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Grupos de pesquisa se animam para estudar embrião


Cientistas de vários Estados afirmam que transição para novas células é viável, mas apontam incertezas 01/07/2011 - por Salvador Nogueira e Reinaldo José Lopes na categoria 'Diversos'

Em princípio, os pesquisadores brasileiros que hoje estudam o potencial terapêutico das células-tronco adultas teriam poucos problemas para se adaptar às perspectivas abertas pela nova Lei de Biossegurança. A instrumentação de laboratório e os métodos de cultivo que eles já usam são suficientes para enfrentar o desafio de transformar também as células-tronco embrionárias, em tese mais versáteis que as adultas, em futuras opções de terapia.

‘Os equipamentos são basicamente os mesmos’, contou à ‘Folha de SP’ Rosalia Mendez Otero, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da UFRJ. Otero e seus colegas Radovan Borojevic e Hans Dohmann (este do Hospital Pró-Cardíaco, também no Rio) ganham manchetes desde 2002, graças à recuperação de pacientes cardíacos terminais com células-tronco adultas da medula óssea.

‘Nossa idéia é continuar com os protocolos clínicos que já temos e compará-los com as células embrionárias – mas primeiro só com modelos experimentais [em laboratório e com animais]’, diz. Esse, aliás, é o xis da questão: a promessa das células-tronco embrionárias como arma contra diabetes, mal de Parkinson e uma infinidade de doenças ainda precisa ser testada e retestada com esses modelos de laboratório.

Em tese, as células-tronco embrionárias poderiam ser usadas para ‘fabricar’ qualquer tecido do organismo, dos neurônios do cérebro às unhas do dedão do pé. Elas surgem quando os mamíferos (e o homem) não passam de uma bolinha oca de umas cem células, com cinco dias de vida.

Segundo a maioria dos pesquisadores, elas seriam ainda mais poderosas do que as células-tronco adultas, mas eles ainda sabem muito pouco sobre como fazê-las se transformar nos tecidos que desejam ou evitar que causem efeitos indesejados, como câncer. O que não impediu os pesquisadores brasileiros de ganhar experiência na área muito antes da liberação dos estudos com embriões humanos. Para os grupos que trabalhavam com células-tronco embrionárias derivadas de animais, o esforço agora permitido ganha cara de continuidade.

Experiência prévia

‘Eu já tinha um bocado de experiência com células-tronco de camundongo. Agora queremos fazer a mesma coisa com embriões humanos’, diz Eliana Abdelhay, do Inca (Instituto Nacional de Câncer), no RJ. Usando roedores como modelo, a equipe se concentrava em desenvolver as chamadas células CD34, consideradas as ‘mães’ de todos os componentes do sangue.

Outro grupo que segue a mesma linha de pesquisa é o de Lygia da Veiga Pereira, do Instituto de Biociências da USP. Ela já havia conduzido experimentos com células-tronco de camundongo e havia iniciado recentemente testes com linhagens celulares derivadas de embriões humanos. O material foi importado dos EUA, do laboratório de Douglas Melton, da Universidade Harvard.

O pesquisador, que tem um filho diabético, conseguiu estudar as células mesmo sem o apoio do governo americano, que proíbe esse tipo de pesquisa, e ainda distribuiu de graça linhagens delas pelo mundo. Ricardo Ribeiro dos Santos, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) da Bahia, também já usava as células de Melton. Com a aprovação da lei, ele é um dos que pretendem derivar linhagens embrionárias tupiniquins.

Cautela e canja de galinha

Santos mostra uma cautela saudável em relação à expectativa que a nova legislação criou. ‘Essa mudança vai ser importante do ponto de vista de pesquisa, mas o reflexo para os pacientes, por enquanto, vai ser muito pequeno’, adverte. ‘Serão necessários pelo menos quatro ou cinco anos de pesquisa antes que eu consiga obter autorização para testar algum tipo de tratamento, e isso é porque eu estou num hospital’, complementa Abdelhay.

A equipe de Santos também deve manter esforços paralelos nas frentes adulta e embrionária.  O pesquisador já tratou com sucesso doentes com mal de Chagas e está esperando autorização da Conep (Comitê Nacional de Ética em Pesquisa) para tentar o mesmo em pessoas que precisam de transplante de fígado.

Já Mayana Zatz, chefe do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP, pretende desenvolver linhagens que ajudem a combater as distrofias musculares, doenças sem cura causadas por defeitos genéticos. A busca de tratamentos, no entanto, não é a única motivação por trás do estudo das células-tronco embrionárias. Muitas vezes, antes que se desenvolva uma cura, é preciso entender como a doença se desenvolve.

Para esses casos, é útil usar o embrião como modelo em miniatura do que vai acontecer com o organismo adulto.  A idéia, impulsionada pela possibilidade de clonar embriões a partir do DNA de pessoas com a doença (técnica proibida no Brasil, mas liberada em países como o Reino Unido), é o foco atual das pesquisas de Ian Wilmut, do Instituto Roslin, o criador da ovelha clonada Dolly.

Testes humanos ainda são muito arriscados

Nenhum tumor é presença agradável no organismo de alguém, mas o chamado teratoma (‘monstruosidade’, em grego latinizado) provavelmente ganha o prêmio de mais assustador: uma maçaroca de todos os tecidos possíveis, de músculo a dentes completamente formados. Pois o aparecimento desse tipo de aberração celular é uma ocorrência comum nos atuais estudos com células-tronco embrionárias. E não é só isso.

O teratoma é o resultado mais comum de injetar essas células num animal antes que elas estejam diferenciadas -ou seja, antes que já tenham assumido pelo menos parte das funções do tecido que se quer reconstruir. ‘Mas pode acontecer que você consiga diferenciar as células, e elas se ‘desdiferenciem’ depois mesmo assim’, conta Rosalia Otero.

É uma das dificuldades do tortuoso caminho que pode conduzir a uma terapia. Outras também são comuns.  Para começar, ninguém sabe direito como induzir as culturas de célula a evoluir para o tecido que se quer. ‘Para quem não tem muita prática, funciona muito pouco. O processo é totalmente empírico, depende de tentativa e erro’, afirma Eliana Abdelhay.

‘E mesmo assim não funciona sempre, ou na mão de qualquer um.’ E, paradoxalmente, também é um pesadelo laboratorial (e financeiro) ‘segurar’ a diferenciação das linhagens para que elas possam ser usadas constantemente.‘Elas basicamente fazem o que querem’, diz Ricardo Ribeiro dos Santos.

‘Uma das substâncias usadas para mantê-las indiferenciadas, o LIF [fator inibidor de leucemia, na sigla inglesa], custa US$ 2.000 o frasco. E ele é só uma das substâncias utilizadas para isso’, conta o pesquisador. Com tantas chances de que algo dê muito errado no meio do caminho, pode-se imaginar que a demanda por embriões será alta. ‘Acho que vai haver uma corrida por embriões, como existe com tudo’, conclui Abdelhay.

Fonte: Folha de S.Paulo, 6/3/05, reproduzida em JC e-mail 2720, de 07/03/2005.


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Atualizado em 21/05/2012 15:18:55