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Revista Portal

Os Descendentes: Um Filme Sensível que Pensa a Existência


Alexander Payne, diretor de ‘Os Descendentes’ fala em entrevista: “Meus filmes sempre falaram sobre homens e mulheres que, insatisfeitos consigo mesmos, se veem diante da perspectiva de uma transformação”. 06/02/2012 - por por Luciana H. Mussi, da Redação Portal na categoria 'Filmografia'

‘Os Descendentes’, filme ganhador do Globo de Ouro e finalista de cinco categorias do Oscar 2012, descreve a crise dos cinquenta anos de um rico advogado, vivido pelo prestigiado astro George Clooney, simplesmente soberbo na sua delicada atuação. Sim, finalmente vemos um filme que aborda os desconfortos e angústias de um homem traído, pai ausente e inseguro. As histórias, sejam elas no cinema, teatro ou na literatura, quase sempre, exprimem catarses pessoais de seus idealizadores.

No caso de ‘Os Descendentes’, não é diferente, que o diga seu diretor, o americano Alexander Payne que completa 51 anos no próximo dia 10 de fevereiro e se confessa um homem em seu próprio momento de transição. Podemos pensar que palavras assim sensíveis são fundamentalmente femininas. Mas não, trata-se, simplesmente de um homem que pensa sua existência. Payne explica:

“Meus filmes sempre falaram sobre homens e mulheres que, insatisfeitos consigo mesmos, se veem diante da perspectiva de uma transformação. Acho que também chegou o meu momento de crescer e amadurecer. Em Nebraska, meu próximo filme, que adiei em função de orçamento, vou investigar as origens gregas de minha família”, confessou o autor de Eleição (1999) e Sideways – Entre Umas e Outras (2004), durante o Festival de Londres.

O filme é uma adaptação do romance homônimo da escritora havaiana Kaui Hart Hemmings. Todo tempo o foco está na encruzilhada moral e emocional de Matt King (Clooney), descendente da realeza local e herdeiro de um dos últimos pedaços de terra virgem do Havaí.

Subitamente, após um acidente de barco que deixou sua esposa em coma profundo e irreversível, ele se vê obrigado a lidar, ao mesmo tempo, com a rebeldia das duas filhas que não respeitam sua autoridade de pai e a descoberta da traição da esposa que não pode mais ser confrontada ou resolvida e o compromisso de dar um destino à, quase, falecida infiel.

Como se tudo isso não bastasse, Matt tem ainda que decidir: vender um pedaço de terra que pertence à família desde tempos imemoriais; ou tentar conservá-lo por mais uns anos e esperar que a descendência o receba com a mesma gratidão com que ele o recebeu.

‘Os Descendentes’ é um filme, não apenas, sobre as heranças físicas que passam de geração em geração. Ele aborda com extrema sutileza as heranças emocionais, invisíveis, por vezes dolorosas, que passamos uns para os outros - da melhor forma que sabemos ou podemos.

E a família, é sempre essa suprema contradição: a fonte da nossa dor e da nossa alegria, usando as últimas palavras com que George Clooney, absurdamente encantador, se despede da mulher. Mas tudo é feito sem exageros e pieguices, até as conversas e despedidas de pais e filhas com uma esposa, mãe e mulher impossibilitada de responder a todas as perguntas e queixas recebidas.

Os Descendentes pode dar o segundo Oscar a Clooney, vencedor da estatueta de ator coadjuvante por Syriana (2005) e irreconhecível na pele de pai e marido magoado. Payne confessa: - “Ele tem a cara da elite do Havaí”. Em entrevista o diretor explica como se deu a escolha de Clooney como protagonista e seus anseios e projetos de vida:

Em que momento o senhor achou importante ter George Clooney como protagonista?

Ele sempre foi muito generoso comigo e com o meu trabalho. Sempre que tinha oportunidade, vinha me dizer que gostaria de trabalhar comigo. Chegamos mesmo a discutir a participação dele em Sideways – Entre Umas e Outras (2004), antes de, no final das contas, dar o papel para outro ator.

Quando comecei a trabalhar na adaptação do livro que inspirou este filme, pensei que George ficaria muito bem no personagem. Minha intuição foi confirmada quando consultei a Kaui Hart Hemmings, a autora do livro, sobre quem ela achava que poderia interpretar Matt King, o protagonista, ela respondeu: “Ah, eu sempre gostei do George Clooney!”.

Não teve receio de que a figura de Clooney, um rosto conhecido no mundo inteiro, fosse ofuscar o personagem?

Como realizador, a gente ambiciona reproduzir um mundo em filme exatamente como ele deveria ser na vida real, mas nunca pensa na figura do astro que o interpreta. Mas, respondendo diretamente a sua pergunta: não, nunca me preocupei com a imagem de George. Apenas achei que ele seria perfeito para o papel. E acontece que as pessoas da elite de Honolulu, onde a história se passa, que cresceu surfando, frequentou a universidade, gozam de boa aparência, como Barak Obama. Então, George se encaixava perfeitamente na situação.

Assim como seus filmes anteriores, Os Descendentes fala sobre seres humanos insatisfeitos, que se perguntam se conseguiriam ser diferentes do que são. É uma escolha consciente?

Tento fazer filmes sobre pessoas, e não pessoas de cinema ou filmes sobre personagens. Não sei se isso é uma escolha consciente nessas minhas escolhas. Gosto de fazer filmes que sejam de alguma forma bem próximo ao mundo real, que espelhem a condição humana. E como se eu esperasse que Matt King despertasse e crescesse, como espero que eu dia eu acorde e cresça, amadureça.

Este é o seu quinto longa-metragem em pouco mais de 15 anos. Gostaria de poder fazer mais filmes, diminuir o intervalo entre eles?


Só fiz cinco filmes até agora, então acho que sou um homem de poucas ideias. Em geral, elas me chegam através de livros – três dos meus cinco filmes são adaptações relativamente fiéis de histórias alheias. Acho que esta é a parte mais difícil do processo de fazer cinema, encontrar ideias que resultem em um bom filme e que valha dois anos de meu tempo. E sobre o qual as pessoas passem alguns meses falando a respeito, depois que ele é lançado! (risos) Tem que haver um certo poder nela, caso contrário será frustrante.

O senhor se identifica com algum diretor atual ou do passado?

Na verdade, não... Mas isso não significa dizer que eu não tenha respeito por alguns cineastas. Por falar nisso, acho que o filme do ano é esse iraniano ‘A Separação’. Esse sim é um filme de verdade!

As pessoas acham que os efeitos (especiais) de meus filmes são naturalistas mas, quando eu vejo algo como ‘A Separação’, começo a pensar que estou fazendo teatro kabuki ao invés de cinema. Sempre que vou fazer um novo filme, tenho que brigar para me livrar de todos os artificialismos de Hollywood, a luz, as grandes equipes, e todo aquele aparato de trailers e caminhões. Busco o naturalismo. Quando vejo um filme como o do Asghar Farhadi (diretor de ‘A Separação’), não consigo imaginar uma equipe de filmagem no set. Não sei como fazem aquilo.

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=KcCcwVkU2eI&feature=player_embedded.

Referências
ALMEIDA, C.H. (2012). Diretor de ‘Os Descendentes’ diz que o filme do ano é ‘A Separação’. Disponível em http://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/diretor-de-os-descendentes-diz-que-o-filme-do-ano-e-a-separacao. Acesso em 29/01/2012.


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Atualizado em 21/05/2012 22:46:24