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A pele que recobre a nossa história


A pele é espaço do afeto do prazer, do sensual e da transformação. É interessante pensarmos como a pele, este órgão maior do nosso organismo, está sempre a acompanhar o nosso desenvolvimento. 08/09/2010 - por Dorli Kamkhagi na categoria 'Ideias'

A pele é espaço do afeto do prazer, do sensual e da transformação. É interessante pensarmos como a pele, este órgão maior do nosso organismo, está sempre a acompanhar o nosso desenvolvimento.

A criança, desde o momento em que nasce, é imediatamente envolta nos braços da mãe – que contêm todo o afeto e irá ser um desencadeador de amor e de um crescimento saudável. Neste processo de trocas e sensações, a pele é o canal pelo qual as mais tênues percepções ocorrem.

É comum dizermos “sinto na pele que não vai dar certo”, ou mesmo o contrário. A intuição está de alguma forma veiculada a estas redes sensoriais que se dão nos encontros entre a pessoa e o mundo. Sentimos na pele quando somos queridos e aceitos por alguém, assim como a rejeição é algo que nenhum discurso consegue driblar: é na pele que percebemos muitas vezes aquilo que não gostaríamos de perceber.

Muitos autores nos falam destes vínculos afetivos que não puderam se estabelecer de uma forma tranquila, pois não houve uma boa receptividade entre o cuidador e aquele que precisava ser cuidado. Então crescemos e na nossa pele de adolescente surgem os sinais dos hormônios, tão terríveis marcas das mudanças de um tempo: espinhas.

Todos já vivemos estes dramas que são difíceis, pois a nossa pele é a apresentação ao mundo. Por meio dela aprendemos a perceber e a entender muitas coisas. Às vezes precisamos camuflar com bases, make-ups, plásticas, botox – enfim, esta pele foi prevista para virar centenária. Nunca imaginávamos que iríamos precisar cuidar tanto dela, para que os outros também não deixassem de nos admirar.

A nossa pele é espaço do afeto do prazer, do sensual e da transformação. Por meio deste toque que recebemos do outro sabemos que estamos vivos, que somos importantes para alguém. No encontro sexual, algo de vitalidade e de transformação se passa. No encontro entre a avó e o neto, o reencontro intergeracional nos faz sentir que vale a pena ter vivido.

É sempre pelo toque que percebemos o quanto somos frágeis e carentes, não importa o quanto poderosos ou sábios pensamos ser. Cada um de nós também necessita deste toque, do outro. A sensação de carinho é um reconforto atemporal que nos permite uma reinserção dentro da nossa própria história, aquela que a nossa mãe nos contava, segurando ou nos tocando com a gentileza e o amor que algumas mães podem ter.

Este também é um legado que vivemos no nosso toque: e sensação da nossa existência.

Dorli Kamkhagi - dkamkhagi@ig.com.br - é doutora em Psicologia Clinica, mestre em Gerontologia e pesquisadora Do Lim 27- Laboratório de Neurociências do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo.


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Atualizado em 22/05/2012 14:16:49