2011) uma saborosa conversa sobre o cuidar. Coincidência? No mesmo dia, os jornais repercutem os resultados do Censo 2010. Agora é oficial: o Brasil está envelhecendo, e depressa. Quem garante é o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE.
Os maiores de 65 anos já representam 7,4% dos brasileiros. Centenários, são mais de 23 mil. O que os números não revelam é a carência de políticas públicas para cuidar dessa população que vai perdendo a independência e a saúde. Famílias encolhendo e espalhadas em tantos endereços representam apenas uma parte do problema de um Brasil cada vez mais velho.
Trajetória
Há mais de trinta anos, a falta de estrutura para apoiar as famílias dos idosos pobres levou a assistente social, diplomada pela PUC, a articular cursos de formação e produzir materiais voltados aos cuidadores. É de Tomiko, também mestre em Ciências Sociais pela Universidade de Columbia, o Manual do Cuidador da Pessoa Idosa, publicado pelo governo federal.
A serenidade e a sabedoria dessa ativa senhora quase octogenária contagiam a platéia atenta à primeira palestra do Espaço de Transmissão, promovida pelo Ger-Ações, Pesquisa e Ações em Gerontologia. Hoje cidadã caldense, integrante de um coral da cidadezinha mineira de Poços de Caldas, onde é ativa militante ambientalista, Tomiko também solta a voz num Shalom comovente. O espaço Projetos Terapêuticos, no bairro paulista de Pinheiros, acolhe o grupo ávido por ouvir a trajetória dessa mulher pequenininha que desde a década de 60 alerta para a falta de políticas públicas para lidar o crescente número de idosos, de todas as classes sociais, com famílias cada vez menores e dispersas.
De uma cultura que reverencia os mais velhos, Tomiko compartilha o que aprendeu no Japão: o governo mobilizou as donas de casa e criou um sistema domiciliar para cuidar dos idosos. Ela mesma participou do trabalho voluntário de preparar refeições para os sem-família – o obento, marmita japonesa.
A boa alimentação do velho que que mora só é desafio mundial, explica Tomiko. Comer enlatados ou macarrão instantâneo faz parte da rotina até das culturais mais tradicionais, como a japonesa. Conta, com alguma ironia, que a Cruz Vermelha entrega refeições congeladas e um aquecedor para que os velhos alemães não usem o gás, um risco de envenenamento e explosões. Há tempos, em Berlim, metade das residência já era ocupada por idosos.
Em defesa da entrega da chamada refeição sobre rodas mais humanizada, lembra um projeto em São Lourenço, onde um grupo espírita distribui quentinhas e conversas dos voluntários. De porta em porta, eles conseguem monitorar as condições de vida dos idosos.
Fragilidades
Com voz pausada, conversa fluente, mesclando imagens de filmes clássicos a citações de filósofos e psicanalistas, Tomiko nos conduz à colonização japonesa, onde casais jovens podiam “adotar” um adulto para imigrar para o Brasil. O trabalho duro nas lavouras de café exigia “três enxadas”, explica. Muitos desses agregados permaneceram pobres e sem constituir família. Na velhice, passaram a representar um problema de assistência social para as comunidades japonesas.
Entre casos do passado profissional, no Asilo de Mendicidade e Velhos, na Zona Norte, onde a incapacidade era resultado dos acidentes vasculares, e a rotina do presente, da saudável convivência com amigas intelectuais, longevas e atuantes, Tomiko convida à reflexão sobre a necessidade de ser cuidado na velhice, independente da classe social. O abandono e a demência, ensina, não são dramas exclusivos da pobreza.
“A gerontologia valoriza demais a autonomia e esquece que somos frágeis, vulneráveis”, adverte. “Hoje temos saúde; amanhã você tropeça”, justifica.
Entre tantas lições, Tomiko fala de ética, respeito, condena a infantilização do idoso. Desmitifica a família como única alternativa para cuidar dos velhos. Critica as restrições severas demais ao cardápio, já que o alimento nutre também a alma. E convoca a platéia de cuidadores e especialistas a fazerem a defesa da regulamentação da profissão. Sem esquecer de uniformizar os currículo dos cursos de cuidadores, de formar melhor os formadores e do essencial – se cuidar. “Cuidar dos outros é um aprendizado que vai além da escola”, afirma.
Palmas para Tomiko Born. A energia da palestra flui entre as participantes de todas as idades que trocam contatos e projetos. Algumas idosas, de acordo com a legislação brasileira e, segundo o Censo 2010, uma população a cada dia maior.
Leia mais sobre o Censo 2010 no Portal do IBGE, no Estadão.com, no Globo.com
Baixe aqui o Manual do Cuidador da Pessoa Idosa.
Baixe aqui A Formação de cuidadores, acompanhamento e avaliação.
Veja aqui outras publicações de Tomiko Born, do CIAPE.
Fonte: QuemCuidadeMimBlog, 1/5/2011. http://quemvaicuidardemim.wordpress.com/2011/05/01/gracias-a-la-vida-o-brasil-esta-envelhecendo/