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Promessas e dívidas da biotecnologia


Ao público, cabe manter a vigilância sobre o que prometem pesquisadores, governantes, ambientalistas e jornalistas 01/07/2011 - por Marcelo Leite na categoria 'Diversos'

E fez-se a luz, dirão os entusiastas incondicionais da tecnociência, após a aprovação da Lei de Biossegurança. O obscurantismo foi vencido pela Razão e o país está enfim livre para gozar das maravilhas da biotecnologia, terapias com células-tronco embrionárias e alimentos geneticamente modificados (transgênicos).

Como cautela e caldo de galinha (ainda) não fazem mal a ninguém, aqui vai mais uma frase feita: promessa é dívida. Em algum momento, os pesquisadores terão de resgatar a promissória que alguns deles emitiram em nome de pessoas como Mara Cristina Gabrilli, secretária de Portadores de Deficiência da Prefeitura de SP.

‘É um dia e tanto’, declarou ela à repórter Gilse Guedes. ‘Acredito que daqui a 3 ou 5 anos teremos condições de usar os avanços da ciência para que pessoas como eu possam recuperar os movimentos.’ Em algum momento, a tropa de choque da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) terá de pôr em marcha a Nova Revolução Verde que seus generais reabilitados não se cansam de anunciar.

Resolver o problema da fome, no Brasil e no mundo. Criar vegetais resistentes à seca e a solos tóxicos, ampliando a área agricultável. Alimentos mais nutritivos, duráveis e até terapêuticos, que tragam de fato benefícios para o público, e não só para o agricultor.

Em algum momento, os ‘derrotados’ Marina Silva e Ibama terão de levar algum caso flagrante de negligência ambiental transgênica – cometida dentro do novo ‘marco regulatório’ da biotecnologia – ao recém-criado Conselho Nacional de Biossegurança, com assentos para nove ministros.  Sem isso, ficará patenteada a frivolidade dessa mínima brecha aberta na muralha da CTNBio (aquela comissão de biossegurança do Ministério da C&T que é técnica antes de ser nacional).

Em algum momento, os inimigos dos transgênicos terão de comprovar, com dados, que a engenharia genética é inerentemente arriscada. Ou, pelo menos, que algum cultivar transgênico de largo uso acarreta danos ao ambiente pelo menos tão graves quanto a agricultura intensiva de hoje (pois de malefícios à saúde humana eles falam cada vez menos).

Até lá, o Greenpeace pode sonhar com um veto de Lula. Mesmo as placas de mármore da rampa do Planalto já sabem que o companheiro presidente fez uma opção preferencial pelo agronegócio e adotou o slogan revolucionário ‘Todo poder à CTNBio’.

‘Traição’, talvez, ao seu programa de governo, como argumenta carta-corrente difundida na internet pela Campanha por um Brasil Livre de Transgênicos. Mas não ‘burrice’, ainda que o próprio Lula assim se tenha referido aos transgênicos. Parece mais esperteza, naquela intensidade que acaba engolindo o dono.

Ao público, ou seja, aos consumidores de transgênicos e de outras promessas biotecnológicas, cabe manter a vigilância sobre pesquisadores, governantes, ambientalistas e jornalistas que as propagam. Tomá-los pela palavra, pensar com a própria cabeça e parar de comer na mão de um fundamentalista qualquer. Crescer – e aparecer.

Fonte: Folha de S.Paulo, Mais!, 6/3/05, reproduzida em JC e-mail 2720, de 07/03/2005.


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Atualizado em 20/05/2012 17:36:54