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Ciência e Histórias de Família: Uma Intersecção Possível


Numa pesquisa que trilha pela longevidade descobre-se que os velhos podem ter sido a chave do enigma da nossa espécie. 13/02/2012 - por Por Luciana H. Mussi, da Redação Portal na categoria 'Gerais'

Viajar pelas histórias de família nos levam, muitas vezes, a caminhos surpreendentes e a grandes descobertas. Quando coincide sermos, por exemplo, antropólogos e pesquisadores, surge uma possível ciência, a curiosa amante do enigma. E para quê tudo isso? De que servem tantas palavras, idas e vindas numa complexa trajetória? É simples e complicado, tudo ao mesmo tempo: é a eterna busca pelo conhecimento das coisas, da origem de tudo até a derradeira evolução do homem, deste que encontramos hoje, todos os dias pelas ruas.
Da semente do que fomos, passando pela infância, maturidade e velhice: assim contamos o caminhos de nossos pais e avós, raízes que nos deram vida e que nos permitiram estar aqui contando “causos, coisas e ciência”. Desta última chegamos numa história especial, contando, resumidamente, como se deu a pesquisa de Rachel Caspari, professora de antropologia da Central Michigan University. Sua pesquisa concentra-se nos neandertais, na origem dos homens modernos e na evolução da longevidade. E dizer que tudo nasceu da história de família de Rachel:
“Durante o verão de 1963, quando eu tinha 6 anos, minha família viajou de nossa casa na Filadélfia para Los Angeles em visita a meus parentes maternos. Eu conhecia bem minha avó: ela ajudou minha mãe a cuidar de mim e de meus irmãos gêmeos, apenas 18 meses mais novos que eu. Quando não estava conosco, ela morava com a mãe dela, que conheci naquele verão. Venho de uma família longeva. Minha avó nasceu em 1895; a mãe dela, na década de 1860, e as duas quase chegaram aos 100 anos. Ficamos com as duas matriarcas por várias semanas. Foi com suas histórias que aprendi sobre minhas raízes e meu lugar numa rede social que abrangia quatro gerações. Pessoalmente, essas lembranças me ligaram a vida no final da guerra civil e, na era da reconstrução, aos desafios enfrentados por meus antepassados e ao modo como eles enfrentaram as dificuldades”.
Ela continua seu relato com ligeira modéstia:
“Minha história não é única. Os velhos desempenham papéis essenciais nas sociedades humanas do mundo todo, transmitindo sabedoria e apoio social e econômico para as famílias de seus filhos e grupos mais amplos de parentes. Em geral, na era moderna, as pessoas vivem tempo suficiente para serem avós; mas nem sempre foi assim. Quando os avós prevaleceram e a presença deles afetou a evolução humana?”.
Rachel teve sorte porque pode ter avós que representaram muito mais que mensagens de sabedoria: plantaram na criança a semente da curiosidade das coisas, lhe permitiram ter um olhar focado no porquê e como ele se desenvolve, passo a passo. Assim a menina/cientista herda uma representação bastante positiva do “ser velho”. Mas nem sempre a história se dá dessa maneira. A pesquisadora continua:
“O estudo conduzido por mim e meus colegas indica que pessoas com idade de avós se tornaram comuns há pouco tempo na pré-história humana, e essa transformação coincidiu com mudanças culturais em relação a comportamentos distintos, inclusive dependência da comunicação baseada em símbolos sofisticados, como os que sustentam a arte e a linguagem. Essas descobertas sugerem que viver até uma idade mais avançada exerce efeitos profundos no tamanho das populações, nas interações sociais e na genética dos primeiros grupos humanos modernos. Além disso, pode explicar por que eles foram mais bem-sucedidos que os humanos arcaicos.”
Em seguida Rachel relata o nível de dificuldade encontrado no desenvolvimento de sua pesquisa. Ela explica:
“(...) a reconstrução da demografia de populações antigas é bem complicada. Por um lado, populações inteiras nunca são preservadas no registro fóssil; os paleontólogos tendem a recuperar fragmentos de indivíduos. Em contraposição, os seres humanos primitivos não necessariamente amadureceram na mesma proporção que os homens modernos. Na verdade, os índices de maturação diferem, mesmo entre as populações contemporâneas. Mas alguns sítios guardaram fosséis humanos nas mesmas camadas de sedimentos, e assim cientistas podem avaliar com confiança a idade desses restos na hora da morte. Isso é essencial para entender a composição de um grupo pré-histórico.”
Análise de dentes fossilizados de centenas de indivíduos, abrangendo 3 milhões de anos, indicam que viver tempo suficiente para ser avô tornou-se comum relativamente tarde na evolução humana. A autora e sua colega avaliaram a proporção de adultos mais maduros (com idade de avós) em relação a adultos mais jovens em quatro grupos de ancestrais humanos: os australopitecíneos, os membros primitivos do genêro Homo, os neandertais e os europeus modernos primitivos – e descobriram que a prpoprção aumentou apenas ligeiramente durante a evolução humana até cerca de 30 mil anos atrás, quando se elevou rapidamente.
Pelos resultados encontrados, Rachel julga ser possível que, de alguma forma, catástrofes ou condições especiais em que os restos se fossilizaram tenham selecionado a não preservação de indivíduos mais velhos nas regiões estudadas. As pesquisas indicam que morrer jovem era a regra, não a exceção num cenário de vida pré-histórica desagradável, brutal e curta.
Numa trajetória de descobertas científicas, chega-se sempre naquele momento de avaliação do material obtido e, muitas vezes, na obrigatória mudança de estratégia. Assim aconteceu com a cientista e equipe, “Em vez de perguntar quanto tempo os indivíduos viveram, questionamos quantos deles chegaram a velhice. Ou seja, em vez de nos concentrar em idades absolutas, calculamos idades relativas e perguntamos qual proporção de adultos sobreviveu ate a idade em que poderia se tornar um avo. Nosso objetivo foi avaliar as mudanças ao longo do tempo evolutivo na proporção de adultos mais maduros e adultos jovens”.
Assim a conclusão foi inevitável: a sobrevivência de adultos aumentou muito tarde na evolução humana. O que os europeus do Paleolítico Superior fizeram culturalmente que permitiu que tantos vivessem muito mais, ainda continua um enigma. Mas, segundo a pesquisadora,  não há dúvida de que esse aumento de sobrevivência de adultos em si exerceu efeitos de longo alcance.
Pesquisadores da Universidade do Novo México, e outros mostraram em seus estudos sobre diversos grupos modernos de caçadores-coletores, que os avós geralmente contribuem com recursos econômicos e sociais com os parentes, aumentando tanto o numero de descendentes que seus filhos podem ter quanto a sobrevivência de seus netos. Os avós também reforçam conexões sociais complexas.

E como nunca nos separamos de quem realmente somos, de nossas raízes, o mesmo ocorre com Rachel, num encontro obrigatório na encruzilhada da vida, ligando ciência com sua própria história: “Como a minha avó fez, ao contar histórias dos antepassados que me ligaram a outros parentes da minha geração. Essas informações são o alicerce sobre o qual se constrói a organização social humana”.
Segundo seus estudos, os mais velhos transmitem todo tipo de conhecimento cultural, desde o ambiental (por exemplo: que tipos de plantas são venenosas, ou onde encontrar água durante as secas), ao tecnológico (como tecer um cesto ou talvez fazer uma faca de pedra). Ela cita os estudos de Pontus Strimling, da Universidade de Estocolmo, que mostram que a repetição é um fator crítico na transmissão de normas e tradições da cultura. Assim, concluí-se que as famílias com várias gerações tem mais membros para martelar essas lições relevantes.
Pelo visto, a longevidade promoveu o acúmulo e a transferência de informações entre as gerações que incentivaram a formação de sistemas de parentesco intrincados e outras redes sociais e que nos permitem ajudar e sermos ajudados quando as coisas se complicam.
A longevidade trabalhando a favor das relações, promovendo algo raro, mas fundamental nos tempos modernos: a generosidade, um olhar e escuta atentos as necessidades e anseios o outro. Se não vivemos numa ilha isolados ou no interior de nosso próprio umbigo, porque não abrir a porta. Temos, ainda, muito a aprender com a evolução do homem.   
Rachel finaliza afirmando que “A longevidade, inicialmente um subproduto de algum tipo de mudança cultural, tornou-se um pré-requisito para comportamentos singulares e complexos que sinalizam a modernidade. Além disso, essas inovações promoveram a importância e a sobrevivência de adultos mais velhos, levando as expansões populacionais que exerceram efeitos culturais e genéticos profundos sobre os nossos antecessores. Realmente, quanto mais velho, mais sábio”.


Referências

CASPARI, C. (2012). A evolução dos avós. Disponível em http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/a_evolucao_dos_avos_imprimir.html. Acesso em 31/01/2012.


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Atualizado em 22/05/2012 06:54:15