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Histórias com alma


Em Terra Sonâmbula, Mia Couto utiliza a poesia como redenção do sofrimento de uma guerra civil. 27/10/2010 - por Ubiratan Brasil na categoria 'Memórias'

Muindinga o menino, e Tuahir, o velho, caminham em meio à destruição, em busca de “um outro continente dentro da África”. O local é Moçambique, agonizante por uma guerra civil, banhado por sangue, lágrimas e povoado por seres que andam à deriva. Foi em meio a esse terrível tumulto que

Mia Couto escreveu Terra Sonâmbula (Companhia das Letras, 208 pág., R$ 38), lançado em 1993 
e que ganha agora nova edição, promovendo a vinda do escritor para Festa Literária de Paraty, a Flip, em julho. Ao tratar de memórias perdidas e sonhos por conquistar, Couto produziu uma história pungente, reconhecida como um dos 12 melhores romances africanos do século passado. Valorizou também a palavra, escrita e oral, como comenta na seguinte entrevista, realizada por e-mail.

Como produzir uma literatura engajada que não seja panfletária?

Basta produzir literatura. O texto panfletário raramente é literatura. Existiram momentos do meu país, que eu vivi, que pediam para ser História com H maiúsculo. Outros pediam para serem salvos da História. Em ambos, o escritor precisava ser de um tempo e de um lugar. Em ambos, o que o escritor fez foram histórias com H minúsculo, essas que, como disse Guimarães Rosa, se fazem contra a História.

Você escreveu Terra Sonâmbula enquanto a guerra ainda não havia terminado. Foi doloroso ou consolador?

A realidade de uma guerra que durou mais de 16 anos e que fez quase um milhão de mortos era de tal modo insuportável que era necessário criar uma espécie de outra realidade. A violência da guerra chegava-nos todos os dias por via de relatos de massacres, de gente queimada viva, de pessoas civis e inocentes sendo fuziladas sumariamente. Às vezes, esses relatos são mais incisivos do que o testemunho direto. Nós vamos fabricando uma espécie de dupla vivência: aquela que nasceu da escuta e a outra, que não presenciamos. Escrevi o romance Terra Sonâmbula em estado quase sonâmbulo, visitado por vozes e imagens noturnas em sucessivas insônias. Foi uma dor que eu podia adormecer.

Terra Sonâmbula faz lembrar romances (como Macunaíma, de Mário de Andrade) que também buscam mostrar a construção de uma identidade nacional, no caso, a moçambicana. Como se vê como criador e promotor dos mitos moçambicanos?

Ninguém, em bom senso, escreve um livro com intenção de ser criador de coisa tão séria. Macunaíma, confesso, causou uma impressão fortíssima em mim. Mas não li nele os mitos fundadores do Brasil. Aquela era uma nação de Mário de Andrade, feita de fantasmas e personagens que procuravam com urgência o teto de uma entidade maior que eles próprios. Isso também ocorre com os personagens de Terra Sonâmbula: o menino e o velho, que vivem dentro do ônibus queimado e vão lendo um caderno de um sobrevivente, notam que, cada vez que lêem, a paisagem mudou em volta. É o sonho que faz mover a estrada. Num país em que a estrada tinha morrido.

A oralidade é um dos diversos trunfos do romance. Como foi promover o encontro entre a oralidade e a escrita? Alguma influência de Guimarães Rosa ou Luandino Vieira?

Eu li, no princípio da década de 80, o angolano Luandino Vieira. E foi como uma revelação, uma espécie de autorização para transgredir a norma portuguesa e deixar entrar a oralidade na página escrita. Escrevi o primeiro livro de contos, chamado Vozes Anoitecidas, sob a marca dessa influência. Depois, mais tarde, li uma entrevista em que Luandino referia a presença, na sua escrita, de um autor brasileiro chamado João Guimarães Rosa. Estávamos em guerra, não havia intercâmbio com o Brasil e eu lancei um apelo para amigos brasileiros para que me enviassem livros do tal Rosa. Quando chegaram, eu me embriaguei. Rosa fazia algo diverso, mais próximo, que era do domínio da transgressão poética. Não se tratava apenas de abrir porta à oralidade do sertão. Trata-se de inventar um sertão onde a linguagem só pode ser aquela, encantada e encantatória.

Por falar nisso, parece ser uma preferência sua utilizar personagens contadores de histórias, mas que vivem em situações precárias, assumindo, assim, uma identidade a partir das próprias histórias. O que pensa disso?

O meu processo de escrita é caótico, mas parte sempre das personagens. Eu crio personagens que me devem fascinar e nesse encantamento me ditam em que narrativa eles podem acontecer para não desvanecerem. Desde menino me sentava num degrau do passeio público e me divertia em olhar para as pessoas que passavam e em fazer delas personagens, cada uma com a sua história. Tudo isso partia de uma presunção: era que aquela gente era carente de algo essencial. Faltavam-lhes histórias.

Qual é importância dos mais velhos na cultura africana?

Numa sociedade oral, os mais velhos são guardiães de valores, de saberes. Mas é preciso não mistificar. Existem culturas africanas diversas e, em cada uma, o lugar e o papel dos velhos é diverso. O continente africano é facilmente entendido por via de mistificações e estereótipos. Um deles é a romantização da natural generosidade e do respeito que as comunidades nutrem pelos idosos. Isso nem sempre sucede e a miséria está desnaturando essa solidariedade onde ela existia antes.

Qualquer guerra civil deixa muitas cicatrizes. Quais seriam, em sua opinião, as mais terríveis?

A mais terrível, no nosso caso, é a descoberta do poder de desfazer, de desconstruir. Aqueles que se sentem excluídos num certo modelo de sociedade são tentados a aderir a um discurso manipulador e a tentação é esta: já que não tenho lugar no futuro e destruo o próprio Tempo, já que a minha pátria não é minha eu a converterei num não-lugar. Esse sentimento ficou, experimentou-se a vertigem do caos que rapidamente pode ser reavivada.

Se não aparece em seu formato tradicional, a poesia percorre todas as palavras de Terra Sonâmbula. Seria a poesia uma possível redenção do sofrimento da guerra?

A poesia, para mim, não é apenas um gênero literário, um labor de criação. Há na poesia um saber para outras coisas essenciais que ficam à margem de uma sabedoria muito masculinizada e funcional que resulta da aplicação dos chamados métodos científicos. A apropriação dessa realidade intangível, dessa verdade que não cabe na frase feita, é esse o terreno da poesia.

Qual o papel de um escritor hoje, quando os conflitos mundiais não deixam de renascer?

No caso de Moçambique, um escritor pode convidar a que se revisite o tempo da violência, que hoje parece ter sido esquecido. Se hoje se visita Moçambique, parece nunca ter havido nada, ninguém quer recordar os horrores da guerra. E isso é uma estratégia de criação de harmonia para manter os demônios adormecidos. Mas a verdade é que é preciso que esse tempo seja nosso, tenhamos acesso às lembranças. A escrita literária pode ser uma forma sem ressentimento nem dedos acusatórios para reconquistarmos e nos reconciliarmos com a nossa própria memória mais recente

Que lhe pareceu o título conferido ao livro como um dos 12 melhores romances africanos do século 20? Como, aliás, a literatura africana vem retratando seu próprio continente neste início de século 21?

Eu fiquei naturalmente feliz em receber esse prêmio. A literatura africana hoje está-se rearrumando para se acertar com as mudanças dos últimos 30 anos no continente. Os africanos estão-se demarcando dos temas da luta anticolonial, de uma certa folclorização da sua própria identidade. Para se ser “africano” foi, durante décadas, quase obrigatório explorar um certo tipo de cenário e de temáticas. Havia os tais velhos temas da luta anticolonial, de uma certa folclorização da sua própria identidade. Para se ser “africano” foi, durante décadas, quase obrigatório explorar um certo tipo de cenário e de temáticas. Havia os tais velhos proverbiais contando histórias à volta da fogueira; havia o inevitável feiticeiro, havia as crenças e as fábulas tradicionais. Tudo isso amarrava o escritor africano a uma imagem exótica e estereotipada. Hoje, vários são os autores que estão escrevendo com o único propósito de fazerem literatura, com toda a liberdade de o fazerem do modo que entendem. Sem a preocupação de corresponderem ao rótulo de “africano”. E por que estão menos presos a uma idéia esquemática e redutora da sua própria realidade eles estão produzindo uma literatura de grande qualidade e que merece ser conhecida no Brasil.

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo – Caderno 2, em 16 de Junho de 2007.


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Atualizado em 23/05/2012 02:46:17