Tinha acabado de ler uma crônica do Drummond: “A bolsa e a vida”. Aí ele conta nunca ter achado coisa alguma em sua vida, sequer um botão, mas, em seguida relata o fato de haver encontrado bolsa de mulher que estivera sentada a seu lado em um coletivo e, absorta na leitura de um livro, desembarcara esquecendo a bolsa no banco. A partir daí ele faz suspense e, em quatro crônicas, descreve a busca pela proprietária.
Agora, estou aqui sem saber qual é o substantivo que se emprega para indicar o ato de achar. Achar, tipo assim (!!) uma coisa perdida ou esquecida por alguém e não algo que você procura intencionalmente – sutil distinção epistemológica.
Pra designar o ato de achar, no sentido que indiquei, em geral empregam-se substantivos incompetentes que ficam muito distantes do sentido original. Achado, descoberta, descobrimento e não mais. Parece que os dicionários ficam meio envergonhados ao registrarem a palavra “achamento” que, para mim é a que melhor indica o sentido do ato de achar, sem que você esteja procurando.
Claro, podia ser também, por exemplo: “achança” ou “achação”, estas porém não tiveram a sorte do “achamento” e nunca foram dicionarizadas.
Toda essa lengalenga semântica é pra contar que diferente do Drummond eu sou um achador ou achante conspícuo – é a primeira vez que uso esse termo – e, além de conspícuo, especializado.
Pois é, minha especialidade achatória (!) é... relógio. Sim, relógio de pulso, não de bolso e muito menos de parede. Já encontrei três e, com isso, me dou o direito de me julgar especialista em achar relógio.
Vou começar pelo último. Estava na praia do Guarujá andando pela areia olhando pro chão. Este hábito de olhar pro chão adquiri, não no tempo da ditadura como queria Chico Buarque, mas no dia-a-dia das caminhadas pelas ruas de São Paulo onde o risco de esmagar produtos caninos é constante.
E foi olhando pro chão na praia que vi aquela pequena maravilha de alta descartabilidade estendida na areia, um relógio do tipo R$1,99. Tomava banho de sol. Pulseira de plástico preto, sem marca definida, mas funcionava. Vi uns garotos que por lá passavam e perguntei se queriam ficar com aquela peça que acabara de achar. Não aceitaram a oferta. Andei mais um pouco e larguei o achado na primeira barraca desocupada.
O achamento anterior a esse da praia foi na Líbero Badaró, quase Largo São Francisco, durante uma passeata de que eu participava. Passeata era comigo mesmo. Só não me lembro a favor ou contra quem era essa. Olhei pro chão e lá estava um relojão de pulso me acenando: me pega, me pega, antes que alguém me esmague! Peguei. Logo vi que era relógio de operário, pulseira de aço, já todo riscado. O que ia fazer com aquilo? Fui até o caminhão de som e entreguei pro cara que animava a passeata e pedi que ele anunciasse a grande descoberta. Caso encerrado.
O primeiro e grande achamento mesmo foi em 1965, lecionava no Senac lá da rua Vinte e Quatro de Maio. O curso era o primeiro destinado à formação de guias de turismo e minha matéria era “Comunicação Humana”. Os alunos eram todos adultos e ao final das aulas saiamos juntos pela calçada da Vinte e Quatro. Devia ser já onze da noite, a rua muito movimentada, vésperas de Natal. Olhei pro chão e quase ia chutando um papel dourado –gente míope é fogo – mas, por sorte me contive em tempo. Abaixei-me e apanhei o tal papel dourado.
Era um belo relógio de ouro ou pelo menos folheado a ouro, pulseira larga também de ouro e com nome gravado. Nome de mulher. Um dos alunos que comigo estava era locutor de rádio, se não me engano, da Bandeirantes. Pedi que ele ficasse com a peça e anunciasse pela rádio, no dia seguinte. Não aceitou ficar com a jóia, mas anunciaria na rádio o achado.
Em casa, procurei na lista telefônica pelo nome da proprietária e nada. O rapaz da rádio anunciou e também sem resultado algum. Acabei proprietário de uma jóia. Era ouro mesmo.
Sintam a ironia das coisas: o 1º achado, relógio de ouro – o 2º, de aço sem valor comercial – o 3º, de “prástico” descartável. Viram a curva da decadência? Tomara que não haja aí nenhum vaticínio embutido!
Isola!!!
*Filósofo e psicólogo e ex-professor de Psicologia do Trabalho na PUC/SP. E-mail:awbiscaro@uol.com.br