Muito se escreve sobre “O Tempo”. Às vezes penso, que funcionamos como o senhor coelho do filme “Alice no país das maravilhas” que corre, corre e mal consegue chegar ao seu destino. E a pobre Alice o persegue desesperadamente, passa por várias aventuras, até a rainha má ela enfrenta. Tudo para encontrar o coelhinho de casaca e relógio. Será que Alice corre atrás das benesses do tempo? Este senhor que nos concede a vida, vida essa que poucos de nós sabe aproveitar?
Lendo um texto intitulado “O Tempo”, um pensamento passou “meio de raspão”, aquele que provoca arrepios: o senhor das horas só se faz necessário e urgente quando nos vemos a beira de um precipício chamado “fim”.
O autor conta sua história íntima, mas partilhada com os leitores: “Alguns anos atrás, de um médico que me salvou de um grande problema com uma cirurgia, ganhei um livro do filósofo Sêneca, ‘As relações humanas’. É a transcrição de uma série de cartas que o autor, já em sua velhice, após ter se retirado da Corte do Império Romano e vivendo em sua casa de campo entre os anos de 62 e 65 d.C., escreveu a Lucílio, seu discípulo e amigo. Em uma delas Sêneca diz: ‘Sê o proprietário de todas as tuas horas. Serás menos escravo do amanhã se te tornares dono do presente. Enquanto a remetemos para mais tarde, a vida passa. Nada, Lucílio, nos pertence; só o tempo é nosso’.”
A questão, como diz sabiamente Sêneca, é que “estas horas” passam tão rápido com os deveres e urgências do dia a dia que mal nos damos conta da sua existência. Como a menina Alice que corre tanto para alcançar o senhor coelho e nada encontra. Ela aumenta, diminui, sofre, chora, se alegra, passa por poucas e boas até por um buraco de fechadura! E tudo é ficção. Podemos perguntar, será? A nossa realidade está tão próxima da grande tela, que quase dá para mergulhar nela e viver o tempo controlável. Aquele que se toma nas mãos, aquele em que podemos parar tudo e dizer: roda de novo, mas agora com um texto diferente onde “eu serei o senhor ou senhora das horas”.
O autor continua sua reflexão: “Penso que, principalmente por haver escapado de uma doença que atualmente acomete e mata tantas pessoas, sem sequer ter de fazer nenhum tratamento além da cirurgia, acabei por entender com mais profundidade o que Sêneca tentava passar a seu aluno. Todos sempre falamos bastante sobre o tema ‘como deveríamos viver’, mas dificilmente levamos a vida de modo a aproveitar verdadeiramente o que é a única coisa que realmente nos pertence - o tempo”.
Questiono a frase do autor, como o tempo poderia nos pertencer? O que seria este “verdadeiramente”? Tudo soa muito poético, lembra as frases de grande impacto que mobilizam até as formigas. Mas acreditar e fazer tudo isto ser parte da vida vivida, parece ser apenas para os seres iluminados. Como a maioria de nós deve estar, supostamente, na idade da pedra, passar para patamares bem mais elevados não é assim tão trivial. Uma missão para poucos!
O autor menciona, como exemplo, uma comédia que retrata um empresário de sucesso (o tal da idade da pedra), sem tempo nenhum para a família que, ao ouvir da esposa reclamações desse tipo respondia da maneira mais comum a todos: ‘o que está lhe faltando? Dou a você e às crianças tudo o que me pedem...’ e tudo o mais que todos já sabemos sobre esse tipo de argumento.
Quando a esposa lhe dizia tudo que faltava (sua presença, amor, carinho e companheirismo), sua resposta era a de que não tinha tempo para essas bobagens e que ela deveria estar sempre agradecida de possuir tudo, do bom e melhor enquanto milhões gostariam de possuir o que ela tinha. É aquela frase clássica: dê graças pelo que tem.
Mas, como nada é perfeito, ao desligar o telefone, o empresário recebeu aquela visita que, segundo o autor, ninguém quer receber - a senhora morte -, que lhe informou haver chegado sua hora e que viera buscá-lo.
Apavorado o homem fez todos os apelos possíveis, dizendo que tinha muitos negócios pendentes que dependiam de sua decisão, várias reuniões e viagens de negócios agendadas, centenas de famílias dependentes de suas empresas e tudo o que imaginou possível dizer para convencer aquela senhora a se esquecer dele, chegando inclusive a tentar corrompê-la para ganhar mais quarenta anos de vida.
Depois de ouvir que como não havia aproveitado seu tempo com a família agora sua esposa iria aproveitar a vida com seu dinheiro, mas com outra pessoa, que a levaria a bailes, cinemas, teatros e passeios, o homem ficou ainda mais desolado e implorando muito, ganhou um novo prazo, de mais cinco dias vivo.
Seu desespero com o prazo diminuto foi enorme e nem se preocupando em desmarcar suas reuniões, ligou para a esposa pedindo que preparasse imediatamente suas malas e dos filhos, pois iriam viajar a passeio.
Como diz o autor, o filme é um exemplo clássico do que ocorre com todos, que acabam se envolvendo tanto com trabalho, negócios, sociedade consumista e tentando dar aos seus cada vez mais, acabam perdendo o mais importante, a convivência nas diferentes fases da vida dos seus. E essa frase me fez lembrar de outra comédia “Click”, direção de Frank Coraci, 2006:
Michael Newman (Adam Sandler) é mais um desses executivos que não tem tempo para a família, já que trabalha loucamente com o objetivo de chamar a atenção de seu chefe e se tornar sócio da empresa de arquitetura em que trabalha.
Um dia, exausto de tanto trabalhar, Michael tem dificuldades em encontrar qual dos controles remotos de sua casa liga a televisão. Decidido a acabar com o problema, ele resolve comprar um controle remoto que seja universal, ou seja, que funcione para todos os aparelhos eletrônicos que sua casa possui.
Ao chegar à loja “Cama, Banho & Além” ele encontra um funcionário um tanto excêntrico chamado Morty (Christopher Walken), que lhe dá um controle remoto experimental o qual garante que irá mudar sua vida. Michael aceita a oferta e logo descobre que o instrumento realmente é bastante prático, já que coordena todos os aparelhos.
Porém Michael logo descobre que o controle tem ainda outras funções, como abafar as queixas da esposa, os eventos que ele julga desagradáveis e o principal: também adiantar os fatos de sua própria vida. Neste momento tudo se complica porque não há como pular etapas, “enganar” o tempo. Assim como a senhora morte espreita, o senhor tempo é implacável, ele se faz presente nas consequências das nossas equivocadas escolhas. Michael ao brincar de adiantar os fatos da vida, sentiu, literalmente na pele a ira dos ponteiros do relógio.
No caso do personagem, a ganância e a soberba falaram por ele e como afirma o autor “Nosso desperdício de tempo com bobagens, coisas insignificantes, observações sem nenhuma importância real, discussões tolas e brigas desnecessárias, é imensurável. Mais maduros, podemos perceber, cada vez mais claramente, como perdemos tempo com algo que nada nos acrescentou e pior, muito nos diminuiu. Só com um grande susto passamos a dar importância ao que realmente importa: viver tudo intensamente e com todos que pudermos”.
Que seres difíceis somos nós! Por que só funcionamos a base de um grande susto? E não penso que a maturidade nos traga mais visão sobre a brevidade das coisas. Para alguns, talvez; para outros, apenas a dor do sofrimento de perder-se de si mesmo e dos olhos do outro.
Referências:
LEAL, J.B. (2011). O Tempo. Disponível em http://www.jornaldiadia.com.br/jdd/index.php/artigos-e-opinioes/78324-o-tempo. Acesso em 08/12/2011.