
O renomado compositor e maestro alemão Gustav von Aschenbach viaja para Veneza com o objetivo de recuperar-se de uma estafa provocada pelo excesso de trabalho e em meio a uma crise existencial. Apaixona-se pelo belo adolescente Tadzio “a manifestação terrena da mais intocada beleza imaginada”.
O filme é baseado na obra de mesmo nome escrita por Thomas Mann[1], prêmio Nobel de Literatura de 1929; neste livro, Aschenbach é um escritor. A atração por Tadzio é um “... amor platônico, em todos os sentidos da palavra, de um velho poeta por um belo adolescente...”[2].
A beleza e juventude de Tadzio ao mesmo tempo atrai e oprime o compositor. O filme mostra como o fascínio pelo belo, a busca pelo sublime e pela perfeição se contrapõe à realidade.
A história se passa no início do século XX (na chamada belle époque, no período imediatamente anterior à eclosão da I Grande Guerra Mundial), no mês de maio, época do verão europeu em que Veneza está repleta de turistas. A bela Veneza é assolada por uma epidemia, como a alma de Aschenbach, que mergulha em decadência.
Morte em Veneza pode ser considerado um filme sobre a beleza, e sobre a perda da beleza. O personagem principal, Aschenbach, é um homem sensível, culto, criador. Ama a beleza acima de tudo. É um homem extremamente só: pouco fala e, quando o faz, fala o mínimo necessário, muitas vezes com ar de enfado, como se o interlocutor estivesse tirando-o forçosamente da solidão em que se recolheu. Apresenta um ar depressivo, cansado e abatido, com olhar marcado por profundas olheiras.
Aschenbach considera a arte suprema; para criá-la, o artista tem que ser exemplar, não pode ser ambíguo. O talento é um dom divino, e o artista deve ser puro. Mas Aschenbach está em crise, e se pergunta se é possível a criação do belo, se o criador não peca. A arte não seria o amálgama entre o mal e o bem? Aschenbach perdeu o talento. Perdeu a pureza. A beleza de Tadzio é suprema, irresistível. Uma beleza andrógena, delicada, quase feminina. A atração por Tadzio traz culpa, decadência. Não há mais tempo: a areia da ampulheta já se encontra na parte de baixo. O fim está próximo: “Eles o julgarão e o condenarão. Sabedoria, verdade, dignidade humana – tudo acabado. O homem e o artista são um só: alcançam o fundo juntos”.
A belíssima trilha sonora é baseada principalmente em obras do compositor alemão Gustav Mahler. Morte em Veneza é considerada uma das grandes obras do diretor italiano Luchino Visconti.
Cenas comentadas
- O vapor que traz Aschenbach para Veneza tem por nome “Esmeralda”, pedra preciosa na cor verde, símbolo da esperança, permitindo-nos metaforizar que o que leva o compositor àquela cidade é a esperança de recuperar o que considera perdido: juventude, saúde, alegria, talvez o amor...
- A cena em que, conversando com o pianista de sua orquestra, o maestro faz uma reflexão sobre a finitude do tempo, diante de uma ampulheta, concluindo que o tempo se esvai muito rápido.
- A despedida que o maestro faz do jovem: “Adeus Tadzio, foi tudo muito breve. Que Deus o abençoe.”. (A permanência em Veneza? A vida e juventude do próprio Gustav?).
- Em determinada cena, Tadzio e a prostituta tocam a mesma música ao piano (“Pour Elise” de Beethoven). A mesma música teria por objetivo colocar no mesmo patamar de amor erótico os sentimentos pelo adolescente e pela jovem do bordel? Ou remeteria ao tema de amores proibidos?
- Uma das poucas cenas em que o maestro apresenta um ar quase alegre é a em que volta ao Lido e sabe que irá reencontrar-se com Tadzio. Está sem o casaco, sem o cachecol, leve e corado – o vestuário refletindo seu possível estado de espírito.
- Ao chegar ao hotel, Gustav saúda o adolescente na praia. A quem ele realmente acena: ao jovem que representa sua juventude e beleza perdidos, ou ao jovem por quem se sente apaixonado?
- Numa das cenas em que vê o jovem, de costas vemos o maestro se auto-abraçando. A quem ele gostaria de enlaçar: sua beleza e juventude, ou é amor carnal o que sente pelo rapaz?
- Numa das cenas em que estão na igreja, o compositor declara “Eu te amo” a Tadzio. Quem ele ama, o jovem ou aquilo que o jovem representa e que ele não tem mais?
- Na casa de câmbio, o responsável pelo estabelecimento conta a verdade sobre a peste que assola a cidade, a cólera asiática originária do Rio Ganges e que já fez muitas mortes, sugerindo que parta imediatamente. Talvez este conselho seja a possibilidade de manutenção da vida do maestro, mas ele volta ao hotel até que a morte o apanhe.
- A cena do barbeiro, em que o profissional pinta os cabelos e bigode de Gustav, apara o bigode, pinta o rosto e lábios e coloca uma rosa cor-de-rosa na lapela do maestro (não podemos nos esquecer que a rosa nesta cor é o símbolo da juventude). A frase que o profissional diz é marcante: “Não somos mais velhos do que nos sentimos”. Ao terminar o trabalho, o barbeiro declara: “Agora pode se apaixonar quando quiser”, como se o apaixonamento fosse um privilégio exclusivo dos jovens, bonitos e bem arrumados.
- A cena final em que o maestro morre ao mesmo tempo em que a tinta de seus cabelos escorre por sua fronte. No final, seu corpo de velho e já sem vida é transportado por dois jovens, num simbolismo de que o velho deve dar lugar aos jovens.
Morte em Veneza e a questão do envelhecimento
O envelhecimento é apresentado como uma época de perdas: Aschenbach julga que perdeu a saúde, beleza, juventude, alegria; relembra que perdeu a filha à morte; tem pesadelos em que teme perder a fama e, por fim, perde a própria vida.
A velhice é apresentada como algo macabro, triste, inexorável, conforme atesta uma das frases do filme que retrata o pensamento de Aschenbach a respeito de si próprio: “Não há impureza tão impura quanto à velhice. E você está velho”.
A peste que castiga Veneza e que, por fim, abate o maestro pode ser interpretada como uma metáfora do próprio envelhecimento: quando chega, não há como escapar.
O maestro morre de forma solitária, olhando de longe a juventude que brinca e se diverte, representada por Tadzio e o amigo lutando na praia. Os artifícios para dissimular a velhice não surtem efeito, mas se derretem no calor da febre e doença, transformando a tentativa de simulação em degradação.
Como o filme nos remete ao início do século XX, podemos observar que a idéia de envelhecimento variou bastante nos últimos cem anos. Nos dias atuais, pela própria aparência física e faixa etária, o cinqüentenário Aschenbach não seria considerado um homem velho, no máximo um integrante da faixa de meia idade; com incentivo sócio-cultural para mudança de carreira, retomada de novas demandas na vida; enfim, alguém que poderia re-inventar sua própria existência para usufruí-la de maneira mais plena e satisfatória. Sob este enfoque, vemos claramente que o processo de envelhecimento é muitíssimo influenciado pelo contexto sócio-histórico-cultural e que nossa época trouxe mudanças bastante favoráveis ao inevitável fato de envelhecer.
Ficha Técnica
título original: Morte a Venezia
gênero: Drama
duração: 2 hs 10 min
ano de lançamento: 1971
estúdio: Alfa Cinematografica
direção: Luchino Visconti
roteiro: Nicola Badalucco e Luchino Visconti, baseado em livro de Thomas Mann
produção: Luchino Visconti
música (não original): Gustav Mahler, Franz Lehár, Ludwig van Beethoven
fotografia: Pasqualino De Santis
direção de arte: Ferdinando Scarfiotti
figurino: Piero Tosi
edição: Ruggero Mastroianni
Marisa Berenson (Sra. von Aschenbach)
Björn Andrésen (Tadzio)
Silvana Mangano (Mãe de Tadzio)
Mark Burns (Alfred)
Principais prêmios e indicações
Oscar 1972 (EUA)Indicado na categoria de melhor figurino.
BAFTA 1972 (Reino Unido) melhor direção de arte, melhor fotografia, melhor figurino e melhor trilha sonora. Indicado nas categorias de melhor ator (Dirk Bogarde), melhor direção e melhor filme.
Prêmio Bodil 1972 (Dinamarca),melhor filme europeu.
Festival de Cannes 1971 (França) prêmio do 25º aniversário do festival. Indicado à Palma de Ouro na categoria de melhor filme.
Prêmio David di Donatello 1971 (Itália) melhor diretor.
Outras produções do diretor Luchino Visconti
Ossessione (1943),
La terra trema (1948),
Bellissima (1951),
Anna Magnani, episódio de Siamo Donne (1953),
Senso (1954)
Le notti bianche (1957)
Rocco i suoi fratelli (Rocco e seus irmãos) (1960)
Il lavoro, episódio de Boccaccio '70 (1961)
Il gattopardo (filme) (O Leopardo) (1963)
Vaghe stelle dell'Orsa...(As Vagas Estrelas Da Ursa)(1965)
La strega bruciata viva, episódio de Le streghe (As Bruxas) (1966)
Lo straniero (O estrangeiro) (1967)
La caduta degli dei (Os deuses malditos) (1969)
Morte a Venezia (Morte em Veneza)(1971)
Ludwig (1973)
Gruppo di famiglia in un interno (Violência e Paixão)(1974)
L'innocente (1976)
*Annette Gorenstein e Lettyce Mohriak são alunas regulares do curso de Psicologia da PUCSP.**Ruth Gelehrter da Costa Lopes é professora da eletiva “Velho DO e NO Cinema: olhares e imagens do envelhecimento humano”, do Curso de Psicologia, PUC-SP, segundo semestre de 2009.