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Fácil lembrar, difícil esquecer


Há coisas que a gente nunca esquece. Quarenta e oito anos se passaram e as imagens ainda estão nítidas na memória da aposentada Dinorah de Souza. Ela se lembra da empolgação do pai, Miguel Porporato, à época com 27 anos, rumo ao estádio do Canindé (zona norte de São Paulo). Fanático por futebol, as partidas de várzea eram seu programa predileto nas manhãs de sábado. 01/09/2010 - por Fabiane Leite e Roberto de Oliveira na categoria 'Memórias'

Leo Caobelli/Folha Imagem
A aposentada Dinorah de Souza, que foi esquecida aos três anos pelo pai no estádio do Canindé

Em uma delas Dinorah, então com três anos, saiu de casa, no Pari (região central), de mãos dadas com Miguel. Pegaram um ônibus e seguiram para o Canindé. Ela assistiu ao jogo grudadinha no pai. Ao voltar para casa, Miguel apareceu sozinho. Esquecera Dinorah.

Naquele dia, os ânimos estavam inflamados e houve uma discussão entre torcedores que terminou em briga. "Para me proteger, meu pai me colocou debaixo da arquibancada, que era de madeira", conta. Dinorah calcula ter ficado cerca de seis horas ali, no mesmo lugar onde o pai a colocou. "Lembro de ele ter me acordado. Estava claro ainda."

Os mecanismos da memória que fazem Dinorah armazenar até o tom do céu naquele dia podem falhar em determinadas situações e levar até a desfechos trágicos como o da família de Gustavo Garcia, o bebê de um ano que foi esquecido no carro pelo pai e morreu após ficar trancado por cerca de quatro horas.

O sofrimento trazido por casos como o de Gustavo isola o episódio de outras histórias de falhas das recordações, como faltar a um compromisso ou perder o aniversário de um amigo. Mas, na verdade, as mesmas falhas podem explicar os dois lapsos.

Psicólogos, psiquiatras e neurologistas colheram as primeiras pistas do que ocorre com as lembranças quando esquecemos há mais de 50 anos, estudando pacientes que haviam sofrido lesões no cérebro. Foi assim que se concluiu que são cruciais para a construção -ou desconstrução- da memória o lobo frontal, sob a testa, que atua na codificação, e o hipocampo, estrutura interna em formato de cavalo-marinho onde são armazenados alguns tipos de memória. Nos últimos dez anos ficou um pouco mais fácil investigar os lapsos. Exames de imagem como a ressonância magnética permitem observar reações do cérebro durante processos de aprendizagem e memorização, além de investigar as partes do órgão ligadas ao esquecimento.

Sabe-se hoje, por exemplo, que quando dividimos a atenção ou executamos uma atividade de modo automático a região do lobo frontal não funciona adequadamente.

Estudos realizados desde o fim dos anos 80 indicam que a divisão crônica da atenção leva a falhas na memória semelhantes às causadas pelo envelhecimento, época em que ocorrem importantes déficits de cognição. A divisão da atenção pode ocorrer principalmente nas atividades rotineiras, tão mecânicas que o cérebro não precisa de grande esforço para codificá-las. É nesse conhecido "piloto automático" que fatos e tarefas importantes podem passar despercebidos.

"A gente vive um ritmo de vida tão alucinado, numa 'neurose' tão absurda, que bloqueia, involuntariamente, informações importantes do cérebro", acredita a professora Elaine Cristina Fonseca, 37.

A "informação importante" que Elaine bloqueou no ano passado foi buscar seu filho na escola. Envolvida em assembléias e negociações dos professores municipais com a prefeitura durante greve do setor, ela se esqueceu de pegar o caçula. Pedro Henrique, 5, ficou lá, esperando pela mãe por mais de duas horas, por sorte ao lado de uma funcionária do colégio.

"Perdi completamente a noção de tempo e me desliguei. A gente vive correndo, querendo dar conta de tanta coisa. É impossível", diz Elaine, que não passou por problema semelhante durante a criação de Renata, 17, sua primeira filha, quando trabalhava meio período.

Pais x mães

O exemplo de Elaine contraria a idéia de que pais e mães desenvolvem laços de maneiras diferentes com os filhos. Na busca por explicações para o esquecimento de crianças pelos pais, mulheres atribuem a responsabilidade ao homem.

Quando Miguel chegou em casa depois do jogo sem a filha Dinorah, a mãe, Zilda Maria, perguntou, desesperada, onde estava a criança. "Foi aí que caiu a ficha dele. Ele pegou um táxi e voltou rapidamente para o estádio", lembra. Dinorah já estava segura, mas Miguel levou uma bronca da mulher. "Isso só acontece com homem. Eles costumam ser desligados em relação a assuntos familiares", acha Zilda.

Parte dos especialistas ouvidos pela Revista não acredita que homens e mulheres absorvem e armazenam informação de modo diferente. "Essas pretensas diferenças são uma tremenda bobagem. O chavão de que a mulher tem um pensamento mais holístico e o homem, unidirecional, não existe", acredita o neuropsiquiatra Claudio dos Santos, professor da disciplina de Morfologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Magdalena Ramos, 67, psicóloga do Núcleo de Casal e Família da PUC de São Paulo, vê o caso de outra perspectiva. "Historicamente, tarefas domésticas eram função da mãe. Só recentemente é que ela angariou outras funções, com a presença no mercado de trabalho." A mãe, segundo a terapeuta de casais, mantém uma ligação com a prole "mais visceral e intensa".

Para Jonia Lacerda Felício, 48, psicóloga do Instituto de Psiquiatria da USP, especialista em orientação familiar, homens e mulheres não encaram a dupla jornada família-trabalho da mesma forma. "Para o pai, a ligação é primeiro com o trabalho. A parte doméstica é secundária."

Na prática, o que se vê é que ambos se esquecem. "Geralmente, no nosso caso, a natureza fala mais alto. Mas, naquele dia, ela falhou", diz a atriz Deborah Lobo, 35.

O tal dia ocorreu há cerca de dois anos quando Deborah foi fazer compras em um supermercado da zona sul de São Paulo acompanhada plelo filho Matheus, então com 13 anos.

"Logo que chegamos, ele me pediu para ir a uma loja de videogame", lembra a atriz. Deborah pegou o carrinho, fez as compras, pagou, empacotou e voltou para o carro. Estava quase chegando em casa quando tocou o celular. "Mãe, onde você está?" Era o menino falando de um orelhão depois de ter comprado um cartão telefônico fiado.

Falhas desastrosas

O professor do Departamento de Psicologia da Universidade Harvard (EUA) Daniel L. Schacter acumulou mais de 20 anos de estudos sobre a memória e catalogou, no fim dos anos 90, sete tipos de lapso no livro "Os Sete Pecados da Memória".

"Exatamente como os sete pecados capitais, os da memória ocorrem com freqüência no cotidiano e podem ter conseqüências desastrosas para todos nós", conta Schacter em seu livro, lançado no Brasil pela Rocco. Por essa ótica, os esquecimentos de Miguel e Elaine se encaixam como exemplos do pecado da distração. "Isso ocorre, em parte, porque a memória é muito dependente de sinais e lembretes para recuperar informações, e se não temos pistas para lembrar focamos em outros dados que roubam nossa atenção", disse Schacter em entrevista à Revista.

O problema é quando essas pistas para a lembrança são embaralhadas pelo congestionamento de dados. O neuropsiquiatra Cláudio dos Santos, da Unifesp, explica que, em resumo, não dá para guardar tudo e é preciso escolher o que realmente importa armazenar. "Não é só um problema da memória, mas do que estamos fazendo com ela. É como usar um Fusca para correr na Fórmula 1."

Diante de tantos relatos de falhas, pode dar vontade de amaldiçoar o mecanismo que movimenta bilhões de neurônios e um sem-número de reações químicas. Mas os especialistas em memória têm a resposta pronta.

O criticado piloto automático serve para que ninguém "gaste neurônios" com tarefas já muito bem assimiladas pelo cérebro. Imagine ter de pensar em cada detalhe do ato de dirigir. E tomar banho, então? Não sobrariam recursos cerebrais para, por exemplo, discutir a relação ou se engajar num papo político.

Esquecer é, além de importantíssimo, fundamental. Para dar lugar a novas idéias, experiências. Tocar a vida, enfim.

Cada hemisfério do cérebro é dividido em quatro lobos principais: frontal, temporal, parietal e occipital







Os caminhos das recordações no cérebro






Córtex frontal

É a superfície do cérebro. A região da testa está relacionada a processos que exigem atenção e também envolvida na formação da memória. Gerencia informações, direcionando as mais relevantes para o armazenamento

AmÍgdala
Está envolvida em processos de formação de memória com conteúdo afetivo

Hipocampo
Área envolvida no processo de memória declarativa, aquela que pode ser evocada, resgatada

Os sete pecados da memória

No livro "Os Sete Pecados da Memória" (Editora Rocco) o professor do Departamento de Psicologia de Universidade Harvard (EUA) Daniel L. Schacter sistematizou os principais tipos de falha da memória:

Transitoriedade
Relacionada ao enfraquecimento da memória com o passar do tempo. É fácil dar detalhes do que se fez nas últimas horas, mas dos últimos meses ou anos; quem: A transitoriedade da memória foi uma das explicações para o ex-presidente dos EUA Bill Clinton dizer não se lembrar em 98 de detalhes de encontros com Monica Lewinsky dois anos antes

Distração
Revela a relação entre atenção e memória -a primeira é essencial para a codificação de informações pelo cérebro que depois as armazenará. No piloto automático, há mais chances para que aconteça; quem: Em 1999, o violoncelista Yo-Yo Ma deixou seu instrumento de US$ 2,5 milhões em um táxi. A polícia depois recuperou a peça

Bloqueio
Os "brancos". Nomes próprios são os mais vulneráveis ao bloqueio, e uma das explicações é a dificuldade de associar nomes de pessoas a conceitos, diferentemente do que ocorre com objetos;
quem: No filme "O Diabo Veste Prada", a personagem de Meryl Streep, uma poderosa e temida editora de moda, incumbe duas assistentes de lhe dizer disfarçadamente o nome das pessoas em uma festa

Distorção
É reeditar o passado. Reflete a influência do nosso conhecimento e opiniões atuais sobre lembranças do passado- pode ocorrer quando recordamos um relacionamento amoroso que acabou, por exemplo; quem: No musical "Gigi" (1958), de Vicente Minnelli, os ex-amantes interpretados por Maurice Chevalier e Hermione Gingold lembram o último encontro na canção "I Remember it Well" (lembro-me bem). Ele rememora "a lua maravilhosa de abril", ela, que "não havia lua naquela noite"

Atribuição errada

Referir uma memória a uma fonte errada. Como atribuir ao relato de um amigo uma história lida no jornal. Ligada a falhas na solidificação da memória; quem: O FBI investigou um inocente que seria comparsa de Timothy McVeigh no atentado à bomba de Oklahoma, em 1995, que matou 169 pessoas. Depois concluiu que um mecânico que vira McVeigh alugando um carro e também outros dois homens na mesma situação havia confundido os clientes

Sugestionabilidade
São lembranças distorcidas criadas como resultado de perguntas ou comentários tendenciosos quando uma pessoa tenta recordar o passado; quem: Na década de 80 os Amirault, donos de uma creche no subúrbio de Boston (EUA), foram acusados de violentar alunos com base em depoimentos de crianças obtidos por perguntas consideradas tendenciosas. Em vez de "o que aconteceu?" uma enfermeira perguntou "ele tocou em você?"

Persistência
Recordação de eventos perturbadores, lembrar apesar de querer esquecer. Doenças psiquiátricas como depressão podem ser marcadas pela persistência das memórias; quem: Em Batman, o milionário Bruce Wayne relembra sempre o episódio da morte dos pais num beco escuro.

O branco de um neurocientista

Por Gilberto Xavier

Aconteceu comigo. Estava completamente concentrado na organização de uma palestra para um congresso científico, quando o telefone tocou. Já era quase 15h. Atendi com relutância. Do outro lado, uma voz conhecida falou: 'Pai?' Imediatamente me dei conta de que deveria ter buscado meu filho na escola, às 13h.

Memórias correspondem à atividade eletrofisiológica em circuitos neurais em nossos cérebros. Essa atividade pode ser mantida temporariamente após uma experiência e então se desvanecer, como na memória de curta duração, ou levar a alterações estruturais no cérebro, como na memória de longa duração.

O sistema nervoso humano contém bilhões de neurônios; cada um deles se comunica com milhares de outros neurônios. É no sítio de interação entre dois neurônios, a sinapse, que se dá essa comunicação.

Vivências podem alterar sinapses preexistentes ou levar à criação de novas sinapses entre sub-populações de neurônios, gerando circuitos neurais cuja atividade representa a vivência, e assim se formam as memórias. A ativação posterior desses circuitos leva à recordação do conteúdo correspondente.

Há pelo menos dois mecanismos de ativação desses circuitos. O primeiro envolve a apresentação de estímulos externos similares ou relacionados aos conteúdos representados. Por exemplo: um aroma específico pode levar à recordação completa de um jantar memorável, no qual um aroma similar foi vivenciado.

O segundo envolve a intenção ou o desejo de recordar uma determinada informação, o que corresponde ao direcionamento da atenção para aquele conteúdo e subseqüente ativação do circuito correspondente.

Esquecer-se de uma reunião importante ou do filho na escola pode envolver pelo menos dois processos. Caso a pessoa seja capaz de recordar esse compromisso posteriormente, isso significa que a informação estava arquivada num circuito cerebral, mas que não foi ativado no momento certo. É provável, nesses casos, que a pessoa estivesse engajada em outra atividade que demandava grande atenção, o que dificulta ou limita a ativação de circuitos cerebrais que representam o compromisso.

Foi o que aconteceu comigo naquele evento envolvendo meu filho. Porém, ao ouvir sua voz ao telefone, esse estímulo externo imediatamente ativou o circuito neural que representava o compromisso de buscá-lo.

Quando não ocorre recordação, supõe-se que a informação original se desvaneceu na memória de curta duração antes de gerar alterações estruturais nos circuitos neurais, portanto, sem deixar registro na memória de longa duração. Nesse caso, a informação terá sido perdida para sempre. É o que ocorre, por exemplo, quando ensaiamos repetidamente um número de telefone obtido num catálogo para discá-lo; depois de realizado o telefonema, essa informação, se considerada irrelevante, deixa de ser ensaiada e se desvanece. Como um arquivo de computador não salvo, a informação é perdida.

Esse certamente não foi o caso do meu filho. Ele se recorda desse episódio até hoje, mesmo tendo se passado 17 anos.

*Gilberto Xavier é professor do Instituto de Biociências da USP, pós-doutorado no Instituto de Psiquiatria da Universidade de Londres e no Departamento de Neuroanatomia da Universidade de Aarhus, na Dinamarca.

Pulseira sonora como alarme para esquecidos

Maria do Carmo/Folha Imagem

O estudante Pedro Henrique, 5, que ficou esperando pela mãe por mais de duas horas na escola

Elizabeth Loftus, professora de psicologia e comportamento social da Universidade da Califórnia, em Irvine (EUA), sugere a criação de algum mecanismo automático, como pulseiras infantis que apitem quando a porta do carro se abrir, tamanha é a freqüência com que se observa episódios de crianças esquecidas dentro de veículos.

Ela relata que, a partir de casos noticiados pela imprensa norte-americana, calcula-se que somente em 2003 tenham sido registrados nos EUA 39 casos de morte de crianças esquecidas em carros.

Elizabeth cita como exemplo a história de um professor da sua própria universidade [Mark Warschauer, do Departamento de Educação e Informática] que deixou o filho no carro. O bebê, de dez meses, não resistiu ao calor e morreu.

Em princípio, o uso de pulseiras sonoras pode parecer absurdo. Mas ele tem fundamento em estudos relatados por outros especialistas em memória.

O recomendável é que esses alarmes para lembrar (sonoros, escritos, desenhados) de fato despertem sua atenção, estejam em locais visíveis e sejam associados diretamente ao que se quer lembrar, como o apito da chaleira. E não caiam no automatismo, caso de uma agenda.

"Algumas vezes operamos no piloto automático", diz ela, que atua na área de criminologia e no resgate correto de lembranças de casos de violência. "É comum ter a experiência de chegar ao trabalho e ter ficado com a cabeça na lua durante o trajeto. Esse tipo de 'desligamento' pode nos ajudar a entender essas tragédias."
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Fonte: Revista da Folha, Folha de S.Paulo, 22/04/2007.
http://www1.folha.uol.com.br/revista/rf2204200704.htm


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Atualizado em 23/05/2012 02:42:11