Falando da finitude da vida, o saudoso Saramago (1922 – 2010) lembra das palavras de sua avó: "O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer!" Assim, principalmente, nos perguntamos, jovens e velhos: Por que somos obrigados a nos retirar desta vida, se não temos garantias de volta? A Morte não nos oferece garantias, ela é soberana, não presta conta das suas escolhas, não oferta respostas. Usa sua balança avaliando prós e contras, pensa na provável decisão, aponta e está feito: o próximo poderá ser qualquer um de nós, caros leitores. Rubem Alves no site da UOL, fala um pouco de tudo isto, declama poeticamente "Sobre morrer", não por acaso título de seu texto, recheado de inquietações sobre a "maldita", a Morte de todos nós e de cada um, aquela que chega e ordena.
Para expressar tamanho pavor, ele convida o Mestre da Arte e da Tecnologia, Steve Jobs (1955 – 2011) com sua célebre e comentada frase: "NINGUÉM QUER morrer. Mesmo as pessoas que querem chegar ao paraíso. Mas a Morte é o destino de todos nós." Mas, morrer...é da vida. E porque não seria? Vemos a Morte como a grande destruidora, mas ela está lá, no final da linha, será ela que abrirá seus vastos braços para nos acolher silenciosamente.
Rubem Alves com toda sua indignação afirma: "Odeio a ideia de morte repentina, embora todos achem que é a melhor. Discordo. Tremo ao pensar que o jaguar negro possa estar à espreita na próxima esquina. Não quero que seja súbita. Quero tempo para escrever o meu haikai." Todos queremos tempo, precisamos de toda infinitude para o nosso Haikai pessoal. Não há Morte melhor ou pior, ela é como deve ser, inesperada, aquela que se esconde pelos cantos menos prováveis e que subitamente surge em toda sua grandeza. Apenas para esclarecer: Haikai (Haïku ou Haicai) é uma forma poética de origem japonesa, surgida por volta do século XVI, que valoriza a concisão. É a arte de dizer o máximo com o mínimo. Cada Haikai capta um momento de experiência, um instante em que o simples subitamente revela a sua natureza interior e nos faz olhar de novo o observado, a natureza humana, a Vida.
Ainda trazendo outro dos grandes, Alves cita Stéphane Mallarmé (1842 - 1898), poeta e crítico literário francês, no seu "sonho de escrever um livro com uma palavra só". Loucura? Talvez não. A palavra de cada um é tecida dia a dia na trama da Vida. Apenas um sábio saberia como fazer? Discordo. O mais simples dos humanos a encontraria com extrema facilidade. Creio, também, que a última palavra nunca será solitária, nem será abandonada por todas as outras. Porque a Vida com um pouquinho de Morte será sempre sua acompanhante, nunca estaremos sós, mesmo quando a chama da vela se apague.
Para Alves, o último haikai é "o esforço supremo para dizer a beleza simples da Vida que se vai". A Vida neste derradeiro ir se renova, não com esforço ou luta, mas se reveste de novos trajes, cores, formas, ideais, valores e crenças. Quase com revolta ele desabafa: "Tenho terror de ser enganado. Se estiver para morrer, que me digam. Se me disserem que ainda me restam dez anos, continuarei a ser tolo (...). Mas se só me restam seis meses, então tudo se torna repentinamente puro e luminoso." De fato, não estamos preparados para a Morte. Esta senhora não nos pertence, talvez a um certo outro, nunca a nós mesmos. Por mais que a Vida nos seja dura e cruel, quando ela parece estar próxima do fim, quanto desespero, quanta finitude em nossos corações!
"A Morte me informa sobre o que realmente importa. Me daria ao luxo de escolher as pessoas com quem conversar. E poderia ficar em silêncio, se o desejasse. Perante a Morte tudo é desculpável (...)." Alves continua, lembrando dos seus amados Nietzsche, Camus, Guimarães Rosa: "Porque a poesia pertence ao clima de verdade e encanto que a Morte instaura". Não faltaria a música de Bach e Beethoven, nem o prazer de cuidar do jardim e estar integrado com a natureza. Bem, cada um com suas preferências: a mim seria igualmente prazeroso ouvir Milton Nascimento ("tenho nos olhos quimeras com o brilho de sete feras, do sexo pulam sementes explodindo locomotivas...") ou assistir a um dos filmes de Ingmar Bergman e mergulhar em sua atmosfera angustiante ou Akira Kurosawa com a simplicidade de seu gentil "Madadayo" ou Fritz Lang com sua triste "Morte Cansada". Com todos eles eu brindaria a Vida, uma Vida que cede lugar a chegada da Morte com toda sua altivez, glória e soberania.
Alves no seu diálogo particular com a "temida" diz: "Curioso que a Morte nada tenha a dizer sobre si mesma. Quem sabe sobre a Morte são os vivos. A Morte, ao contrário, só fala sobre a Vida, e depois do seu olhar tudo fica com aquele ar de "ausência que se demora, uma despedida pronta a cumprir-se" (Cecília Meireles)." Acredito que a Morte fale numa linguagem incompreensível para nós pobres pecadores, quando o assunto são seus difíceis afazeres. Sempre será, infinitamente mais fácil falar sobre a Vida, até para a temida Morte. Esta linguagem, a da Vida, nós temos capacidade de compreender.
Sobre a pergunta: "Afinal, que é que você está esperando?" Alves traz a resposta do bruxo D. Juan ao seu aprendiz: "A morte é a única conselheira sábia que temos. Sempre que você sentir que tudo vai de mal a pior e que você está a ponto de ser aniquilado, volte-se para a sua Morte e pergunte-lhe se isso é verdade. Sua Morte lhe dirá que você está errado. Nada realmente importa fora do seu toque... Sua Morte o encarará e lhe dirá: 'Ainda não o toquei...'"
O toque da Morte transforma o "suposto eterno" em "concreto finito". No seu simples toque, um aviso é dado: não perca tempo, meu caro jovem ou velho, estou a sua espera. Portanto viva enquanto lhe concedo tempo, desfrute de tudo que lhe encante os olhos, acalente seu coração e desperte sua curiosidade. Acredite em mim: eu, com certeza chegarei e abrirei meu braços apresentando-lhe uma nova Vida.
Com isso, Alves finaliza com a conclusão do feiticeiro: "Um de nós tem de mudar, e rápido. Um de nós tem de aprender que a Morte é caçadora, e está sempre à nossa esquerda. Um de nós tem de aceitar o conselho da Morte e abandonar a maldita mesquinharia que acompanha os homens que vivem suas vidas como se a Morte não os fosse tocar nunca".
Assim como somos tocados e coroados pela Vida, sem ao menos recebermos respostas sobre as nossas inquietudes existenciais, também seremos, um dia, tocados pela Morte, trilhando um caminho que, a princípio, parece interrompido, rumo a novos partos, novas Vidas.
Referências
ALVES, R. (2011). Sobre morrer. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1810201104.htm Acesso em 17/10/2011. Acesso em 18/10/2011.
PAVAN, A. (2009). A avó de Saramago. Disponível em http://alexandrepavan.wordpress.com/2009/01/08/saramago-e-sua-avo/. Acesso em 10/05/2010.
WIKIPÉDIA. Haikai. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Haikai. Acesso em 18/10/2011.
WIKIPÉDIA. Stéphane Mallarmé. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/St%C3%A9phane_Mallarm%C3%A9. Acesso em 18/10/2011.