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Envelhecimento e linguagem. Um estudo da linguagem como prática dialógica e social em idosos.


O fenômeno do envelhecimento e da longevidade vem despertando um interesse cada vez maior nas ciências, pois no mundo todo o ser humano continua a alargar os limites de sua vida 01/11/2010 - por Lilian Juana L. de Gamburgo na categoria 'Memórias'

[...] um sujeito como tal não pode ser percebido nem estudado como coisa, uma vez que sendo sujeito não pode, se continua sendo-o, permanecer sem voz; portanto seu conhecimento só pode ter caráter dialógico

Bakhtin (1985)

O fenômeno do envelhecimento e da longevidade vem despertando um interesse cada vez maior nas ciências, pois no mundo todo o ser humano continua a alargar os limites de sua vida. Assim, nos últimos 15 anos, a velhice e o envelhecimento constituem o tema central de grande número de cursos, pesquisas e grupos de estudo.

A nossa pesquisa, realizada para a obtenção do grau de mestre em Educação, na Universidade Metodista de Piracicaba, teve por objetivo conhecer a linguagem de sujeitos em processo de envelhecimento que possuem as capacidades comunicativas preservadas. O estudo foi direcionado ao conhecimento de sujeitos singulares, pertencentes a um contexto histórico e social determinado. Neste sentido, não tivemos a pretensão e nem existe a possibilidade, quando falamos do idoso, de fazer generalizações, pois o envelhecimento é um fenômeno essencialmente heterogêneo.

Partindo do pressuposto de que cada sujeito é um ser da linguagem, e utilizando narrativas de história de vida obtidas durante entrevistas individuais com seis idosos, com idades entre 61 e 81 anos, trilhamos caminhos que permitissem uma aproximação ao tema linguagem no envelhecimento. Ao mesmo tempo, tentamos apreender como cada sujeito significava sua vida, e como via a si mesmo e suas oportunidades (ou falta) de diálogo. Nosso desejo foi verificar as condições de uso da comunicação verbal em contextos diversos.

Quatro dos sujeitos – três mulheres e um homem, todos solteiros - residiam em uma Instituição de Longa Permanência para idosos (ILPI), situada em uma cidade de porte médio do Estado de São Paulo. Os outros dois - mulheres, viúvas - residiam nos seus domicílios. Todos assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido, de acordo às normas de ética na pesquisa.

Foi elaborado um roteiro/entrevista para orientar o diálogo durante as interações. Na primeira parte, formulamos perguntas que permitiram traçar o perfil social e educacional, e obter informações a respeito das habilidades lingüísticas e mnemônicas. Na segunda parte, os idosos foram encorajados a falar livremente sobre sua infância, família, rotina, interações sociais, expectativas, opiniões e linguagem. A singularidade dos diálogos fez com que cada sujeito abordasse os assuntos de forma peculiar.

Os discursos dos idosos foram gravados e posteriormente transcritos. Queiroz (1991), afirma que a história oral foi, ao longo dos tempos, a maior fonte de dados, permitindo conservar e transmitir o saber, reaparecendo entre as técnicas de coleta de material graças ao uso do gravador que possibilitou captar a voz do entrevistado, a entonação, as pausas e outros dados preciosos para a pesquisa. Dentro do campo da história oral, a história de vida se caracteriza por proporcionar

o relato de um narrador sobre sua existência através do tempo, tentando reconstruir os acontecimentos que vivenciou e transmitir a experiência que adquiriu [...] através dela se delineiam as relações com os membros de seu grupo, de sua profissão, de sua camada social, de sua sociedade global, que cabe ao pesquisador desvendar [...] (Op. cit, p. 6).

Utilizamos como recurso metodológico a narrativa da história de vida por ser um meio fecundo para revelar a substância dos dados, permitindo lidar [...] com as teias de significações que unem as vidas dos sujeitos (Bernardo, 1993, p. 24, citado por Brandão, 2002, p. 190). A memória permite ouvir nos fragmentos de recordações, as muitas vozes sociais contidas na voz inconfundivelmente pessoal de cada sujeito. Assim, a linguagem constitui - também – uma ferramenta para recuperar, expressar, reconstruir e re-significar a memória individual e social.

A orientação teórica foi baseada nos conceitos de Mikhail Bakhtin devido a sua concepção de linguagem como prática discursiva, histórica e social, reconhecendo o papel central da dimensão semiótica na constituição do sujeito. Foi adotada uma abordagem qualitativa para a análise dos dados, trabalho que foi realizado mediante um exame refletido da natureza do nosso objeto de estudo: o sujeito em processo de envelhecimento, que se constitui pela linguagem, e que é histórica e socialmente situado.

Os diálogos propiciaram relatos longos e emocionados. As narrativas relativas à família e às esferas sociais e de trabalho tornaram possível conhecer os contextos de vida e relacionamentos passados e presentes, assim como os sentimentos, crenças, gostos e valores. A memória permitiu trazer à tona pessoas, tempos e lugares de grande significação emocional para cada sujeito, e aspectos da dinâmica histórica e social de cada um.

Através dos discursos foi possível constatar que não importa o lugar social ou as condições de vida do idoso, se mora com a família, numa ILPI, ou sozinho, se tem ou não oportunidades para o uso da comunicação verbal; cada um deles continua sendo um ser da linguagem. Consideramos a linguagem como elemento essencial para a inserção social e para a qualidade de vida, uma vez que todas as esferas de atividade humana pressupõem necessariamente o seu uso.

Esta pesquisa propiciou uma vivência feita de emoções, encontros e empatia. Ao terem a oportunidade de falar de si e de sua vida e sentimentos, todos os interlocutores se mostraram disponíveis e bem dispostos a compartilhar suas histórias e a atender a nossas perguntas e necessidades. Deste modo, foi possível obtermos um material quantitativa e qualitativamente muito rico.

A realidade que tivemos a oportunidade de conhecer se apresenta muito heterogênea, o que nos leva a refletir sobre a importância de percebermos o que é possível ao sujeito alcançar, de fato, em termos de qualidade de vida, em cada um dos contextos em que se encontra.

Os quatro sujeitos que moravam na ILPI foram unânimes ao elogiar a instituição, porém, através dos discursos ficou evidente que na falta de outras possibilidades para passar a velhice, a instituição, mais do que um lugar para viver, era um lugar para sobreviver. A realidade da vida desses sujeitos, por um lado, e a calamitosa situação do sistema asilar brasileiro, por outro, nos levaram a compreender que qualquer outra aspiração em relação ao lugar de moradia teria sido impossível de ser atingida. Comprovamos assim, com grande pesar, que a situação freqüentemente retratada na literatura sobre as ILPI é efetivamente a regra no Brasil.

Escolher uma instituição asilar para coletar parte dos dados tornou possível a aproximação a uma realidade desconhecida e/ou ignorada pela maioria da população. Muitas vezes é mais fácil não saber e evitar aquilo que nos desagrada, fazendo de conta que não nos diz respeito. De todas as realidades, [a velhice] é, talvez, aquela de que conservamos por mais tempo, ao longo da vida, uma noção puramente abstrata... (BEAUVOIR, 1990, p. 10-11 citando Proust).

Na realização desta pesquisa, junto com o objetivo de conhecer a linguagem através da vida relatada e significada por meio das narrativas da história de vida, tivemos sempre como meta agir de forma ética e não-indiferente às questões e tensões relacionadas ao tema do envelhecimento.

Referências bibliográficas

Bakhtin, Michail M. Estética de la creación verbal. Buenos Aires: Siglo Veintiuno. Argentina Editores, 1985.

BEAUVOIR, Simone de. A Velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1970/1990. 4a. impressão. 711 p.

BRANDÃO, Vera M.A.T. Oficina de Memória – teoria e prática: relato sobre a construção de um projeto. Revista Kairós, São Paulo, 5(2): 181-195, dez 2002.

QUEIROZ, Maria. Variações sobre a Técnica de Gravador no registro da Informação Viva. São Paulo: T.A. Queiroz, 1991. 171 p.

[1] Comunicação baseada na dissertação de mestrado - Envelhecimento E Linguagem. Um estudo da linguagem como prática dialógica e social em idosos, defendida em 2006 na Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP, sob orientação da Profa. Dra. Maria Inês Bacellar Monteiro. Elaborada especialmente para o Portal do Envelhecimento – Espaço Memória

[2] Graduada em Fonoaudiologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Licenciada em Sociologia pela Universidad Nacional de Mar del Plata, Argentina. Mestre em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP.


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Atualizado em 23/05/2012 02:41:25