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Labirintos da memória. Quem sou?


O livro intitulado Labirintos da Memória. Quem sou? (2008) é o resultado de um trabalho iniciado em 1992 com os participantes de uma Universidade Aberta à Terceira Idade, que iniciava então suas atividades. 05/01/2011 - por Vera Brandão na categoria 'Memórias'

Nesta época o tema envelhecimento era uma “novidade” no Brasil, sempre considerado o ‘país do futuro”. Fui convidada para dar um curso de Antropologia, mas fiquei em dúvida sobre seu enfoque, fiz então um projeto-piloto que apresentei para uma turma formada por cerca de 25 pessoas, mulheres na maioria, com idades que variavam entre 42 até 80 anos - em uma mesma sala 2 gerações - que se reuniam nesse espaço aberto a terceira idade em busca de novos conhecimento, convivência e realização de desejos. Desde o início notamos a força e a necessidade de uma educação continuada, ao longo da vida, para essas mulheres, muitas das quais haviam se dedicado integralmente as atividades do lar, com poucas oportunidades para estudar, e os poucos homens que tinham também se dedicado, exclusivamente, á manutenção da família. A formação sócio-econômica e cultural era muito variada, outro dos desafios da educação continuada nestes contextos.

O tema apresentado era Memória e Cultura, e na investigação sobre os dois termos que compunham seu título, notamos de imediato um significativo interesse por parte da turma. O que é memória? O que é cultura?

Assim, com a aprovação do grupo iniciamos nossas “aulas”.

Neste primeiro momento abordávamos a cultura em seu sentido ampliado, como é próprio da Antropologia, e notamos que, no debate estabelecido, as alunas foram questionando, desdobrando e refinando o conceito. Surgiram assim os saberes que compõe a cultura informal, passados de uma geração à outra, como receitas culinárias, canções infantis, rezas, chás curativos, provérbios, enfim um universo de vida vivida intergeracionalmente. Apareceram as figuras familiares, as festas, os hábitos das diferentes culturas de origem representadas no grupo, e também os fatos sociais e políticos, as guerras, as mudanças na sociedade e, decorrente disto, os novos papéis femininos e masculinos.

Surgiram também as questões referentes às perdas da memória e os esquecimentos, em seus aspectos psicológicos e clínicos.

Mas, o que é a memória?

A palavra remete à mitologia greco-romana e à deusa Mnemósine, personificação da memória ou lembrança, irmã de Cronos - o deus que preside o tempo – e mãe das Musas que regiam as artes e todas as formas de expressão. Assim, desde os tempos mitológicos passando por Platão, filósofo grego que viveu no séc. V a.C., até os dias de hoje este tema tem sido objeto de reflexão. Se a mitologia explica de forma poética a origem e o significado da memória, se através do tempo a filosofia indaga sobre sua condição e sentido para o Homem, iniciamos a busca de explicações abrangentes, além da Antropologia, que articulassem as várias áreas do saber envolvidas no tema.

Constatamos que um novo “mundo” se abria para o grupo e para mim, que nunca tinha trabalhado com adultos mais velhos, e não espera a repercussão desta proposta, para qual eram previstas 5 aulas! Os resultados destes primeiros encontros foram tão promissores que lá trabalhei por 10 anos!

Este desafio inicial me fez voltar à universidade em busca de atualização. Queria saber mais sobre memória, seus múltiplos significados e sentidos, e envelhecimento. Percebi que teria de ampliar meu campo de investigação, porque ao tratar dos dois temas iniciais um caminho muito amplo se abria. A opção foi voltar a estudar concretizado em mestrado e doutorado em Antropologia realizados na PUCSP.

Depois de muitos anos de prática e estudo, ao ser convidada para escrever um livro sobre memória, e considerando o tema desta coleção - Questões Fundamentais do Ser Humano - me perguntei: Como se inscreve o tema Memória na coleção? Ela pode ser considerada uma questão fundamental? Como é abordado este tema hoje? Quem buscaria conhecê-lo Qual sua importância, no mundo globalizado, de consumo e alta tecnologia?

Tínhamos também os desafios de escrever e tornar o tema acessível a todos, e o de sistematizar os estudos, pesquisas e docência destes muitos anos de trabalho.

No livro abordamos, inicialmente, o tema memória como vista na área das neurociências, e nosso guia foi o médico Ivan Izquierdo, professor de Bioquímica, e renomado pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele afirma que os estudos sobre o cérebro humano são de extrema complexidade, com sucessivas e importantes descobertas, sobre seu funcionamento, na compreensão de certas doenças, nas possibilidades de intervenção, mas muitas questões desafiadoras permanecem.

Afirma também que memória é a aquisição, conservação e evocação das informações, dos fatos vividos por cada indivíduo, e que tanto a formação quanto sua extinção – os esquecimentos – dependem de um sistema complexo, e que a formação das memórias de longa duração dependem de forma direta de modificações bioquímicas estruturais, derivadas da síntese de novas proteínas durante e depois da formação de cada uma delas.

Esta é uma primeira das abordagens ao tema memória - ligada à cognição, ao aprendizado e sua utilização. Tudo o que afeta nossos sentidos é re-elaborado e pode ser transformado em aprendizagem, mas um acontecimento só é mantido na memória, e passível de ser recuperado, se for modulado pela emoção.

Sem necessidade, motivação, interesse, ou afetados por fatores externos, e que envolvem níveis variados de atenção e emoção, os processos de conhecimento e aprendizado ficam incompletos - não consolidados - assim, não podem ser recuperados. O que foi consolidado, e pode ser recuperado, se transforma em memória de longa duração - a memória autobiográfica.

Verificamos que os temas memórias, lembranças e esquecimento são vistos, de modo geral, como ligados ao envelhecimento. Rememorar seria uma característica apenas dos idosos, e os esquecimentos são, quase sempre, considerados como patologia - uma doença. Focado apenas como perda, os temas memória e esquecimento assumem uma conotação pejorativa, e o comentário mais freqüente é “memória é coisa de velhos” e esquecimento é apenas ligada doenças degenerativas.

No entanto, em seu livro A Arte de esquecer – cérebro, memória e esquecimento (2004), Izquierdo afirma que esquecemos para poder pensar, esquecemos para não ficarmos loucos; esquecemos para poder conviver e para poder sobreviver. Esquecer também é saudável e necessário, é uma Arte! Afirma ainda (...) nada somos além daquilo que recordamos!

Nada somos além do que recordamos...Mas também do que esquecemos!

Se somos aquilo que lembramos e esquecemos, surge a questão das representações sociais da memória autobiográfica, e sua relevância enquanto constitutiva das identidades e historicidade dos indivíduos e dos grupos, especialmente em uma sociedade de tempo acelerado e de grandes mudanças. Focalizamos então o tema da (trans) formação das identidades, individuais e coletivas, e suas articulações, como um processo de (re) construção, abordando os temas dos esquecimentos, silêncios e não-ditos, e seus significados, como fundamentais para a “sobrevivência” física, mental e psíquica.

As memórias autobiográficas possuem dimensões sócio-afetivas, individuais e coletivas, fonte e reserva cultural dos grupos humanos. Essas histórias, que são nossas e dos grupos aos quais pertencemos, dizem quem somos, auxilia e fortalece as identidades, ilumina os caminhos na busca de sentidos para o ser-estar no mundo. Elas estabelecem as identidades - cada memória é única - e fazem parte, simultaneamente, das comunidades restritas ou ampliadas das quais participamos, ligando-nos também às memórias comuns, sócio-históricas. Ao trabalharmos com as histórias dos sujeitos, como narrativas, ficam evidentes as lembranças individuais entrelaçadas às memórias coletivas, e como parte da memória histórica que as contextualiza.

O trabalho iniciado em 1994 mostrava, claramente, que ao ser relatada e escrita a memória autobiográfica tornava-se história compartilhada, da qual éramos os protagonistas, por meio do instrumento “nobre” de nossa humanização - a linguagem. É por meio dela que estabelecemos os contatos intersubjetivos, formando as redes de relações, base constitutiva dos grupos comunitários e da sociedade.

É na e pela palavra que dizemos quem somos, dos nossos afetos, dos medos, dos sonhos e projetos. Damos “vida” ao imaginário da cultura, relatamos a partir do presente a “verdade possível”, e construímos o “mito” do herói – nós mesmos.

Ao longo do livro ampliamos estas questões abordando os diversos “usos e abusos’ do tema memórias, ligados a sua manipulação, uso ideológico, conservadorismo nostálgico e culto a um passado idealizado. Focamos também o uso “reparador” que assume, por meio da literatura semi-ficional (ou auto-ficção), nos testemunhos, cartas, etc, especialmente ligadas às lembranças de guerras, migrações e imigrações, segredos de família, sem falar do sempre presente tema do Holocausto.

Os “trabalhos de memória” de recuperação, reorganização e resignificação, das trajetórias, por meio da memória autobiográfica, são projetos que propiciam a “re-invenção de si” como os denomina Marie-Christine Josso (2006), socióloga, antropóloga e doutora em Ciências da Educação da Universidade de Genebra.

Esses projetos, de descoberta e re-invenção de si, na perspectiva da autoformação e educação continuada, por nós desenvolvidos para profissionais desde 2000, também são abordados neste livro. Eles articulam, por meio da memória autobiográfica, os aspectos cognitivos, as dimensões sócio-afetivas - individuais e coletivas - reafirmando as identidades dos sujeitos envolvidos, articulando-os na perspectiva dos projetos existenciais que, como afirma a autora, é “ato de dar sentido a vida”.

Do projeto inicial – 5 aulas sobre Antropologia para um grupo de “terceira idade” - até hoje na escrita e publicação de um livro, os temas: memórias, cultura, envelhecimento, formação continuada interdisciplinar tem sido o motivo, estímulo e sentido da minha trajetória. Os bons resultados observados, tanto no trabalho co idosos como na formação de profissionais, indicam um caminho estimulante a seguir.

São muitas as perspectivas e desafios do trabalho de formação continuada e pesquisa no tema complexo das memórias, e suas necessárias articulações: tempos, identidades, culturas. Projetos, sentidos e significados.

No livro abrimos diferentes perspectivas para reflexão sobre o tema memórias, mas os principais objetivos são: apresentar de forma clara, ampla e interessante um tema atual, e suas muitas inter- relações, e levar o leitor a reflexões fundamentais na busca de respostas à pergunta: Quem sou?

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Vera Maria Antonieta Tordino BrandãoPedagoga/USP. Mestre e Doutora em Ciências Sociais – Antropologia PUC/SP. Idealizadora e docente da Oficina de Formação: Memória Autobiográfica – Teoria e Prática. Editora-assistente da Revista Kairós do PEPGG – PUC/SP. Pesquisadora do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento (NEPE) do Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia PUC/SP e do Grupo de Estudos e Pesquisas Interdisciplinares (GEPI) do Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação – Currículo - PUC/SP. Membro da equipe mantenedora do Portal do Envelhecimento. E-mail: veratordino@hotmail.com

Título: Labirintos da memória: Quem sou?
Autor: Vera Maria Antonieta T. Brandão
Coleção: Questões Fundamentais
Acabamento:
Formato: 18 x 10,5cm
Paginas: 103
Preço: 10,50
site: paulus.com.br


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Atualizado em 23/05/2012 02:47:39