O ciclo "Idosos no Brasil: Estado da Arte e Desafios", iniciado em outubro de 2010, em São Paulo, é promovido pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP e Núcleo de Ensino e Pesquisa do Grupo MAIS. Na sua 8ª mesa-redonda, as convidadas foram as psicanalistas Délia Catullo Goldfarb, Maria Júlia Kovács e Miriam Schenkman Chnaiderman.
A psicanalista Délia Goldfarb iniciou sua apresentação colocando as estatísticas nacionais de crescimento e envelhecimento populacional, acrescentando que o envelhecimento é um processo multifacetado que exige uma abordagem interdisciplinar. "Por estarmos falando de uma situação nunca vivida anteriormente em todo o mundo, os profissionais das mais diversas áreas envolvidas com o envelhecimento devem conversar mais, ser mais criativos na busca de novas alternativas para o enfrentamento das questões envolvidas com o tema", afirmou Délia.
Para Délia, "a velhice não é percorrer um caminho já traçado e sim construir permanentemente o novo sujeito, o sujeito velho". Ela ressaltou toda a carga negativa que é trazida com a velhice, fazendo com que a maioria dos idosos tenham muito medo da deterioração, da dependência. Para exemplificar citou a inúmera quantidade de piadas que hoje em dia são feitas com a imagem do velho.
Délia também falou sobre os efeitos da aposentadoria sobre a subjetividade dos indivíduos, assinalando que "a palavra aposentadoria remete àquele que irá ficar nos aposentos, que passa a usufruir de um benefício, e não um direito, e ainda que os aposentados fazem parte de uma classe passiva".
Quando passou a discorrer sobre o estudo da subjetividade em pacientes demenciados (tema de sua tese de doutorado na USP), a psicanalista disse que em alguns casos a demência pode ser um "suicídio psíquico no qual o sujeito se descontrói para evitar a dor da confrontação com a finitude".
Finitude e morte

Dando continuidade ao assunto da finitude e morte, a palestrante Maria Júlia Kovacs, tratou da elaboração de todas as perdas na velhice, como saúde, trabalho, sexualidade, corpo, independência, família, pessoas significativas.
Para Kovacs, "o luto é o processo de elaboração de perdas durante toda a vida e ele deve ser conversado ao longo da existência conforme essas perdas acontecem". Ainda foram abordadas as questões dos cuidados paliativos no fim da vida, quando se falou em morrer com dignidade: respeito pelo término da existência, mínimo de sofrimento, ter as pessoas significativas próximas e até mesmo poder planejar a própria morte.
Maria Júlia Kovacs ressalta a questão do luto não autorizado, ou seja, daquelas pessoas que não aceitam que elas mesmas ou os outros lamentem e tentem essa assimilação das perdas, criando as falas: "toca a vida pra frente", "melhor não falar disso"!
Para finalizar, Miriam Chnaiderman começou sua fala com muita emoção contando a história do próprio pai, Boris Chnaiderman, importante escritor e tradutor das obras de Dostoiévski que, aos 94 anos, portador de um câncer, optou por uma cirurgia arriscada em busca da cura de sua própria doença, e com grande medo da morte.

Para ela, a história de seu pai exemplifica muito os assuntos tratados pelas colegas em relação ao enfrentamento da finitude e do próprio luto, o medo da separação eterna.
A palestrante colocou o paradoxo da nossa contemporaneidade: "numa sociedade de descartáveis, os velhos são os que mais permanecem, mas permanecem como?". Ela continuou: "a velhice incomoda, pois enfatiza uma permanência onde nada permanece, a velhice passa a ser um protesto, a velhice acaba sendo vista como a proximidade da morte".
O medo da velhice é realçado na frase de Miriam Chnaiderman: "Quem olha o velho, não o olha, mas apenas se vê nele e com isso acaba temendo a imagem vista, sem conseguir transpor os aspectos da deterioração do corpo físico e entrar na questão da subjetividade".
*Denise Morante Mazzaferro é administradora e mestranda em Gerontologia pela PUC-SP. Colaboradora do Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento – OLHE.