Supresa no Festival de Berlim deste ano com o Urso de Ouro de melhor filme para o iraniano “A Separação” de Asghar Fahardi, também diretor do belíssimo “Procurando Ely”, um drama poderoso, moral e social.
O governo iraniano surpreso com o sucesso e a repercussão do filme afirmou para a imprensa que filmes favorecidos pelos críticos mostram uma versão distorcida da República Islâmica. Fique claro que o governo de Teerã mantém um rígido controle sobre a produção cinematográfica, ou seja, tudo que sai para o mundo é devidamente controlado por olhos atentos e dentes afiadíssimos.
Mas para os fãs do cinema iraniano era quase inacreditável viver para ver o diretor Asghar Farhadi receber o prêmio das mãos de Madonna, uma “pecadora” americana, legítima representante do perigo inominável do governo dos aiatolás. Em tempo: Farhadi não chegou nem mesmo a apertar a mão de Madonna, em conformidade com a lei iraniana que proíbe contato entre homens e mulheres que não sejam casados. Ele temia o mesmo constrangimento vivido pelo cineasta iraniano Abbas Kiarostami, que foi beijado por Catherine Deneuve quando aceitou a Palma de Ouro em Cannes em 1997.
Implacável, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Ramin Mehmanparast, quando solicitado a comentar o filme, disse: “É preciso sempre olhar esses festivais com discernimento. Algumas vezes vemos que os que organizam esses festivais dão prêmios valiosos a filmes cujo tema central é a pobreza e as dificuldades de um povo. Isso não deveria fazer nossos artistas ignorarem os pontos positivos e as evidentes características de nossa nação a fim de ilustrar o tipo de coisa bem recebida pelos organizadores de tais festivais”.
Apesar do tema central de “A Separação” ser sobre a difícil dissolução de um casamento “iraniano”, o destaque fica para outras questões mais complexas como lealdade, família, religião e fé. Seus diálogos naturais, cortantes em muitas cenas, arrebataram plateias do mundo todo, obtendo 100 por cento de aprovação dos críticos no site norte-americano Rotten Tomatoes e 94 por cento dos espectadores.
O filme conta a história de uma família formada por Simin (Leila Hatami), Nader (Peyman Moadi) e a filha de ambos, Termeh (Sarina Farhadi, filha do diretor). Quando Simin decide deixar o Irã para dar um futuro melhor para Termeh, Nader decide não acompanhá-la porque precisa tomar conta do seu pai, doente com Alzheimer. Simin volta então para a casa dos pais e Termeh prefere ficar com Nader.
Até esse momento, tudo parece normal e corriqueiro, mas o filme toma um novo rumo quando, para ajudá-lo a cuidar do seu pai, Nader contrata Razieh, que está grávida e aceita o emprego sem o marido saber. Por razões culturais, ele jamais permitiria que ela trabalhasse numa casa em que a esposa não está presente.
Não percebemos, declaradamente, na história de Farhadi, uma crítica a política iraniana - embora ela se faça presente, silenciosamente. Mas, com extrema sutileza, o caminho tomado é outro: o diretor prefere traçar em torno dos personagens, um retrato intenso da sociedade iraniana atual, que inclui justiça, cultura, religião, arbitrariedade, separação de classes e preconceito.
Descrevo “A Separação” como um filme denso, repleto de diálogos pesados, cenas que chegam a incomodar, seja pelo caráter de realidade das palavras e situações vividas, seja pela emoção e troca de olhares culpados e desafiadores todo tempo. Temos a impressão que a qualquer momento a verdade será revelada e com ela todo terror. Mentiras silenciosas percorrem o filme de “A a Z”. E a angústia que incomoda: as mentiras são necessárias? Pode-se conviver com elas? Mas como, se o representante de Deus está lá, presente e encarnado no Livro Sagrado do Alcorão?
Quem espera respostas ou soluções mágicas, se frustra. O filme provoca e toca pelas reflexões que deixa no ar deixa no ar, inclusive se uma criança, seja lá onde for, terá um futuro melhor no seu próprio país ou fora dele. Em última análise, “A Separação” é um filme mais que honesto, é simples porque não induz e nem manipula. Talvez, até por isso, termine em aberto. Esperamos mais e nada, ficamos até os últimos créditos, a luz da sala se ascende e nada. Sem repostas...
Trailer: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=Dlt6-aDWAVI
Referências
POMEROY, R. & KALANTARI, H. (2012). Irã adverte contra sucesso de filme "A Separação". Disponível em http://cinema.uol.com.br/ultnot/reuters/2012/01/17/ira-adverte-contra-sucesso-de-filme-a-separacao.jhtm. Acesso em 02/02/2012.
BRANDÃO, M.S. (2012). A Separação. http://www.jb.com.br/programa/noticias/2012/01/19/critica-a-separacao/. Acesso em 02/02/2012.