A velhice pode ficar mais dolorida. Não basta se preservar do sepultar antecipado do coração. Ou se prevenir com paciência zen budista das rugas na alma. Uma queda física inesperada. E está aí enorme problema. Tal perigo reside ao lado, mais precisamente na casa despreparada ao idoso.
Segundo o SUS, um terço dos atendimentos traumáticos nos hospitais do país ocorre com os acima de 60 anos. E 75% das lesões acontecem dentro do domicilio. 34% das quedas têm fraturas de difícil recuperação. A maior parte dos eventos (46%) acontece no trajeto entre banheiro e quarto - principalmente à noite. A Agência Brasil revela que as quedas de idosos já assumiram dimensão de epidemia. Em 2009 o SUS já contabiliza gastos médicos de R$ 57,6 milhões com internações por quedas de anciões.
As causas frequentes e que potencializam farturas nos senis são: andar sobre pisos molhados, úmidos ou encerados. Andar só de meias ou usar chinelos ou sapatos mal ajustados. Móveis no meio do caminho (gavetas abertas - por exemplo). Escadas com degraus diferentes. Soleiras de portas não niveladas ao chão. Deficiência doméstica na iluminação. Tapetes nos quartos e passagens entre os cômodos. Além da famosa subida em cadeira na troca de lâmpadas. Não levar em conta que a idade altera a visão e provoca desequilíbrio, muitas vezes até causado por remédio. E que existe inevitável enfraquecer de ossos e músculos - contornável com exercício físico.
Necessário é que as famílias - antes das ocorrências - desmontem as armadilhas domésticas - quase inocentes. Muita gente pode achar que a queda de idoso seria normal, mas não o é - tal como afirma a geriatra Silvia Pereira, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Ela na maioria das vezes é decorrente da não adaptação do lar. Enfim, é preciso diminuir degraus. Tapar buracos. E esconder fios soltos ou brinquedos espalhados. Prestar mais atenção no tipo de calçados usados pelos mais velhos. Eles adoram chinelos, mas não podem ter os calcanhares soltos -- explicou a médica. Tudo porque as quedas podem causar prejuízos na qualidade de vida das pessoas na terceira idade.
Melhor do que recordar com lágrimas sorrisos é agradecer no concreto, indo além das palavras, pelas noites mal dormidas de genitor. O fato de um deles ter deixado de se alimentar para que o mais frágil tivesse o que comer ou filho engolir mais generoso pedaço, não tem pagamento.
É possível apenas amortizar jurinhos ínfimos no adaptar do ambiente doméstico. Tudo implica nas mudanças de assoalhos ou escadas ou alterarem os hábitos. Eles (velhos) nunca cobrarão tais gastos, pois sabem que nós já vivemos num mundo aceleradamente mais desumano. E que o tempo para amar com atitudes tem minguado - apressadamente. Mas, eles merecem um ambiente familiar mais seguro - físico e emocional.
Não será preciso, que a gente tenha a cabeça branca e aureolada. O rosto marcado por rugas. Nem que se tenha olhar já amadurecido na lição profícua da dor nesta vida. Ou as mãos enrugadas ou menos morféticas para se começar a retribuir as ternuras recebidas. É preciso sim, porém, volver-se mais rápido à nuança fina do amor mais sagrado. Reaprender o agir sem escutar pedido. Ir além da ilusão da independente. Afinal, o julgar de hoje estabelece o futuro que se receberá. Ninguém é obrigado a plantar, mas a colheita é obrigatória - tal como já dizia minha avó por lição aprendida com minha bisavó ou quiçá tetravó.
*Hélcio Corrêa Gomes é advogado e diretor tesoureiro da Associação dos Advogados Trabalhista de Mato Grosso (Aatramat). E-mail: helciocg@brturbo.com.br
Fonte: http://www.midianews.com.br/?pg=opiniao&idopiniao=1633