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Não importa saber se embriões têm alma


Talvez não seja absolutamente inquestionável que um embrião humano de três a cinco dias seja uma vida humana. Mas também não é absolutamente inquestionável que não seja 01/07/2011 - por Gustavo Smiderle na categoria 'Diversos'

Se toda a sociedade fosse obrigada a pautar-se por convicções religiosas específicas, seria o caso de proibir o consumo de carne bovina, em deferência a respeitáveis tradições religiosas orientais, e de abolir as transfusões de sangue, em consideração às Testemunhas de Jeová.

Seria também o caso de proibir a fabricação de preservativos, em atenção à CNBB e ao Papa. Felizmente a sociedade brasileira é laica, e cada indivíduo pode adotar e professar o credo que bem entender, inclusive nenhum.

Mas, ao contrário do que se tem dito à exaustão, a recente decisão quanto ao uso de embriões humanos para fins científicos e terapêuticos está longe de ser considerada tão simples quanto o consumo de carne de vaca ou o uso de preservativos.

Se o embrião tem ou não alma, não importa a cientistas nem a legisladores. A questão importante e ainda não esgotada é se ele tem ou não status de ser humano. Os argumentos a favor do desenvolvimento de pesquisas com células-tronco são indiscutíveis do ponto de vista dos fins, mas não encaram de frente o dilema ético.

A alegação de que os embriões serão de qualquer forma descartados seria praticamente inquestionável, desde que fosse para valer. Sabemos todos que não é para valer porque não está em discussão a geração de novos embriões destinados ao descarte.

Talvez não seja absolutamente inquestionável que um embrião humano de três a cinco dias seja uma vida humana. Mas também não é absolutamente inquestionável que não seja. Prova disto é o acúmulo de embriões congelados nas clínicas de fertilização, que de outra forma poderiam ter sido descartados sem maiores considerações.

É verdade que nossa civilização ocidental tende a expurgar toda forma de encantamento em sua forma de ver o mundo. Do ponto de vista moderno, as coisas são o que são; não há qualquer traço de transcendência. Mas isto não significa que já não haja coisas sagradas para o conjunto de nós ocidentais.

Continua havendo coisas que todos nós consideramos sagradas, ainda que sem o viés sobrenatural próprio das religiões. E uma dessas coisas é a vida humana, como testemunha a Declaração dos Direitos do Homem, que se pretende universal.

A questão é difícil. Assim como não foi simples dizer sim às pesquisas, tampouco o seria dizer não. Mas, caso estejamos de fato diante de vidas humanas, estaremos diante do incontornável e do inegociável.

*Gustavo Smiderle, jornalista, mestre em Políticas Sociais, é assessor de Comunicação da Uenf.

Fonte: JC e-mail 2720, de 07/03/2005.


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Atualizado em 21/05/2012 08:51:06