Jean Luc Godard situava o cinema "entre a vida e a arte". Ele dizia: "É nesse espaço que a tela escura ilumina, e um novo tempo se anuncia. Tempo-possibilidade de ver histórias nunca vistas e imaginadas, de entrar em contato com novos mundos, de pensar sobre o mundo e nossa existência nele."
Creio que assim pensava o magnífico cineasta japonês, Akira Kurosawa (1919-1998) quando filmou Madadayo, seu mais profundo "Ainda não!", seu último filme, seu testamento, sua despedida particular da vida, compartilhada com todos e com cada um.
O filme é baseado na história real da vida do professor Uchida Hyakken, que se aposentou depois de 30 anos, lecionando literatura alemã, para se tornar escritor. A história começa em 1.943, antes do bombardeio nuclear a Hiroshima e Nagasaki.
Para mostrar seu respeito e admiração ao mestre, todo ano seus alunos e amigos fazem uma festa. Na brincadeira, dizem "Madakai?" ("ainda não?", ainda não se cansou de viver?), e o professor respondia, depois de uma imensa taça de cerveja, "Madadayo" ("não, ainda não").
Um filme lírico, poético, de humor refinado, com cenas que nos fazem querer entrar pelas telas pela delicadeza e sinceridade naquela relação professor-aluno, um retrato comovente de cumplicidade, troca e acolhimento mútuos. Se fizermos uma viagem pelas lembranças, quantos de nós puderam ser brindados com tamanho amor e pureza num bem-querer, assim, tão especial? Como diziam os ex-alunos de Hyakken, o mestre era feito de ouro maciço, valioso e precisava ser cuidado, tratado e querido por todos. Durante seu magistério, ensinou gerações de jovens, alguns, filhos de ex-alunos. Que prazer será esse, o que sente um legítimo professor ao ensinar os filhos dos filhos, bebendo das suas palavras ao longo dos anos, das suas oscilações emocionais, dos olhares críticos, às vezes, ácidos e zombeteiros. Resposta revelada, resposta guardada, no silêncio dos múltiplos e diferentes olhares, que o acompanham pelo tempo.
Palavras dos seus discípulos ao Mestre: "O rio corre, e a água nunca é a mesma. As bolhas flutuam sobre a água estagnada e nunca ficam para sempre. Assim acontece com tudo o que habita neste mundo"
Muito amado e admirado, seus ex-alunos decidem então que todos os anos comemorariam o aniversário do professor, numa festa que denominaram "Ma-ah-da-kai", cuja escrita pode ser traduzida como um "encontro com alguém superior, elevado, divino", nome que retiraram de uma brincadeira de crianças japonesas, entre nós conhecida como esconde-esconde.
No Japão as crianças se escondem e aquele que procura, pergunta cantarolando: "ma-ah-da-kai" (agora já posso?). As outras crianças respondem: "madadayo" (ainda não) ou, se já estão escondidos, "mou i-i-yo" (agora já pode).
Durante 20 anos, na festa do seu aniversário, no seu Madhakai, o Mestre responde, cantando, aos seus discípulos: "Madadayo" – "estou bem de saúde e a morte ainda está longe; não pode vir me buscar". A vida segue, as estações vem e vão. Não há garantias, mas há a incessante luta pela vida.
Dizemos: a vida passa, tudo passa. O filme de Kurosawa mostra exatamente o quão efêmera é a vida, ao mesmo tempo em que mostra a grandeza das coisas pequenas e a pequenez das coisas grandes. Uma vez despertos e livres, quem sabe, podemos ter a grandeza dos elevados e nobres sentimentos que o Mestre com extrema experiência procurou transmitir em todo seu "Madadayo" ou "Ainda Não!".
Nem mesmo a morte do professor pode destruí-los, porque não há destruição, somos brindados com um processo de viver e nele há, também, morte. Não temos olhos preparados para a eternidade, temos olhos para aquilo que encanta, passa, segue e não permanece.
Ao comemorar seu 60º aniversário, o professor Uchida Hyakken diz: "Hoje é um dia especial, é o dia que me torno um genuíno ancião. Todos tem medo do escuro. Isto é próprio do ser humano. Vocês não tem imaginação. Um ser humano concebe a existência de alguma coisa no escuro de sua imaginação, o que impede que se veja algo. O que quer que haja no escuro pode ser perigoso para a gente. Por isso ficamos com medo. É uma coisa bastante lógica."
No que parece ser seu último aniversário, o ritual se repete, mas desta vez, o professor entrega a todos as suas palavras, as mais preciosas: "Gostaria de lhes dizer para encontrar alguma coisa de que realmente gostem. Encontrem algo que sejam capazes de amar de verdade. E quando encontrarem, lutem com todas as forças que tiverem, pelo seu tesouro. E assim vocês terão o tesouro pelo qual lutaram. E irão adquirir o hábito de abraçar as coisas de coração. Este é o verdadeiro tesouro. Será que falei muito difícil?"
Assim o Mestre sonha, sonhos de ouro maciço, como diziam seus discípulos e amigos. Um campo surge, grama verde, 7 crianças correm e perguntam: "Está pronto?" Uma voz de criança (a dele) responde: "Ainda Não!" As crianças insistem e a resposta é sempre a mesma: "Ainda Não!".
Silêncio. Como ninguém mais pergunta, a criança (ele), sai do seu esconderijo para ver o que aconteceu. O Mestre olha, olha a grandeza das coisas, da natureza, um céu de muitas cores e formas.
Com Madadayo, Akira Kurosawa se despede, deixando seu próprio epitáfio, libertando sua criança, sua alma. Heráclito, um dos filósofos gregos mais antigos, por volta de 500 A.C., diz da alma: "Não a encontraria caminhando os limites da vida (alma), mesmo quem percorreu todos os caminhos".
À todos e a cada um dos professores que fizeram e fazem parte da minha vida.
Referências
Grün, A; Müller, W. (2010). A Alma: seu segredo e sua força. Rio de Janeiro: Editora Vozes.
Imagens recuperadas em 10 agosto, 2011, de:
http://www.listal.com/viewimage/680553;
http://www.dvdbeaver.com/film/dvdcompare/madadayo-c.htm
Trailer e sinopse recuperados em 31 dezembro, 2010, de:
http://www.youtube.com/watch?v=-bObIlquRNk
http://www.comciencia.br/reportagens/envelhecimento/texto/env08.htm;
http://www.nipocultura.com.br/?p=648;
http://www.terra.com.br/cinema/drama/madadayo.htm