Germain (Gérard Depardieu) é um feirante, uma espécie de faz-tudo numa pequena cidade do interior da França. Mora com a mãe, relaciona-se com uma mulher mais nova, motorista de ônibus, e bebe com os amigos de trabalho. Durante suas folgas, Germain se senta em uma praça para comer um sanduíche, e numa certa tarde conhece a nonagenária Margueritte (Gisèle Casadesus). É ela que, pela literatura de Albert Camus e Romain Gary, introduz Germain ao prazer das letras.
Sinopse
"Minhas Tardes com Margueritte" é um retrato sensível e delicado sobre a amizade, um encontro que se faz e se constrói pelas diferenças, e mais ainda: entre estranhos. Claro, que isto só se torna possível com o desempenho de seus dois protagonistas, Gérard Depardieu e Gisèle Casadesus que dão vida, força e coerência a seus personagens, sem cair nos perigosos clichês que muitas vezes surgem com temas como esse. A partir de um romance de Marie-Sabine Roger, Jean Becker acerta no roteiro e na direção não apelando para as mensagens óbvias da "velhinha" que ensina literatura ao pobre "ogro francês". O filme vai além, sugere trocas possíveis, cada um oferecendo aquilo que tem, seus próprios recursos, numa proposta de humanidade tão rara nos dias de hoje. Não há desnível, nem piedade mútuas, mas compreensão nesta relação entre estranhos, não tão distantes assim em suas inquietudes: a solidão e a rejeição se apresentam em mão dupla e são compartilhadas carinhosamente.
A amizade entre os dois surge de um encontro numa praça onde ela, Margueritte, costumeiramente se senta para ler, e ele, Germain para fazer o seu lanche. Um certo dia os estranhos começam a conversar sobre os pombos, pombos que Germain identifica pelos nomes. Já a adorável Senhora, é uma apaixonada por livros, generosa, como todo "verdadeiro" amante das letras sabe ser e sugere compartilhar com o novo amigo um romance. Margueritte lê em voz alta para Germain "A peste", de Albert Camus e elogia Germain: "Você é um ótimo leitor", ela explica ao ver a surpresa do amigo: "Ler é também escutar".

Assim as tardes passam, os dias passam e esta nova amizade acaba por estabelecer novos padrões para a vida dos "tão diferentes entre si". Germain é semi-analfabeto, tem falas descuidadas, mas seu imenso coração fala mais alto, se sobrepõe aos deslizes da linguagem.
É interessante ver no desenrolar do filme, os caminhos que levam este "ogro francês" a se tornar a companhia ideal para a vida solitária de Margueritte, que mora numa casa para idosos e recebe visitas, um tanto, esporádicas de um sobrinho que vive na Bélgica.
Construindo personagens humanos, com angústias bem conhecidas de cada um de nós, Jean Becker oferece ao público um trabalho sutil, delicado na construção da dinâmica familiar vivida entre Germain, sua mãe e um então pai desconhecido.
"Minhas Tardes com Margueritte" não nos deixa sucumbir às terríveis "gotas salgadas" que insistem em brotar dos nossos olhos. Sucumbimos sim, pelo desejado encontro, talvez inesperado, talvez esperado, mas cheio de delícias e surpresas que tantas Margueritte´s e tantos Germain´s podem nos oferecer.
Ficha Técnica
O título original do filme Minhas Tardes com Margueritte: La Tête en Friche, direção de Jean Becker. Duração: 82 minutos. Gênero: Comédia. País de origem: França, 2010.
Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=9M3ArjDkPvA
Engenheira, Psicóloga e Mestranda em Gerontologia pela PUC/SP. E-mail: lh0404@terra.com.br.