RESUMO: Este relato de experiência desvela o processo de trabalho do Grupo de Estudos da Memória. Apresenta o resultado de pesquisa realizada por meio de um texto de criação coletiva. Tem como objetivo mostrar o caminho percorrido e com isto o método utilizado, que tem a memória como guia.
Palavras-chave: memória; tempo e espaço; trabalho coletivo.
A Memória é esse lugar de refúgio, meio história, meio ficção,
universo marginal que permite a manifestação continuamente
atualizada do passado.
Pimentel Pinto,J.
Introdução
Esta breve introdução tem como objetivo apresentar o Grupo de Estudos da Memória - GEM, ligado ao Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento – NEPE - do Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia da PUC-SP. O grupo, formado por ex-participantes do projeto - Oficina de Memória Autobiográfica: Teoria e Prática,[2] ministrado sob os auspícios do NEPE, iniciou suas atividades em Março de 2001, com reuniões mensais.
Os objetivos do Grupo de Estudos são: aprofundar os estudos teóricos sobre o tema Memória e Memória Autobiográfica; trocar experiências sobre as práticas profissionais desenvolvidas pelos participantes; formar profissionais-pesquisadores, sem vínculos acadêmicos; promover e divulgar pesquisas com enfoque na memória autobiográfica por meio de produções coletivas.
No ano de 2001 o grupo dedicou-se ao aprofundamento dos estudos teóricos, incluindo as abordagens propostas pela neurociência, fundamentais para a compreensão das aquisições e consolidação das memórias.
No ano de 2002 foi aprofundado o tema: Memória, Tempo e Espaço, tendo como texto base a obra clássica A Memória Coletiva, de Maurice Halbwachs. Além da leitura e discussão, deste e de outros textos complementares, iniciamos um trabalho de reflexão escrita ao final de cada encontro. Esse exercício de leitura, reflexão e escrita foi o primeiro passo metodológico de um trabalho de pesquisa, no qual os participantes fizeram uma entrevista aberta com idosos sobre o tema de estudo. As entrevistas foram gravadas, com prévio consentimento dos depoentes, transcritas e trabalhadas pelo grupo. Elas foram registradas em São Paulo, no ano de 2002, e envolveram 7 indivíduos, sendo 2 homens e 5 mulheres. São eles:
Alda, 68 a, nascida em São Paulo de ascendência lituana, do lar; Sabina, 76 a., nascida em Orlândia de ascendência italiana, professora de educação artística; Marita, 80 a., nascida em São Paulo, brasileira, do lar; Nair, 82 a., nascida em Serra Negra, de ascendência italiana, costureira; Momoe, 90 a., nascida no Japão e no Brasil desde 1933, lavradora; Antonio Martinho, 79 a., nascido em Jundiaí, de ascendência portuguesa, carpinteiro; Jango, 85 a., nascido em Juquiá, brasileiro, lavrador.
O grupo GEM que participou desse trabalho de pesquisa foi composto por dez pessoas: 2 psicólogas, 3 assistentes sociais, 4 pedagogas, 1 socióloga. Uma das componentes não realizou o trabalho de campo, pois se juntou ao grupo quando as entrevistas já tinham sido realizadas. Sua tarefa, então, foi o aprofundamento da base teórica. Outro participante trouxe, de uma viagem de estudos à França, o material sobre a correspondência feita, via Internet, entre uma idosa e um grupo de alunos da 5ª série de uma escola francesa. Esse material, resultado de uma pesquisa lá realizada, foi incorporado por apontar uma outra perspectiva, através da comunicação intergeracional via internet, na abordagem do tema Memória e como uma possibilidade de pesquisa futura. Finalmente o décimo componente do grupo assumiu a sua coordenação sendo apoiada, na parte operacional (envio de material, contatos extra-reunião, etc), por um dos participantes.
O relato de experiência de pesquisa e trabalho em grupo que aqui apresentamos é fruto do esforço de articulação entre a teoria estudada e os depoimentos recolhidos, sendo o texto final fruto da produção coletiva deste grupo.
Gostaríamos de salientar que nesses dois anos de reuniões o grupo teve uma participação que variou entre 8 a 12 componentes sendo que alguns dos participantes estão presentes desde a 1ª reunião, alguns deixaram de participar das mesmas ao longo desses dois anos, por motivos vários, e outros se agregaram ao longo deste período.
Como o GEM é aberto a todos os que participam das Oficinas Memória Autobiográfica – Teoria e Prática, está sempre recebendo novos membros e, assim, ampliando suas perspectivas e incorporando novas contribuições. A dinâmica interna gerada por esse modelo de funcionamento, aliado aos desafios proposto pela pesquisa, são fatores de adesão e crescimento do mesmo. Simultaneamente exige, da coordenação e do grupo, um esforço constante no processo de inclusão dos novos membros.
Essa nossa primeira experiência de produção de um texto coletivo reflete os dois anos e meio de trabalho, e pode ser considerado um grande avanço, devido às dificuldades inerentes ao funcionamento de um grupo de profissionais de várias áreas do conhecimento, sem financiamento ou ligação com os órgãos oficiais de pesquisa e, sem a necessidade de uma produção obrigatória. O grupo que elaborou esse trabalho manteve-se unido em torno de uma tarefa-desafio, encarado por todos como importante para o crescimento profissional e pessoal. Esperamos que ele possa se manter, frutificar e trazer uma colaboração efetiva ao estudo do tema memória, e para a atualização e formação de profissionais-pesquisadores.
Nosso objetivo é a construção de um saber compartilhado e agregador, que incorpore as práticas profissionais e as experiências pessoais num ciclo de realimentação constante das teorias e dos indivíduos.
Nossa experiência, ao trabalharmos com as trajetórias de indivíduos idosos, tem mostrado que, mesmo com o avanço da tecnologia, e das novas formas nas dinâmicas políticas, econômicas e sociais, a memória autobiográfica permanece como ponto de referência e de apoio para a definição da identidade dos sujeitos, assim como sua recomposição e ressignificação.[3]
Essas lembranças que, de certa forma, nos guiam, estão à nossa volta, no tempo e espaço, presentes no nosso cotidiano, definindo as sensações de pertencimento e / ou estranhamento em nossas relações com o meio em que vivemos.
Nosso objetivo, neste trabalho, foi: estabelecer uma ligação entre as narrativas, por nós recolhidas, e os textos teóricos, fundamentado-as; apontar para a importância das mesmas na (re) construção da identidade e noção de pertença dos sujeitos, em um momento de aceleradas mudanças, onde constatamos uma “compressão de tempo-espaço” (Harvey:1994); apresentar essas articulações através de um texto elaborado coletivamente, usando a memória autobiográfica como base metodológica.
Afirma Halbwachs (1990) a respeito da inserção dos sujeitos no espaço da memória coletiva, como ponto de apoio à manutenção das identidades, que “é difícil saber o que seria o espaço para um homem isolado, que não fizesse ou não tivesse feito parte de nenhuma sociedade”. (p.131)
A cidade pequena, diz o mesmo autor, permitiu, e permite, a conservação de costumes, faz com que as tradições locais permaneçam mais estáveis, sendo o espaço por excelência da memória coletiva, facilitando a manutenção das tradições.
Mas a afirmação de Arnaldo Jabor na crônica - Vamos beber no passado para esquecer o presente (2002), atualiza e amplia essa perspectiva:
Não agüento mais. Volto para o Antonio’s. Vocês me perguntarão: “O que é isto?”. Bem, o Antonio’s era o bar essencial situado no espaço-tempo entre Ipanema e Leblon. O velho Antonio’s fechou, mas continua aberto, flutuando dentro de minha cabeça (...) parecia uma embaixada onde nos exilávamos toda noite...
Ao relembrar o espaço-tempo do bar Antonio’s, que não existe mais, na cidade do Rio de Janeiro, Jabor o “reconstrói” na sua memória e, por meio do seu texto, o leitor o acompanha nessa revisita a um lugar da memória feita presente.
Esse autor evidencia em sua crônica, que mesmo em uma cidade grande e com tantos pontos de referência, como o Rio de Janeiro, cada indivíduo constrói um “microcosmo” de significados, ligados a tempo e espaços específicos, nos quais ancora suas memórias e seu sentimento de pertença.
Os exemplos trazidos por nossos depoentes, confirmados pelos autores que nos subsidiaram teoricamente, apontam para a vinculação dessa percepção e manutenção do tempo-espaço na memória autobiográfica.
Analisando as narrativas constatamos que existe um mundo de significados entrelaçados nesse tempo-espaço, pois os entrevistados rememoram não só o lugar e o período de tempo, mas também toda a vivência associada a eles. Percebemos em seus relatos como “as imagens habituais do mundo exterior são inseparáveis do nosso eu” (Halbwachs, idem). Elas fazem parte de nossa vida e, presentificadas, despertam emoções e reafirmam nosso lugar de sujeitos históricos.
A indagação que sempre esteve presente ao longo deste trabalho foi - o que acontece à memória das pessoas, sobretudo às mais velhas, em um mundo de transformações vertiginosas, de consumo e descarte, e que se caracteriza por essa compressão do tempo-espaço?
No tempo e espaço em que vivemos as mudanças são aceleradas e, assim, perdemos como afirma Halbwachs a “sensação de ordem e quietude”, sentindo nossa estabilidade ameaçada o que gera insegurança, especialmente para os indivíduos mais fragilizados. Nossos estudos têm mostrado que esse sentimento, ligado a aceleração do tempo imposto pela sociedade de comunicação, levam a um “retorno do interesse por instituições básicas (como família e a comunidade) e a busca de raízes históricas” (Harvey, idem:263). Muitos, e em especial os indivíduos que envelhecem, se apegam então a esses valores mais duradouros, trazidos pela memória, em um mundo que se transforma. Observamos, simultaneamente, uma crítica ao que chamam de “saudosismo” e que seria prejudicial, nessa faixa etária, pois isolaria o indivíduo dos fatos cotidianos.
Nossa observação na prática evidencia que as lembranças do passado não isolam o indivíduo, exceto quando existe alguma patologia. Estabelecendo paralelos entre o que foi vivido no passado e a realidade atual podemos verificar um fortalecimento da identidade, graças ao trabalho de reconstrução da trajetória, a elaboração de uma visão crítica da realidade e mesmo uma melhor noção da questão dos direitos e deveres desses indivíduos como cidadãos.
Ao invés de isolar esse movimento de rememoração presentifica, contextualiza e ressignifica o lugar do indivíduo em um processo sócio-histórico, reforçando sua importância como testemunha e construtor de significados.
Retomando o exemplo trazido por Jabor vemos que ele recria o espaço do bar “Antonio’s” apenas em sua imaginação. No caso dos nossos narradores temos alguns exemplos da tentativa de preservar esses espaços por meio também dos chamados “objetos (auto) biográficos”.
Como observou uma das pesquisadoras, na sua análise, a narradora Nair conservou alguns móveis, objetos e fotos significativas, que a ajudam a melhor contextualizar sua origem e sua história. Afirma Halbwachs que, por meio desses objetos, as lembranças permanecem nos novos espaços, conferindo equilíbrio ao indivíduo.
O “espaço” de lembrança pode ser trazido por objetos, mas também apenas pelo nome de uma rua, como vemos em um dos relatos, onde se situa a casa onde conviveu com sua família, um exemplo claro para essa discussão. Diz o narrador:
Agora vou até a Apotribu todas as manhãs e não faço nada. Tenho muitas saudades daquilo. Foi lá que conheci sua mãe e começou a felicidade...Pena que Deus levou meu cunhado Romeu, minha cunhada Adélia...Foi lá que começou nossa vida.(Antonio, 79 a.)
No espaço da casa, na rua Apotribu, o entrevistado reencontra, ainda hoje, suas vivências e volta para o tempo daqueles a quem amou, cujas marcas convivem incorporadas às suas e demonstradas ao expressar suas lembranças.
No relato do Sr. Antonio percebe-se a busca do espaço físico como forma de aquietar o coração e trazer a proximidade do sentimento de bem-estar vivido em outras épocas. Quando cita as idas, todas as manhãs, ao local onde pode reviver a mocidade e a idade adulta, observa-se a intensidade dos sentimentos vinculados ao espaço físico, mas que se encontram presentes num espaço interno próprio e profundo.
As sensações de felicidade e de sofrimento, trazidos na narrativa, mostram que, como diz Damásio (1996) “a alma respira através do corpo, e o sofrimento, quer comece no corpo ou numa imagem mental, acontece na carne”.(p.18)
O sentir é real, e a imagem é trazida a um tempo e espaço novos, onde novas interpretações podem ocorrer. O que é real, então? Talvez a resposta esteja na afirmação, do mesmo autor, de que “(...) os nossos mais refinados pensamentos e as nossas melhores ações, as nossas melhores alegrias e as nossas mais profundas mágoas usam o corpo como instrumento de aferição”. (idem:17)
A partir da sensação, impressa e trazida também pelo corpo, e da expressão de um sentimento, pode-se perceber a intensidade da recordação e o quão próximo do tempo e espaço real o indivíduo consegue chegar, através da rememoração.
Bergson (1990) reafirma essa noção mostrando que é o corpo, filtrando nossas sensações, que leva à percepção, partindo do momento presente em busca do passado, conferindo-lhe vigor e transformando-o em imagem, assim fazendo revivê-lo e ser incorporado ao presente com vistas a ação. A base da memória é o presente imposto pela corporeidade tornando-a real. Nas suas palavras (...) meu presente consiste na consciência que tenho do meu corpo...(ele) é um centro de ação (idem:114).
Nossa outra narradora, professora de Educação Artística, exemplifica essa afirmação:
(...) do colégio interno me lembro da etiqueta. Como se subia uma escada, se aprendia tudo, o sentar, nunca cruzar as pernas. Nunca! Sempre os dois pés juntos. Subia-se a escada na ponta dos pés. Para subir melhor, dar impulso na posição correta. Até hoje, quando subo as escadas do colégio que trabalho, subo nas pontas dos pés porque me ajuda a dar impulso (...)(Sabina,76 a.)
Ela se refere aos ensinamentos que teve na Escola Normal, e os revive hoje, em sua memória e em seus movimentos, quando repete o ato de subir ou descer uma escada, em um outro espaço escolar, em um outro tempo.
As palavras de Maturana (2000), iluminam ainda mais essa discussão:
“Somos este entrelaçar dinâmico de comportamento e corporalidade (..) .o viver humano acontece na relação, tem conseqüências na corporalidade e o que acontece na corporalidade tem conseqüência na relação (...) nada do que fazemos jamais é trivial, porque somos um tempo presente em mudança”. (p. 94-5)
No próximo relato percebemos que as emoções se presentificam como conseqüência da lembrança de um espaço nomeado, enriquecida por outras trazidas pelos sentidos da visão e paladar:
Ia pra escola sozinha desde os 7 anos(...) No caminho tinha um riacho bem rasinho e dentro dele tinha pés de morango e sempre que tinha morangos a gente colhia quando voltava da escola. A turma que voltava da escola parava pra pegar morangos e eu parava e pegava também (...) O riacho ficava num parque com muitos eucaliptos e as crianças que voltavam da escola sempre vinham em turma e enquanto estava claro(...) Hoje quando passo perto da rua Jundiapeba, onde ficava o riacho, lembro do morango que pegava no rio, ou quando como morango, também lembro.(Alda,68 a.)
A emoção, que emerge no presente, permite ao indivíduo situar-se no tempo e espaço do passado, como se essa viagem pelo tempo ocorresse em milésimos de segundos. A impressão é de que não há nada que impeça esse contato, e isso se confirma através da colocação de Damásio “(...) a essência de um sentimento (o processo de viver uma emoção) não é uma qualidade mental ilusória associada a um objeto, mas sim a percepção direta de uma paisagem específica: a paisagem do corpo”. (idem:14)
O corpo reflete uma “paisagem” porque nele, e por ele, se espelha o vivido, assim, é o repositório e o articulador de nossas lembranças. É nossa memória que traz e presentifica essa e outras “paisagens”, que retratam um espaço geográfico, onde se integram os acontecimentos históricos que circundam as percepções e experiências. Como diz Halbwachs, é o encontro entre a memória individual e a memória histórica.
A narrativa de Marita exemplifica essa afirmação:
Eu devia ter uns 17 anos, quando fui passear de Zepelim. Lembro-me que a comissária de bordo disse que os comandantes da cabine de comando estavam me convidando para ver como era (a cabine) de perto. Mamãe na hora disse: “Não”. Mas a comissária falou qualquer coisa, convenceu mamãe e lá fui eu. Ao chegar caiu meu queixo. Nunca tive tanto orgulho na minha vida. Bonito mesmo. Sabe que eu até me lembro? Não digo a fisionomia, mas me lembro daqueles rapazes, moços que deviam ter trinta e poucos anos, de olhos claros. Nós não estávamos muito acostumados, principalmente no Rio onde as pessoas eram geralmente mais morenas. De maneira que os achei lindíssimos, quando cheguei me deram champanhe, eu estava extasiada.(Marita,80 a.)
Este trecho aponta para várias possibilidades de análise dessa diferentes “paisagens”, enquanto tempo e espaço vividos: o pulso firme da mãe que queria impedir a filha adolescente a aproximar-se de jovens estranhos, característica dos bons costumes da época; a ansiedade de uma menina-moça por toda aquela novidade e o êxtase ao compartilhar momentos na cabine dos lindos comandantes alemães. Traz também um certo “estranhamento” em relação aos estrangeiros no Rio de Janeiro e, nesse sentido, ao relatar essa “paisagem”, ela dá ênfase às mudanças sociais da cidade, hoje turística, em um contexto globalizado.
Em uma outra passagem, Marita faz menção a costumes que marcaram uma época e podem dar um colorido especial à reflexão de como a memória traz toda uma visão de mundo e permite a análise do tempo-espaço, hoje e ontem, de uma perspectiva sócio-histórica:
No Zepelim eu estava com uma saia plissada de “pied de poule”, talvez uma blusa por baixo, não era suéter, naquele tempo não se usava. Era uma blusinha por baixo, e talvez, o que eu gostava muito, uma jaqueta, bolero, na altura da cintura. Eu era de corpo muito elegante, porque era magrinha e sempre de boina. Talvez fosse a boina vermelha. Devia estar bem vestida, porque eu sempre andei bem vestida, pois mamãe mandava buscar tudo fora. Vinham catálogos, e pedíamos tudo que chegava naquelas malas com um mundo de novidades. Começando com bonecas e depois roupas. E chegava aquele mundo, mamãe tinha uma tal madame Sala que só fazia roupas para senhoras, mas, se encantou por mim, era italiana, se não me engano. Não tinha confecção, e todos tinham costureira em casa para pregar botão, para fazer consertos e ajustes, mas a roupa vinha de fora.
Revisitando essa passagem / paisagem de época, podemos ter contato com várias características da narradora e inferir que ela pertencia a determinado grupo social que privilegiava alguns costumes específicos.
Harvey (1994) fala da compressão espaço-tempo como um fenômeno que modificou profundamente nossa forma de ver o mundo em que, a construção da imagem, a efemeridade e a volatilidade dos valores causam modificações no nosso modo de nele ser / estar. Na sua narrativa, Marita nos faz ver essa ligação, através das comparações implícitas que estabelece entre “aquele tempo” e os dias atuais. Diante das mudanças aceleradas de nossos dias, a memória autobiográfica parece ser um precioso recurso para assegurar quem somos, e propiciar um espaço reflexivo sobre nossa identidade.
Os exemplos sobre Memória, Tempo e Espaço, trazidos nas palavras dos narradores, nos mostram o inevitável e significativo percurso do hoje para o ontem e vice-versa, despido de um saudosismo prejudicial. Nessa viagem reflexiva observamos que nossos entrevistados apesar de pertencerem a meios sociais distintos deixam emergir, desses mundos antagônicos, uma riqueza de significados, trazidos pelo relato das experiências vividas em espaços e tempos distintos, e que contextualizam nossa cultura.
Memória e a paisagem da terra
As reflexões acima se completam com as duas próximas narrativas nas quais a “terra” aparece como paisagem dessas lembranças, trazendo a lavoura enquanto meio de sobrevivência, sentido da vida e locus da memória.
Fui trabalhar numa fazenda de café em Lins, interior de São Paulo (...) eu, meu marido, meu pai, minha mãe e dois irmãos éramos responsáveis por oito mil pés de café (...) também éramos responsáveis por uma plantação (...) plantava-se de tudo para sobreviver(...) era costume do Japão, só se comprava sal e açúcar. Antes de clarear eu estava na roça, mas antes fazia a comida para levar porque não podia voltar para almoçar(...) trabalhei muito na enxada (...) trabalhava até o nono mês de gestação(...) aí fazia o parto sozinha. Sofri muito.(Momoe, 90 a.).
Essas palavras trazem um tempo-espaço em que sobreviver era extremamente penoso aos imigrantes, sobretudo orientais como a família de nossa entrevistada, com superação de muitos obstáculos, buscando e criando alternativas para continuar a viver. Essa narrativa, trazida pelo olhar interno de quem viveu, retrata o surgimento nas lavouras paulistas repletas de cafezais, da agricultura familiar, enquanto expressão de uma cultura trazida do Japão, e incorporada definitivamente ao nosso esquema produtivo.
Complementando a reflexão sobre o espaço “terra”, e entrelaçando os pontos comuns das entrevistas, nos transportamos a um passado vivido nos anos vinte, no Vale do Ribeira, mais precisamente na terra da banana, cidade de Juquiá, Estado de São Paulo.
Meu pai e minha mãe eram analfabetos e ele [o pai] não achava importante mandar os filhos para a escola. Ele sempre dizia: - “Da terra é que se tira o que comer(...) você tem que aprender a trabalhar na roça para viver, não precisa estudar...” Eu era muito forte, trabalhava bastante, chegava a colher cerca de duas a três sacas de cinqüenta quilos cada de arroz por dia. (Jango, 83 a.).
O relato do Sr Jango nos remete a uma época em que se dava muita importância à “terra”, pois era dela que se tirava o sustento, e famílias inteiras “davam o suor” na roça. Mudanças nessa saga eram muito lentas, sugerindo um cotidiano rotineiro, preservado por várias gerações. Avós e netos faziam as mesmas coisas e tinham as mesmas crenças, os mesmos hábitos, uma época em que os valores máximos eram a família, a honra e a terra.
Hoje, quando vivenciamos o século XXI, e lançamos um olhar sobre o de nossos narradores, buscamos a contribuição de Harvey (1994) para afirmar que viver na chamada “sociedade do descarte” com seu novo modo de pensar, sentir e proceder tem significado “ser capaz de atirar fora valores, estilos de vida, relacionamentos estáveis, apego às coisas, edifícios, lugares, pessoas e modos de agir e ser”. (p.258) Afirmamos isso diante do imenso salto no tempo (começo do séc. XX) e no espaço (áreas rurais do interior paulista e cidades em expansão) para a atualidade.
Se um novo aprendizado no ocidente se impôs àquela jovem japonesa que plantava de tudo para sobreviver (...) só se comprava açúcar e sal(...), podemos verificar na narrativa como o trabalho era pesado, e os hábitos de consumo eram frugais, se comparados ao acesso a bens de serviço e de consumo. Além desses aspectos, podemos refletir sobre a diferença entre o acelerado avanço tecnológico e a rapidez de informações dos dias atuais, com o tempo de espera entre a escolha, pela mãe de Marita, das roupas e objetos no catálogo, até sua entrega no Rio de Janeiro. Exemplos que mostram, de maneira clara, como foi modificada radicalmente a relação tempo e espaço no trabalho e hábitos cotidianos.
Podemos refletir ainda sobre o significado para a Sra. Momoe, hoje com noventa anos, de viver em um grande centro urbano, num apartamento que divide com três gerações, já mescladas de uniões com brasileiros. O tempo de se debruçar sobre a terra tão fértil, ficou para trás, mas marcado na memória, e o tempo de hoje lhe fornece o sabor de cuidar da bisneta e o espaço onde pode (re) ver a família reunida.
Na efervescência dos novos tempos, lançamos também um olhar para a trajetória do Sr. Jango, tentando imaginar como vive uma pessoa que aos oitenta e cinco anos acompanha todo esse processo, talvez sem entender muito bem a agitação do novo contexto. Ele afirma que vive o tempo de colher. Seu desejo de aprender a ler, escrever e contar foi realizado e isto é motivo de muito orgulho para ele.
O tempo dos conflitos com o pai, pelo desejo de estudar, carregar sacas de arroz e plantar de tudo um pouco sol-a-sol, para sobrevivência, ficou no passado resguardado pela memória. Na atualidade suas mãos se ocupam em cuidar de animais domésticos e ainda trabalhar a terra, agora enquanto terapia e lazer. Em sua casa criou um espaço para viver, onde tudo parece evocar um tempo que não volta, ele vive no presente, tendo como pano de fundo o passado. Essa evocação coincide com a do Sr. Antonio que, todas as manhãs, volta à casa da Rua Apotribu que no presente abriga o passado.
Constatamos, por meio dessas narrativas, que na “sociedade do descarte” a memória autobiográfica aparece como um porto seguro, de ancoragem, para história individual e coletiva dos indivíduos, permitindo-lhes manter o sentido de pertença e identidade.
Memória: objetividade e intersubjetividades na pesquisa
Ao trabalhar com as narrativas, trazidas pela memória autobiográfica, podemos observar que nesse tipo de investigação, entrevistado e entrevistador buscam compreender-se mutuamente e, seu diálogo, mediado pela cultura e pela história, implica como afirma Sébille (1998), em uma “atitude dialética, ao mesmo tempo exterior e íntima” (p.263).
Nos defrontamos, neste ponto, com uma das questões centrais das ciências humanas: o cuidado com a objetividade e as intersubjetividades inerentes à pesquisa. No caso do exercício em pesquisa realizada pelo grupo, algumas pesquisadoras entrevistaram pessoas muito próximas e trabalharam num terreno, no mínimo, escorregadio. Essa emoção, que é considerado um sério problema nas pesquisas qualitativas, especialmente nas que envolvem narrativas, transparece nas palavras de uma delas:
Essa conversa-entrevista mexeu muito comigo. Vê-lo triste (meu pai) falando da saudade de pessoas tão queridas dele e minhas. Nossas saudades se cruzaram nos nossos tempos vividos.
O sentimento expresso pela entrevistadora pode ser compreendido no contexto da citação de Roselyne Rey (1993) feita por Sébille:
“A enunciação é um ato que, para além dos enunciados que ela produz, para além do sentido que ela transforma, afeta a própria realidade vivida, sem que seja possível dizer se a expressão do sofrimento alivia ao ser liberada, ou se este se amplia ao criar ressonâncias”. (idem:264).[4]
Sem dúvida, trabalhando com narrativas a questão das “ressonâncias”, proposta por Rey, se faz presente, e envolve o narrador e seu ouvinte. O pesquisador, mesmo que não tenha nenhum envolvimento familiar ou de amizade próxima com o narrador, não sai sem marcas desses encontros. A experiência tem nos mostrado que ao fim de um trabalho de pesquisa, usando essa metodologia, estamos profundamente modificados. Ao abrirmos espaços internos para o outro tornamo-nos cúmplices de seus relatos, que vão ser incorporados às nossas histórias pessoais, enriquecendo nossa percepção do outro e do mundo que nos cerca. A intersubjetividade é uma característica que não pode ser negada nesse contexto, e acreditamos que, se devidamente explicitada e reconhecida, torna o trabalho rigoroso como nos é exigido enquanto pesquisadores. Nesse sentido diz Brandão (1999):
“(...) a Academia exige que nos concentremos em nosso objetivo, com clareza na pesquisa e na reflexão, mas é impossível realizar um trabalho que envolve outro ser humano sem nos envolvermos. Mas acredito também que deve haver um ”grain de folie” para poder entender o outro e as elaborações da cultura”. (p.31)
Nossa pesquisadora tem consciência dessa subjetividade e afirma: quando digo que minhas saudades e as dele se cruzaram naquele espaço e naquele tempo, declaro todo meu envolvimento consciente e inconsciente nos diferentes grupos que vivi e vivo e pelo fato de ser sua filha.
Nas pesquisas envolvendo narrativas, sejam quais forem nossos interlocutores, vivemos, simultaneamente, nosso tempo e espaço e os do Outro. Nos deparamos com os segredos, silêncios e esquecimentos (Pollack:1989), que devemos acolher e respeitar. Na rememoração, reescreve-se a própria história, em uma leitura única e muito especial do mundo, espaço onde a subjetividade do narrador se faz presente.
Nesse processo nem todas as lembranças são convidadas, quem relata pode escolher o que quer, e pode falar, como na entrevista de Nair, onde os possíveis problemas de toda uma vida quase não aparecem. Diz ela:
Nunca tive solidão, tristeza. Só fico muito preocupada quando alguém está doente, da família ou amigos. Quando enviuvei só tinha 26 anos, mas precisava lavar, passar, cozinhar e cuidar dos filhos (Nair,83 a.)
Seu silêncio, ou omissão, segundo a pesquisadora, teve uma causa: ela ficou entusiasmada com o trabalho e quer que seus filhos tomem conhecimento dele e daí o pedido de discrição (ela) falou-me apenas de coisas boas, elogiou tudo e todos.
Ela calou e “adoçou” sua narrativa para manter uma imagem de si, para e da sua família? Indagações como estas são difíceis de responder, mas devem nos servir como alerta para o sentido do que é relatado. Sabemos que aparecem “as verdades possíveis” e devemos aceitá-las como tal.
Como nas demais entrevistas, pudemos notar o apego às instituições, família e religião. Quase todo o depoimento de Nair gira em torno da memória familiar: seus avós, seu casamento e seus filhos. Em relação à religião, notamos a mesma postura:
Eu nasci, assim, neste ambiente de Igreja, sempre fui muito católica (..).eu também procurei uma Igreja, onde fui convidada para ser catequista. Estou dando catecismo há vinte anos.
A análise das narrativas, até aqui apresentadas, nos mostra como a memória autobiográfica traz o tempo e espaço vividos, possibilitando a re-escritura da história individual e coletiva da qual fazemos parte. Essa experiência traz também a importância dessa escuta, para a ressignificação identitária dos indivíduos que estão envelhecendo. Sentimos, através das palavras de nossos narradores, que “no fluxo e refluxo das lembranças, somos projetados no tempo que é passado, no espaço que foi vivido, mas agora é presentificado. Avançando ou retrocedendo, a memória ilumina, como num teatro, ora uma cena, ora outra, colocando-nos face a face com o passado revisitado”.(Brandão, idem:32).
Para finalizar, queremos introduzir um exemplo diferente, do que foi até aqui apresentado, mas que pode enriquecer a discussão proposta sobre Memória, Tempo e Espaço. Nele, apresentamos o tema como resultado da correspondência pela Internet realizada, em 1999, entre alunos da 5ª série de um colégio francês, com idade entre 10 e 12 anos e uma senhora idosa, com cerca de 90 anos.[5]
A senhora que se autodenominava “Mamie” (vovó) residia com a família e passou a integrar o projeto "Crescer e envelhecer" proposto pela escola. O objetivo era propiciar relações intergeracionais, resgatando a memória dessa idosa e preparando os adolescentes para o diálogo e a compreensão da velhice.
Assim os alunos se dirigiram inicialmente a Mamie:
“Somos alunos da 5ª série do Colégio J.Twinger e gostaríamos de trocar pontos de vista com a senhora. Estaria de acordo? Nós lemos o livro "Tua Lou que te ama", uma estória entre uma neta e sua avó, e levantamos alguns problemas: Lou confia unicamente em sua avó. Após discussão, a maior parte de nós confessou que confia principalmente nos irmãos e irmãs. Nossas razões: o medo de ser contestado, de decepcionar e de ser incompreendido pelos pais, o temor que um conte ao outro.
Quando a senhora tinha a nossa idade, quem era o seu confidente? Na colônia de férias Lou também sofre de solidão em meio aos outros, ela não conhece outras crianças e não os quer conhecer porque se sente incapaz de estabelecer contato com o grupo. Já viveu esse gênero de situação?
Só, entre tantos, ela se recusa a se integrar: não aprecia a comida, não se interessa pelas atividades propostas; e reivindica a sua intimidade. Antes mesmo de chegar à colônia, ela já sabia que não sentiria prazer. Compreende esta atitude?Qual é a sua opinião?
Nós devemos ajudar Lou a evoluir. Ela começa a se interessar pelos outros e se faz amiga. De repente, ela ama a colônia e termina mesmo por querer ficar lá. Já se confrontou com um acontecimento parecido?
Conte-nos, por favor. Nós esperamos com impaciência a sua resposta.
A classe de 5ª série.”
Responde a idosa:
Queridos alunos da 5ª série.
Obrigada por sua boa carta.
Eu estou encantada com essa troca. Mas é preciso que eu lhes diga inicialmente que eu sou uma vovó que ainda tem algumas lembranças precisas da primeira guerra mundial!
Eu conheço um menino da mesma idade que vocês e pensei que ele pudesse conhecer o livro que vocês citaram, mas não foi o caso, ele não conhece. No meu tempo, nós líamos livros de Madame Ségur, tais como “As férias”, “Os desastres de Sofia” etc.
Eu, na mesma idade em que vocês se encontram, confiava em uma prima, a quem via somente durante as férias que passava em família. Seu pai era meu padrinho e eu era filha única. Eles moravam numa casa distante onde não havia nem água corrente, nem eletricidade. Era preciso buscar água longe, na fonte, e a luz era à vela ou de lampião. Para chegar lá, eu pegava o trem que parava em todas as estações. Tinha ainda vagões de 3ª e 4ª classes! Os últimos não tinham mais muitos assentos, mas um espaço grande no meio para colocar as sacolas e os grandes cestos de pessoas que iam ao mercado a fim de lá vender seus legumes, frangos etc... Via-se muito poucos automóveis. Não havia mais que carroças atreladas a cavalos. O único automóvel que eu conhecia era de nosso médico, mas era pequeno, com apenas dois assentos. Acredito que quando eu tinha a idade de vocês não haviam as “colônias de férias” como hoje.
Em minha escola de meninas (os meninos iam numa escola para meninos), muitos colegas faziam parte dos Escoteiros da França. Eles faziam saídas aos domingos e acampamentos durante as férias, mas se conheciam da escola, e penso que eles não tinham problemas de adaptação. Eles mesmos preparavam as refeições com um chefe ou um guia que garantia a disciplina, que era muito rigorosa.
Era a grande prova do acampamento e de vida ao ar livre, qualquer que fosse o tempo! Eu mesma passava minhas férias em casa de meu padrinho, que morava nas bordas da floresta. A casa era toda circundada por prados onde pastavam as vacas. No chiqueiro havia porcos e no quintal, as galinhas, cachorros e gatos. Com minhas primas e primos, a vida era bem agradável, ao ar livre. Eu guardo lembranças inesquecíveis. Eu terei mil coisas a contar-lhes. Façam perguntas! Até logo, eu espero.
Sua vovó correspondente.
Em uma das correspondências Mamie faz a seguinte revelação ao se esquivar, ou ao demorar a responder, tentando evitar a memória infeliz:
(...) e há um outro motivo, além da fadiga para a demora de minha resposta: é muito penoso para mim falar francamente como o fiz até agora. Responder suas questões me faz mergulhar num período bastante triste de minha vida. Minha neta, com quem venho comentando, me disse que eu devo relatar realmente como os fatos se passaram, mesmo que isto me custe e seja triste.
Mamie conserva o seu espaço individual, mas busca uma estabilidade, um apoio no espaço coletivo da família. Como refere Halbwachs (1990), o idoso quando deixa de ter um papel ativo na sociedade, passa a ser a memória da família e do grupo social. No caso de Mamie a família, aparentemente, reforçava o trabalho de rememoração, talvez, enquanto memória social, embora para ela a sua experiência, à qual imprimiu suas marcas e sensações, diferente dos demais, trazia também os sofrimentos.
Se para os estudantes os relatos de Mamie exemplificavam as raízes culturais e a memória viva da história da pátria, para ela muitos acontecimentos eram difíceis de serem lembrados, devido ao sofrimento que faziam reviver. Rememorar nem sempre é agradável e traz benefícios, não é sempre positivo, e nem o é para todas as pessoas.
Este é um cuidado fundamental que devemos ter nas pesquisas que utilizam a memória autobiográfica como metodologia de trabalho, seguindo a regra que o melhor informante é aquele que quer falar, deixando-o livre para interromper ou, simplesmente, desistir da participar.
O autor Marc Augé, citado pela etnóloga Sebille, em um de seus estudos, revela que “(...) se existe um dever social de recordar é preciso levar em consideração a necessidade do esquecimento individual para aqueles que sofreram (idem:267).[6]
Concluindo este trabalho podemos dizer que observamos nesses relatos - sejam os obtidos no contato direto pelos pesquisadores do GEM, seja através da Internet - os “tempos e espaços” pessoal e social - Cronos e Kairós – que se entrelaçam e fornecem a sensação de tempo vivido que, como afirma Martins (1998), aponta “(...) a idéia de tempo não como objeto de nosso conhecimento, mas como uma dimensão do ser de cada um de nós”, (p.17) reassegurando, por meio da memória autobiográfica, a noção de pertencimento e identidade.
Realizar um exercício de pesquisa e produzir um texto a dez mãos, sobre um tema tão abrangente como a memória autobiográfica, e tendo-a também como método, e suas articulações no tempo e espaço, como aparecem nas narrativas, não é uma tarefa fácil e nem foi nossa intenção aprofundá-lo neste trabalho.
O objetivo do grupo de estudo foi realizar um exercício de pesquisa e organizar um texto coletivo que apontasse para o resultado, possível, do processo de um trabalho de construção do saber na perspectiva interdisciplinar.
Alguns dos participantes, por estarem afastados da vida acadêmica, não tinham ainda utilizado essa metodologia de trabalho e foi, para todos, um grande desafio estudar os textos teóricos, realizar a pesquisa, trabalhar o material em grupo e dele extrair um texto coletivo, articulando teoria e prática. Outras dificuldades, como a falta de subsídios, de local para as reuniões, a conciliação das agendas, etc, surgiram durante o processo, mas o empenho e o crescimento, pessoal e profissional, dos membros do grupo comprova a validade da metodologia de trabalho, reforçando nosso empenho em prosseguir.
Para finalizar, seria importante acrescentar que todos os membros do Grupo de Estudos da Memória – GEM - trabalham diretamente com idosos e / ou no tema do envelhecimento, sendo os encontros permeados de reflexões teóricas e ligados às práticas de cada profissional. Foi nesse contexto que surgiu o trabalho realizado na França, trazido por uma das participantes. Ao colocá-lo ao lado de uma pesquisa realizada pelo grupo, queremos evidenciar a preocupação com a abertura às novas possibilidades de pesquisa e a articulação das novidades trazidas pelo grupo, com os trabalhos em andamento.
É ainda fundamental ressaltar o espírito de equipe que se desenvolveu no grupo, onde a solidariedade entre os membros supriu dificuldades técnicas e logísticas, alavancou e fez progredir a pesquisa, chegando finalmente ao resultado que agora apresentamos.
Dinâmico, plural e coletivo, como a memória, são os adjetivos que gostaríamos de ter como marcas enquanto grupo de estudo e pesquisa. [7]
BERGSON, Henri (1990). Matéria e memória. São Paulo, Martins Fontes.
BRANDÃO, Vera M.A. Tordino(1999). Memória, Cultura, Projeto de Vida Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais- São Paulo, PUC-SP .
___________Os fios da memória na trama da cultura. Revista Kairós: Gerontologia.- Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento. Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia. São Paulo, Educ,v.2, n.2.
DAMÁSIO, António R.(1996). O erro de Descartes: emoção, razão e cérebro humano. São Paulo, Companhia das Letras.
HALBWACHS, Maurice (1990). A memória coletiva. Revista dos Tribunais. São Paulo, Vértice
HARVEY, David (1994). A condição pós-moderna São Paulo, Loyola.
JABOR, Arnaldo.Vamos beber no passado para esquecer o presente. O Estado de São Paulo. Caderno Dois,16 de julho de 2002.
LE GRAND-SÉBILLE, Catherine (1998). Como se lembrar de um lugar de segredo?. In Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História". PUC-SP. São Paulo, Educ-Fapesp, n.17
MARTINS, Joel (1998). Não somos kronos somos kairós.Revista Kairós: Gerontologia – Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento. Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia. São Paulo, Educ, v.1, n.1.
MATURANA, Humberto (2000). Transdisciplinaridade e cognição. In: NICOLESCU B. (org) Educação e transdisciplinaridade. Brasília, Unesco.
PINTO, Júlio Pimentel (1998). Apresentação de Maria Ligia Coelho Prado e Prefácio.In Uma memória e história em Jorge Luis Borges. São Paulo, Editora Estação Liberdade Ltda.
POLLACK, Michel.(1989). Memória, esquecimento e silêncio. Estudos Históricos, n.3. São Paulo, Revista dos Tribunais.
Revista "Grandir et Vieillir" (1999, outubro). Correspondance sur Internet. Fondation Natinale de Gérontologie. Paris.
THOMSON, Alistair (1997). Recompondo a memória: questões sobre a relação entre história oral e as memórias. Revista Programa de Estudos Pós Graduados em História (Ética e história oral) n15. São Paulo, Depto de História. PUC-SP, Educ.
[1] O presente texto, revisado e atualizado para o Portal do Envelhecimento, é uma produção coletiva do Grupo de Estudos da Memória - GEM. Publicado originalmente na Revista Kairós - Gerontologia, São Paulo, Educ, vol 6 – n.2 , dezembro de 2003.
[2] Oficina implantada no ano de 2000, atividade semestral, que tem como objetivo a formação e/ ou atualização de profissionais que trabalhem com a questão do envelhecimento, através do resgate e ressignificação de suas próprias trajetórias, em uma perspectiva teórico - prática, utilizando a memória autobiográfica como metodologia. Este projeto idealizado e ministrado pela prof. Vera Brandão, sob a coordenação da prof. Dra. Suzana A. Rocha Medeiros, teve até o momento a participação de 150 profissionais especialmente das áreas de Saúde e Educação.
[3] Consideramos a identidade como múltipla, em processo de construção ou “composição” (Thompson:1997) ligada a diferentes marcas de referência, internas externas, passível de atualização e que dá sentido a construção e uma trajetória que é narrada como história (Brandão:1999).
[4] A citação é retirada da obra Histoire de la douler, La découverte, Paris, 1993, p.8.
[5] Exemplo extraído da pesquisa publicada na revista “Grandir & Viellir” (1999-outubro) com tradução livre da pesquisadora Lucia Pupo.
[6] A citação de Sébille baseia-se nas afirmações contidas na Introdução da obra Milieux et mémoire (1993) do autor, publicada pela Universidade de Jerusalém.
[7] Eva Martinho do Vale - Pedagoga. E-mail: evarmv@ig.com.br; Lucia Medina Pupo - Assistente Social. E-mail: lucia_medina@ig.com.br; Maria Aparecida Oliveira- Pedagoga; Maria Augusta Amieiro -Socióloga. E-mail: augustalos@ig.com.br; Maria Beatriz Sertório - Assistente Social. E-mail: biasertorio@hotmail.com; Maria da Graça Lorenzetto- Assistente Social. ; Maristela Forli Catanoce- Psicologa. E-mail: bukforli@yahoo.com.br; Patrícia Cabral- Psicologa. E-mail: patricia@ferreiracabral.com.br : Rita Amaral- Pedagoga. E-mail: silveiramaral@uol.com.br; Vera Brandão-Pedagoga. E-mail: veratordino@hotmail.com