Eu vos digo: vocês são deuses, filhos do Altíssimo, todos vós!
Entretanto, vão morrer como os homens, como os príncipes, todos vocês tombarão!
(Bíblia, Salmo 81)
Sinopse - Década de 90. Um grupo de oito monges franceses vive em um mosteiro localizado no alto de uma montanha na Argélia. Liderados por Christian (Lambert Wilson), eles vivem em perfeita harmonia com a comunidade muçulmana local. O exército oferece proteção contra as ameaças que surgem, mas os monges a recusam. Preferem levar sua vida de forma simples, dando continuidade à sua missão independente do que vier a acontecer com eles.
Mesmo com o preconceito que sofrem, os monges, após muitas discussões, decidem permanecer sob o risco de sofrerem agressões.
O filme usa cartas escritas pelos monges para reconstruir os acontecimentos.
Eu não tenho medo da morte. Sou um homem livre. (Fala de um dos monges)
Inspirado em fatos reais, ocorridos na Argélia em 1996, "Homens e Deuses", do diretor francês Xavier Beauvois, sustenta a tensão da crônica de uma morte anunciada.
A violência vivida pelos monges e a comunidade, sitiados pelo fundamentalismo islâmico, e o constante exercício da tolerância, são marcas deste filme que sabiamente, consegue explorar, ao mesmo tempo, as questões políticas e religiosas e traçar o complexo perfil de seus personagens.
Durante o filme caminhamos com este grupo de monges através de suas dúvidas ("Eu rezo e não ouço nada."), esperanças ("Se a morte nos alcançar, apesar de tudo, porque até o fim vamos tentar evitá-la. Nossa missão aqui é ser irmãos de todos. Lembrem-se que o amor é eterna esperança. O amor suporta tudo.") e indignações ("Os homens nunca fazem o mal tão completamente e alegremente tal como quando o fazem por convicção religiosa"- Pascal).
Tudo ocorre em meio a orações, cânticos, trabalho agrícola e socorro aos necessitados, numa atmosfera que contrasta violência e incompreensão, com silêncio, contemplação e a quase "súplica" pela tolerância; sentida numa das cenas mais provocativas do filme: um helicóptero do exército com seu fúsil em posição de ataque sobrevoa o mosteiro, os monges imersos em suas orações, são "invadidos"; eles se levantam, se abraçam, clamam pelo olhar do Senhor, pela Palavra e cantam porque só a música poderá conduzi-los a Ele.
O filme nos convida à reflexão sobre o "gosto do domínio" alavancado pelo poder desenfreado dos homens, marca de um modelo de colonização onde a pobreza e a dependência se fazem presentes a todo momento.
Christian, líder do grupo, fala ao coração dos monges, destaca aquilo que ele considera ser o propósito da vida, sejam Deuses ou Homens:
Depois, encontramos salvação na realização de nossas tarefas diárias. A cozinha, o jardim, as orações, os sinos. Dia após dia, tivemos que resistir à violência. E, dia após dia, eu...acho que cada um de nós descobriu a que Jesus Cristo nos convida. É...para nascer. Nossa identidade como homens vai de nascimento a nascimento. E de nascimento em nascimento, vamos acabar trazendo para o nosso mundo o filho de Deus que nós somos. A Encarnação, para nós é permitir a realidade filial de Jesus para se encarnar em nossa humanidade. O mistério da Encarnação continua naquilo que vamos viver. Desta forma, o que já vivemos aqui tem raiz, assim como o que vamos viver no futuro.
Novamente música, a cerimônia, talvez do "Adeus", o vinho (o sangue de Cristo). Emoção...lágrimas...sentimentos expressos em olhares de esperança.
Ficha Técnica: O título original do filme Homens e Deuses é Des Hommes et des Dieux, direção de Xavier Beauvois. Duração: 122 minutos. Gênero: Drama. País de origem: França, 2010.
Trailer: "http://www.youtube.com/watch?v=zZYvzlQwZDQ" http://www.youtube.com/watch?v=zZYvzlQwZDQ
Engenheira, Psicóloga e Mestranda em Gerontologia pela PUC/SP. E-mail: lh0404@terra.com.br.