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Todo carinho aos mais velhos


Muitos idosos encontraram no Lar da Terceira Idade do Beiral em Angola, o porto seguro que não tinham em casa dos filhos 18/04/2011 - por portal na categoria 'Diversos'

Abandonar o idoso, pai, mãe ou outro membro da família é uma atitude cada vez mais comum na sociedade angolana. A reportagem do Jornal de Angola ouviu várias sensibilidades e todas são unânimes em afirmar que esta prática é alheia à nossa cultura e, como tal, deve ser combatida. Para Avelino Eduardo dos Santos “nem a galinha despreza os seus pintos”.

Juntando-se aos idosos em sinal de solidariedade e amizade no passado dia 1 de Abril, durante as jornadas de valorização do idoso promovidas pelo Governo Provincial de Luanda, Avelino dos Santos disse ser uma grande tristeza quando a família abandona o idoso, chegando ao ponto de o deixar num lar ou, na pior das hipóteses, na rua.

“Quando um ser humano despreza o seu ente querido, este torna-se irracional e, como tal, não deve conviver em sociedade”, afirma, considerando que a base deste comportamento está na importação de valores alheios à nossa sociedade. “É uma cultura estranha na qual, em muitos casos, o idoso é acusado de feiticeiro”, acrescenta.

Manuela Agostinho, Miss Luanda 2011, considera que o idoso é uma flor a crescer e, como tal, merece todo o apoio, não só da família mas de toda a sociedade.

Para ela, o idoso é um ser que, independentemente da sua idade, tem um lado infantil, carregando no seu interior um mundo juvenil, mas repleto de experiência. Manuela Agostinho apela às famílias que optam por abandonar os seus idosos para pararem com esta atitude, reflectirem e chegarem à conclusão que os jovens de hoje são os velhos de amanhã e, ao maltratarem hoje o idoso, estão a ensinar o seu filho a ter o mesmo comportamento amanhã com o pai. Pura ingratidão Francisco Miguel, de 63 anos, a viver no Lar do Beiral há nove anos, caracteriza a atitude de abandonar o ente querido, só porque ele é idoso e já sem forças, como uma pura ingratidão.

Tio Chico, como também é carinhosamente tratado pela família do Beiral, recorre à passagem das Sagradas Escrituras segundo a qual “tempos virão em que o amor entre os pais e filhos há-de esfriar”.

“Começamos a assistir à realidade da bíblia e hoje verifica-se uma crise de amor, fruto da invasão de culturas alheias à nossa realidade”, lamenta. Para o Tio Chico, os 14 anos de guerra para a conquista da independência, seguidos de quase 30 de um conflito entre irmãos, contribuíram significativamente para o empobrecimento do amor, assim como de outros tantos valores inalienáveis que sempre caracterizaram o povo angolano.

Tio Chico realça o trabalho que as igrejas estão a desenvolver, pregando o amor ao próximo, trabalho que pode, em certa medida, aproximar as famílias e, consequentemente, acabar com esta prática. Uma história amarga Francisco Miguel refugiou-se, em 1975, na antiga República do Zaire, actual Congo Democrático, devido à guerra que assolou o país. Graças aos ventos da paz, Tio Chico regressou à pátria, após 16 anos. Antes de abandonar o país, vivia perto do mercado do Asa Branca, no bairro Tala Hadi. Uma vez regressado, não encontrou a casa que deixara, pois a sua irmã tinha-a vendido, pensando que o irmão nunca mais voltaria.

Perante esta situação, não teve outra solução senão recorrer ao aluguer de uma casa. Em busca de sustento, Tio Chico resolveu fazer viagens de negócios. Comprava produtos do campo nos municípios do Wako Kungo e Gabela, na província do Kwanza-Sul, para vender em Luanda.

Em 1992, numa das idas à Gabela, fracturou o tornozelo da perna direita num acidente de viação. Não recuperou completamente do efeito do acidente, o que o impossibilitou de continuar a actividade comercial. Não havia condições para pagar as rendas e acabou por ir parar ao Lar do Beiral.

Tio Chico tem uma irmã que veio recentemente do Congo Democrático, mas ainda não reúne condições para acolher o irmão. Por essa razão, vai continuar no Beiral. “Não tenho razão de queixa. Os responsáveis do Beiral e a sociedade, particularmente as igrejas, dão-nos todo o apoio”, disse, trajado de fato azul e apoiado a uma muleta. Ausência de valores cívicos A vice-presidente da Associação de Amizade e Solidariedade com a Terceira Idade (AASTI), Zenóbia Bessa, diz que o abandono do ente querido no centro do Beiral ou, na pior das hipóteses, numa esquina qualquer da via pública, é o resultado da perda de valores cívicos e morais que o país conheceu ao longo dos anos de guerra.

Zenóbia Bessa aponta a guerra atroz que o país viveu e que forçou muitas pessoas a ficarem desprovidas de alternativas financeiras, sociais e outras, e, nesta condição de extrema dificuldade, a causa que fez com que o idoso passasse a ser a figura sacrificada, pelo facto de muitos pensarem que este já não tem valor.

Em tempo de paz, a sociedade angolana chamou a si a responsabilidade de dar protecção ao idoso, pois, afirma, não se pode esperar que o Executivo resolva tudo.

Nesse contexto, reconhece a atitude das organizações cívicas angolanas que, em várias acções práticas têm demonstrado que ganharam consciência do seu papel na protecção da pessoa da terceira idade. Na sua opinião, compete à família exercer o seu papel preponderante na protecção do idoso, uma realidade que faz parte da cultura angolana. Fruto da sua idade avançada, há idosos que já apresentam algumas debilidades físicas acompanhadas por determinadas doenças, mas, sublinha, deve-se reconhecer que há outros idosos que ainda têm muita experiência e sabedoria para transmitir aos mais novos. Para a anciã, a atitude de certas famílias em abandonar o seu ente querido não é resultado da ausência de amor, mas sim do desespero da vida, que faz com que se tome esta atitude porque faltou tudo, desde a alimentação, equilíbrio no lar, nalguns casos, até sitio para morar, e como o idoso ainda não morreu, recorre-se ao lar do Beiral como solução.

Por outro lado, as acusações de feitiçaria servem simplesmente de desculpa para se livrarem do seu idoso. Esta atitude desmedida, acrescenta, deve ser prontamente combatida, porque ele deve estar no seio da família e nunca no lar de acolhimento, um espaço reservado àqueles que não têm família. Definindo o idoso como a biblioteca viva, a pessoa que toma conta dos netos quando os pais vão trabalhar e a pessoa que nos pôs no mundo, acrescenta que por essa e outras razões deve merecer todo o nosso respeito.

Como pessoa da terceira idade, mas com energia para ajudar o próximo, a activista Zenóbia Bessa dá o seu contributo no centro provisório da AASTI, cujo objecto social é criar condições para tirar o idoso do isolamento. O centro, com sede provisória no Cassequel do Buraco, atende cerca de dois mil idosos. Pelo menos 50 beneficiam diariamente de uma refeição quente, medição de tensão, exercícios físicos e um acompanhamento médico. Abandono suscita frustração O psicólogo Dianvutu Dieno Bento é da opinião que o abandono da pessoa idosa pelos familiares provoca um profundo sentimento de frustração e revolta. Afirma que se o filho tem hoje uma posição social confortável é graças ao esforço que os pais ou encarregados de educação desenvolveram. Ao abandonar o seu ente querido, explica, o pai pode não o amaldiçoar, mas a nossa consciência repele-nos a razão, que assenta na realidade segundo a qual os pais têm a obrigação de cuidar dos filhos e estes dos pais. Dianvutu Dieno Bento, docente no Instituto Superior de Ciências de Eduacção (ISCED), diz que esta prática não é de origem africana, mas sim duma sociedade individualista.

Fonte: Jornal da Angola, 16/04/11 – Por Felipe Eduardo

Disponível em: http://jornaldeangola.sapo.ao/25/0/todo_o_carinho_aos_mais_velhos_1


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Atualizado em 21/05/2012 13:50:16