Remo Susanna Júnior, professor titular do Departamento de Oftalmologia da Faculdade de Medicina, será contemplado pela American Glaucoma Society Awards Comittee (ASG) com o prêmio International Scholar Award. O médico é a segunda personalidade do mundo a receber a homenagem que, de acordo com o comitê, “demonstra o reconhecimento e a gratidão por uma vida de contribuições à pesquisa sobre glaucoma, educação, cuidado com os pacientes e colaboração internacional”.
Nascido na Lapa, em São Paulo, e filho do meio de descendentes de italiano, Susanna conta que sempre quis ser médico. “Meu avô não deixou meu pai seguir a carreira de Medicina e ele acabou virando engenheiro agrônomo”, revela. “Mas quando decidi por oftalmologia, meu pai indagou se iria apenas receitar óculos”, brinca o professor. Das quatro filhas (as trigêmeas de 17 anos e a caçula de 14), duas já têm certeza que seguirão a profissão do pai.
Formado pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp), ele sempre esteve entre os primeiros da turma. Ao concluir a faculdade em 1972, foi convocado para a Força Aérea e ficou um ano na policlínica da aeronáutica na rua Augusta, em São Paulo. Durante a tarde, fazia estágio no Hospital das Clínicas (HC). “Eu andava fardado. Como era época da ditadura, todo mundo saía da sala quando eu chegava; com exceção de um residente, Camargo, que me ajudava e me ensinava. Se não fosse por ele, não teria ficado no HC”, relembra.
Durante o primeiro ano de residência, Susanna criou uma hipótese sobre a relação entre o sistema de drenagem do olho e o uso de colírios, que poderia danificá-lo com mais rapidez. A teoria não vingou na prática, mas chamou a atenção do médico canadense Stephen Drance, que o convidou para trabalhar com ele na University of British Columbia, em Vancouver (Canadá).
Drance gostava de testar os seus assistentes. “Uma vez, nós estávamos diagnosticando um paciente e o meu colega disse que não havia visto nenhum sinal na região avaliada. O doutor Drance deu uma bronca no residente. E então, indagou-me se eu também não havia enxergado o tal sinal. Como não havia visto nada, respondi a verdade. Depois, o médico acabou me elogiando pela minha honestidade, porque não havia sinal algum na região; era só um teste”, conta Susanna.
No Canadá, produziu um dos trabalhos mais citados da literatura, sobre hemorragia no nervo óptico. “Recebi um prêmio de destaque da universidade no Canadá”, conta o oftalmologista. Depois disso, foi convidado a trabalhar por mais tempo por lá. Mas decidiu voltar ao Brasil, por causa da qualidade de vida que era muito diferente do que estava acostumado.
Susanna criou o Early Diagnostic Program (EDP), considerado o melhor programa para diagnóstico de glaucoma. Em 2003, ele foi apresentado na França e desde então é utilizado por diversos professores em universidades de todo o mundo.
Antes, o diagnóstico era baseado na pressão do paciente. “O problema é que 60% do diagnóstico era perdido, já que a pressão flutua ao longo do dia.” O EDP consegue dizer se o glaucoma existe com precisão, já que avalia os sintomas deixados por ele e não apenas a presença dele na hora do exame. “É como se, em vez de tentar flagrar o ladrão, nós procurássemos o que foi roubado, ou seja, provas de que o ladrão esteve na minha casa”. metaforiza Susanna. “Eu peguei os cinco principais achados que o glaucoma faz no nervo óptico e categorizei-os – são pegadas do ladrão”, conclui.
As descobertas do oftalmologista não pararam com o EDP, ele também inventou o teste de Sobrecarga Hídrica para checar se o tratamento do glaucoma está dando resultados. “É um teste de estresse para ver como o sistema de drenagem está funcionando”, explica. Com o teste, também é possível saber qual é a melhor droga para cada paciente. “O tratamento é individualizado por causa deste exame”, completa. Apesar do ceticismo que havia, o teste já foi publicado em revistas nomeadas, como a American Journal of Ophthalmology.
O doutor Susanna repassa todo esse seu conhecimento para os próximos médicos brasileiros: são três ex-assistentes trabalhando como professores associados em universidades dos Estados Unidos e Canadá. Além disso, o Programa de Graduação que ajudou a montar foi exportado para América Latina, Portugal e agora está sendo traduzido para o inglês
Pela oitava vez consecutiva, Susanna é um dos líderes do Consenso Mundial de Glaucoma, cujo tema deste ano é Progressão da Doença. A lista de participação em sociedades de glaucoma é extensa: Fundador da Sociedade Latina-Americana de Glaucoma (SLAG), presidente da Sociedade Pan-Americana de Glaucoma e ex-presidente da Sociedade Mundial de Glaucoma. Também foi fundador da Von Graefe Society dos EUA que busca encontrar outras formas de tratamento de glaucoma que não sejam através do controle da pressão.
Por conta de todo este histórico de pesquisas, estudos e magistérios Remo Susanna Júnior receberá o prêmio International Scholar Award, no 22o Encontro Mundial ASG. “Os nossos olhos não mostram apenas o que a retina vê, mas eles também associam paixões e histórias. Não existe órgão mais bonito e transparente”, conclui o médico.
Entenda o que é o glaucoma
Glaucoma é a designação genérica de um grupo de doenças que atingem o nervo óptico e envolvem a perda de células ganglionares da retina.
A pressão intraocular elevada é um fator de risco significativo para o desenvolvimento de glaucoma. Porém, uma pessoa pode desenvolver glaucoma mesmo com pressão relativamente baixa, isto porque o seu nervo óptico não é tão forte e resistente à pressão.
Com o Early Diagnotic Program (EDP), criado pelo doutor Remo Susanna Júnior, é possível confirmar a presença de glaucoma com mais precisão. Antes o diagnóstico era feito através da pressão intraocular do paciente. “Porém, como ela varia ao longo do dia, 60% do diagnóstico era perdido”, explica o oftalmologista. Com o EDP, os sintomas deixados pelo glaucoma são encontrados mesmo com pressão regulada.
Esses sinais são o notch ou a chanfradura do anel neurorretiniano, a hemorragia do disco, a zona beta fora de região temporal do disco óptico, a assimetria de escavação do disco maior de 0,2 e a alteração da camada de fibras nervosas localizadas ou difusas.
O glaucoma pode ter sintomas distintos, mas uma complicação quase inevitável é a perda visual, que atinge primeiro a visão periférica. A perda visual causada pelo glaucoma é irreversível, mas pode ser prevenida ou atrasada por tratamento. Para isso, podem ser usados colírios prescritos pelo médico. Técnicas cirúrgicas, como laser e implante de drenagem, tornam o glaucoma uma doença que pode ser facilmente controlada, evitando que ela ocasione severos e permanentes danos à visão.
Todas as pessoas devem visitar um oftalmologista para exame de glaucoma a partir dos 35 anos. Se não for tratado, o glaucoma leva ao dano permanente do disco óptico da retina, causando atrofia progressiva do campo visual, que pode progredir para visão subnormal ou cegueira.
Fonte: http://espaber.uspnet.usp.br/espaber/ . Disponível em 6/5/2011