Descobri dia desses que um pedaço da história dos meus avós e da infância da minha mãe mora na casa de uma prima, em São Paulo. Durante uma visita, ao passar pela porta de entrada, minha mãe começou a se lembrar de momentos da sua meninice. A prima, que ficava todas as férias com meus avós, gostava tanto da porta em forma de arco que ficava na entrada da casa deles que, quando meus avós reformaram a casa, ela ganhou a tal porta de presente.
Minha mãe conta que por aquela porta entrava a música, a arte e os amigos da família. Na sala de estar, ao lado da entrada, ficava o piano, e era bem ali que todos se reuniam e cantavam. Nos intervalos de silêncio, meu avô brindava os amigos declamando poemas em espanhol. Os poemas, as músicas e a alegria ficaram de certa forma materializados naquela porta de entrada, que hoje enfeita a casa da minha prima.
Resgatar peças antigas e reaproveitar materiais de demolição, além de ser uma proposta ecológica, significa valorizar uma história. Os objetos vão ganhando outros rumos, e novas lembranças são agregadas ao que seria descartado. Escrever esta reportagem me fez perceber que, além de ouvidos, as paredes têm voz e sentimentos. Elas resolveram se confidenciar para você nas próximas páginas.
E a casa cai
Assim como a vida se renova e se recicla, as cidades também ganham novas caras. No livro São Paulo: Três Cidades em Um Século, o arquiteto Benedito Lima de Toledo compara São Paulo a um imenso pergaminho, que tem sua escrita raspada de tempos em tempos, para receber outras palavras. Com as cidades, principalmente no Brasil, em constante reconstrução, nem sempre quem ganha é a história. A demolição das casas antigas ocorre por causa da especulação imobiliária. Os terrenos valem por sua potencialidade construtiva, diz Benedito. Isso significa que, muitas vezes, uma bela casa construída na década de 1920 é demolida para dar lugar a um prédio comercial, que vai gerar mais lucro.
Ainda que, em alguns casos, simbolizem o fim de uma história arquitetônica, as casas demolidas podem emprestar seus pedaços para novas construções. É que pouco se perde do que vem abaixo. Telhas, pisos, tijolos, janelas, portas, quase tudo pode ser reaproveitado. O material de demolição de construções recentes tem preços mais acessíveis. Já o material de casas antigas, de mais de 50 anos, é valorizado, virou coisa chique. Existem até lojas especializadas que vendem esses materiais em seu estado original ou restaurados.
Em uma loja de material de demolição nada é comum. Banheiras antigas, colunas e estátuas, fontes de água e luminárias externas exóticas, portas e mais portas com todo tipo de entalhe na madeira são amostras do que se pode ver. Muitas lojas têm até marcenaria, onde tudo se transforma. Ver o velho virando novo é descobrir que, por baixo da casca, existe vida latente.
Iracema Arcanjo dos Santos, proprietária da loja O Velhão, em São Paulo, uma das pioneiras a se especializar em material de demolição, explica que os itens de mais de 50 anos têm qualidade superior e maior resistência. Madeiras nobres como pinho-de-riga, perobinha-do-campo, peroba-rosa e cedro têm valor pela origem ambientalmente correta. Algumas delas não existem mais na natureza e só podem ser achadas em demolições, diz Carlos Veiga, proprietário da loja Galpão Demolições, de Cotia, São Paulo. Um exemplo é o pinho-de-riga, madeira do norte da Europa, que vinha para o Brasil desde 1880.
Casas e causos
O professor de projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Antônio Carlos Barossi, conta que o material de demolição precisa de mão-de-obra e soluções técnicas diferenciadas. Também a necessidade de planejamento é uma lição vivida na prática por muitos compradores, como uma cliente de Iracema, que trocou uma viagem à Austrália por um belo vitral para a sala do apartamento novo. O vitral era muito grande e, quando ela o levou para o apartamento, precisou fazer uma bela reforma para encaixar a peça nova. A mudança que ocorreria em breve precisou ser adiada por um ano.
Mas não é só em lojas especializadas que é possível garimpar peças antigas. Há 30 anos o corretor de seguros Alceno Zaccharias Baptista construiu sua casa usando como base material de demolição da casa de um amigo! Janelas e portas, tijolos, vigas e até canos antigos foram aproveitados. O amigo precisava demolir uma casa no bairro paulistano do Paraíso. Alceno combinou que, em troca de arcar com a demolição, ficaria com os materiais que quisesse para sua construção. A reutilização não trouxe problemas, as peças estavam em ótimas condições. O único porém é que as janelas são fortes e um tanto pesadas, exigindo alguns músculos para abri-las, diz Alceno.
Objetos antigos, especialmente se pertenceram a um parente ou vêm com uma narrativa, tornam-se bens preciosos. Não porque seu valor seja potencialmente um investimento, mas porque eles trazem uma experiência única, afirma Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP. Isso acontece quando um objeto ganha valores simbólicos, como as lembranças e as histórias que as pessoas agregam a ele.
Assim sente o ecologista Luiz Vicente Campos Filho, dono de uma pousada no Pantanal. Toda vez que ele vê as bancadas pesadas de ipê, que hoje fazem as vezes de mesa na sala de jantar, ele se lembra da rotina da grande fazenda, quando as bancadas serviam para armazenar alimentos. A estrada de acesso à fazenda, hoje também pousada, era tão ruim que nós trazíamos da cidade alimentos em grandes quantidades. Para Luiz, que guarda em cada cantinho um objetolembrança, as referências e as histórias da vida merecem ser celebradas.
Vale uma árvore
A reutilização de materiais de construção é uma proposta que vem do norte da Europa, de países como Alemanha e Holanda, precursores da conscientização ambiental. Caldas foi o arquiteto que introduziu a idéia no Brasil na década de 70, no Rio de Janeiro, diz o arquiteto Gil Lopes. Ele fala aqui do baiano Zanine Caldas, que promovia na arquitetura a integração entre o artesanato brasileiro e o modernismo e de quem foi estagiário. Como estudioso do uso de madeiras na construção civil e apaixonado pela questão ambiental, Caldas criava peças de decoração com troncos e foi um dos pioneiros na construção com materiais de demolição. Lopes conta ainda que o comércio de material de demolição como se conhece hoje, em lojas, é história recente, dos anos 90. Antes disso, quase tudo era comprado por intermédio das demolidoras, nos próprios locais de demolição.
Materiais antigos hoje também ganham novo design, nas mãos de profissionais como Carlos Motta, arquiteto que faz projetos e móveis usando o que chama de madeira de redescobrimento árvores caídas ou madeiras de demolição. As pessoas estão percebendo que é um devaneio trocar tudo, o tempo todo, por peças da moda. Só que não se trata de moda, mas de utilidade, diz Carlos. Uma cadeira serve para sentar, e é possível sentar nela por muitos anos.
Pensando em tudo isso, vale olhar com mais cuidado para suas paredes e as de seus familiares e investigar um pouco as histórias que elas ocultam. Acertava em cheio o escritor irlandês George Moore quando dizia que um homem percorre o mundo inteiro em busca daquilo de que precisa e volta para casa para encontrá-lo.
____________________________
Fonte: Revista Vida Simples. Acessado em15/1/2009.
http://vidasimples.abril.uol.com.br/subhomes/morar/morar_256631.shtml