Com a proximidade do mês de maio, no qual tradicionalmente se comemora o Dias das Mães, comecei a me perguntar sobre quais seriam as lembranças que os idosos, com os quais trabalho semanalmente - hoje residentes em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) - teriam de suas mães.
Estariam vivas ou distantes essas lembranças em suas memórias? Seriam lembranças saudosas, prazerosas ou evocariam algum outro sentimento? O que aprenderam com suas mães?
Que lugar essas mulheres ocupavam na sociedade nos tempos em que viveram? Abordaremos as inter-relações de duas gerações: a dos idosos de hoje e a de suas mães.
Para melhor compreender o contexto sócio histórico no qual essas mulheres – as mães e seus filhos e filhas – cresceram e constituíram família precisamos aprofundar nossa reflexão e indagar a respeito do lugar social e expectativas sobre o papel feminino na cultura da época.
A faixa etária das mulheres com as quais conversei oscilou entre 62 e 80 anos. Como era o Brasil dos anos 50, quando estas idosas teriam cerca de 20 anos de idade?
Bassanezi (1997) descreve o Brasil, após o término da Segunda Grande Guerra, como um país no qual a classe media era ascendente, com uma população esperançosa e otimista com a industrialização e o crescimento das cidades, mudanças que diminuíram muitas das distancias entre homens e mulheres.
Ampliavam-se, para todos, as possibilidades de acesso à informação, lazer e consumo, porém, resquícios das antigas formas de organização social, relativos aos gêneros masculino e feminino, ainda permaneciam.
“No entanto a base da desigualdade não estaria na diferença entre os sexos, mas nos significados construídos culturalmente sobre essas diferenças. Em outras palavras, a partir da diferença sexual, há um processo de construção de expectativas sobre o que é ser homem e o que é ser mulher. As categorias são construídas como conteúdos culturais definidos pelo imaginário simbólico a partir de expectativas marcadas pelo gênero”. (Souza, 2008:30)
Qual o significado de ser mulher e ser homem nos anos 50? Como vão se construindo e desenhando os seus papéis no meio social?
Ainda, segundo Bassanezi, apesar das mudanças havia muitas distinções entre os papéis femininos e masculinos, e seus lugares sociais. A moral sexual diferenciada permanecia forte e o trabalho da mulher, ainda que cada vez mais comum, era cercado de preconceitos e visto como subsidiário ao trabalho do homem, o “chefe da casa”.
Segundo a autora: “Na família modelo dessa época, os homens tinham autoridade e poder sobre as mulheres e eram responsáveis pelo sustento da esposa e dos filhos. A mulher ideal era definida a partir dos papeis femininos tradicionais - ocupações domésticas e o cuidado dos filhos e do marido - e das características próprias da feminilidade, como instinto materno, pureza, resignação e doçura”. (1997:608)
É clara a expectativa social para que essas mulheres se encaixem numa categoria que já tem características preestabelecidas socialmente, por exemplo, brincar de boneca quando se é criança, aprender a cuidar da casa, do marido e depois dos filhos quando se torna adulta e se casa.
Podemos inferir que tenha sido este o cenário em que essas mulheres, hoje idosas, viveram no início dos anos 50.
A partir das atividades de resgate e re-significação das memórias autobiográficas, que desenvolvo com grupos de idosos, fui ouvindo seus relatos. Mas do que trata a memória autobiográfica?
Afirma Brandão (2007) que “A memória autobiográfica estabelece a identidade - cada memória é única - e faz parte, simultaneamente, das comunidades restritas ou ampliadas das quais participamos, ligando-nos também às memórias comuns, sócio-históricas. Ao trabalharmos com as histórias dos sujeitos, como narrativas, ficam evidentes as lembranças individuais entrelaçadas às memórias coletivas, e como parte da memória histórica que as contextualiza”.
Por meio das narrativas pude confirmar essas reflexões, como também perceber certas semelhanças nas histórias desses idosos e, para minha surpresa, constatei que as lembranças do convívio, dos ensinamentos e da aparência das mães estavam muito vivas!
Conversei com 24 residentes de duas ILPIs, uma privada e outra filantrópica, e todos se dispuseram a participar. A media de idade foi de 78,56 anos, com apenas um homem dentre toda a amostra.
Com os residentes da Instituição privada os relatos foram gravados em áudio, transcritos, lidos para os narradores, realizadas algumas correções e acréscimos com eles. Posteriormente foram digitados em pequenos textos, entregues aos familiares na festa do Dia das Mães, comemorado na instituição.
Com os residentes da Instituição filantrópica os relatos foram anotados durante as atividades, posteriormente digitados, lidos para os narradores e com a ajuda deles cada residente ditou para mim uma frase extraída de seu relato. Estas frases foram afixadas na entrada principal da Instituição, onde os familiares e os colaboradores puderam conhecer as lembranças que os idosos tinham de suas mães.
Painel com frases elaboradas pelos residentes sobre suas mães.
Para exemplificar, apresentamos algumas frases:
“Minha mãe era uma pessoa de espírito muito forte e de pé no chão.”
“Ela era bondosa e não teve chance de estudar. Naquele tempo poucas pessoas estudavam.”
“Minha mãe era uma mulher pequena, mas muito guerreira. Trabalhou muito durante a vida!”
“Minha mãe era muito religiosa. Praticava religião ao pé da letra. Rezava o terço todo dia. Aprendi com ela.”
Lembranças da figura materna
Com relativa facilidade, os idosos se lembraram e descreveram suas mães. Uns se detiveram na aparência física, outros se referiram aos aspectos da personalidade:
“Minha mãe se chamava A. Para mim ela era a melhor pessoa do mundo. Saiamos sempre juntas. Nos dávamos muito bem Eu a amava muito. Tenho muita saudade.” (N, mulher,80 a.)
“Minha mãe se chamava A., mas chamavam ela de R.. Ela era de Bagé, Rio Grande do Sul. Ela era gorda e tinha perna grossa.” (S, mulher,80 a.)
“Minha mãe se chamava Z. Ela era boa, mas não era muito carinhosa, de beijar os filhos. De vez em quando ela batia nos meus irmãos. Ela era mais bonita que eu”.
(W. mulher, 76 a.)
“Minha mãe era uma pessoa muito humilde, mas ela gostava de fazer as coisas muito bem feitas... Minha mãe era uma pessoa que não era de falar muito, mas ela aconselhava a gente, ajudava no que precisava. Quando eu nasci, ela não queria mais filhos porque ela tinha que trabalhar de cabeleireira. Mas enfim quem tratou dela, sempre cuidou, fui eu.”
(E, mulher, 77 a.)
“Minha mãe se chamava M.d.C.. Ela era alta, tinha o cabelo muito comprido, preto. Ela era bem clara e tinha os olhos pretos”. (D,homem,85 a.)
“Minha mãe L. era muito forte, isto é, tinha um gênio muito forte e de pé no chão. Não comprava brinquedos para nós porque não podia. Ela era um comandante. Não era de beijar os filhos, só beijava os filhos quando eles estavam dormindo, pois ela achava que eles iam ficar tudo sem vergonha Não me lembro dela me dar um beijo”. (E, mulher, 77 a.)
“Minha mãe se chamava L. Ela era bonita, baixinha, olhos azuis muito lindos e uma alegria de viver enorme. O fato de na minha infância, de eu ter tido uma mãe alegre foi muito bom. A gente vivia na beira da praia.” (M, mulher, 62 a.)
Verificamos que estas pessoas ao descreverem suas mães retrocederam no tempo muitos anos, partiram do presente em direção ao passado, mas retornaram para o “hoje” da narrativa. Trouxeram consigo as imagens de mães carinhosas, outras vezes enérgicas, mas presentes, com grande cumplicidade entre mães e filhos.
Lembranças do aprender-fazer
“Ser mãe, esposa e dona de casa era considerado o destino natural das mulheres. Atributos tais como maternidade, casamento e dedicação ao lar faziam parte da essência feminina; sem história, sem possibilidades de contestação”. (Bassanezi,1997:609)
As idosas com as quais conversei confirmam essas palavras.
A Sra. L. (72anos) lembrando o que sua mãe ensinou diz:
“Ela ensinava a limpar bem a casa, e todos os cantos. Ela dizia que se não estivesse tudo bem limpo, inclusive nos cantos Jesus não vinha na nossa casa. Eu lembro que meu brinquedo era um fogão. Eu brincava e punha tudo dentro de uma caixa. Quando minha mãe costurava, eu sentava debaixo da maquina e ficava brincando com meu fogão, ela cantava musicas do Carlos Galhardo.
Minha mãe me ensinou a cozinhar, fazer bolo, crochê e minha tia me ensinou o tricot.”
A mãe da Sra. L. (72 anos) usou um álibi para que sua filha limpasse muito bem a casa, responsabilizando-a pela ausência de Jesus, se a casa não estivesse rigorosamente limpa, incluindo os cantos que não poderiam ser esquecidos. Hoje, institucionalizada, limitada na cadeira de rodas, por artrose, resta-lhe um fazer ensinado por sua tia: é eximia tricoteira e passa a maior parte do tempo executando lindos conjuntos de tricot à moda antiga: touca, casaquinho e par de sapatinhos.
Outra residente, Sra. N (80anos), conta:
“Ela me ensinou a costurar, bordar, fazer orações, amar a Deus. Tudo o que aprendi passei para minha filha: obediência, religião católica.”
E a Sra M. (73 a.)afirma:
“Aprendi muito com minha mãe: educação, religião. À noite rezávamos o terço a família toda reunida depois do jantar. Nós ficávamos ajoelhados. Meu pai puxava o terço.”
Para muitas famílias, num país essencialmente católico, naquele período, o ensino religioso, inclusive nos lares, fazia parte do cotidiano de grande parte da população. De acordo com Jacob (2004) dizia-se que o Brasil era o maior país católico do mundo, perfil religioso que se manteve até os anos 80, época na qual ainda se observava pouca mudança, mantendo uma supremacia herdada da época colonial.
A Sra A. (75 anos) nos diz:
“Minha mãe se chamava Lazara. Quando eu tinha 15 anos, minha mãe teve o ultimo filho, e ela ficou paralítica. Ela ia me ensinando as coisas, da cama, deitada. Ela me ensinou como cuidar da casa, cuidar da roupa do meu pai e dos meus irmãos, ensinava a orar.”
Apesar de estar limitada, a mãe conseguiu desempenhar seu papel de preparar a filha para as tarefas de casa, que no futuro iria realizar.
O senhor D(85 anos), de origem portuguesa, descreve o que aprendeu com sua mãe:
“Ela me ensinou a rezar, cozinhar. Ela era benzedeira. Pegava ramos de oliveira e benzia as pessoas por caridade. Fazia pão em casa, e eu aprendi a fazer pão no forno que tínhamos em casa.
Outra residente, Sra. W (76 anos) relata:
“Ela me ensinou a bordar, fazia centros de mesa, guardanapos, ponto cruz. Ela sabia bordar à mão e na maquina. Ela fez um curso profissional e aprendeu a fazer tudo: chapéu, flores. Lá ensinava de tudo. Minha mãe aprendeu a bordar, mas depois ela não quis ir mais ir no curso. Minha tia aprendeu a costurar, mas foi minha mãe quem bordou todo o enxoval da minha tia. Aprendeu a costurar e costurava para a família.”
Algumas idosas, de origem mais simples e de famílias com dificuldades financeiras, por necessidade, logo aprenderam as tarefas caseiras ainda meninas e passam a fazer os serviços caseiros:
“Com 10 anos minha mãe viu que eu sabia cozinhar e passei a cozinhar em casa. Eu ajudava no salão e cuidava da família. Tive 4 filhos. Ensinei meus filhos a terem bom caráter, mas um deles não aprendeu nada. Por isso estou aqui!.” F., mulher, 68 a.
Ou:
“Eu aprendi tudo com ela: lavar, passar, fazer limpeza de casa, educação, tudo foi ela que me deu. Aprendi até a costurar e cozinhar: fazer bolo, macarrão, risoto.” A., mulher, 90 a.
Uma residente mais sofisticada lembra-se dos ensinamentos maternos também mais diferenciados:
“Com minha mãe eu aprendi espanhol, inglês, um pouco de italiano e a cozinhar. Ela costumava fazer talharini à putanesca. Queijo italiano; colocava alguns ingredientes diferentes que tornavam este prato especial.
Minha mãe tinha muito bom gosto para se vestir.” M.,mulher, 62 a.
Como era importante saber cozinhar, cuidar da casa, bordar... Bassanezi(1997:627) nos aponta que “O primeiro componente da fórmula, ao alcance de todas as mulheres, como diriam as revistas femininas eram as prendas domésticas. O bom desempenho nas tarefas domésticas, especialmente cozinhar bem, era visto como garantia de conquista do esposo e manutenção do casamento: “a mulher conquista o homem pelo coração, mas poderá conservá-lo pelo estomago” segundo Jornal das moças de 2 de outubro de 1958.
A autora segue referindo-se à vocação prioritária para a maternidade e a vida doméstica como marcas da feminilidade, enquanto iniciativa, a participação no mercado de trabalho, a força e o espírito de aventura definiriam a masculinidade.
Num dos nossos encontros, uma residente nos contou que gostava muito de fazer contas e queria fazer um curso de contabilidade. Como era boa aluna tinha conseguido uma bolsa de estudos para fazer o primeiro ano sem custos, mas sua mãe não deixou: “Você tem que prender a bordar e fazer o serviço de casa Se você estudar e aprender a ganhar dinheiro, seu marido é que vai desfrutar!”. Esta senhora contou este fato com muito pesar.
A mulher que não seguisse esses caminhos pré-determinados estaria indo contra a natureza, não poderia ser realmente feliz ou fazer com que outras pessoas fossem felizes. Assim, desde criança, a menina deveria ser educada para ser boa mãe e dona de casa exemplar. As prendas domésticas eram consideradas imprescindíveis no currículo de qualquer moça que desejasse se casar. E o casamento, porta de entrada para a realização feminina, era tido como o “objetivo” de vida de todas as jovens solteiras. E o que acontecia com as mulheres que não se casavam? Foram formadas, educadas para este objetivo...Foram infelizes?
As atividades desenvolvidas utilizando a memória autobiográfica em ILPIs, parte das quais relatamos aqui, nos desvelam um pouco das muitas riquezas a serem descobertas.
Partindo da pergunta sobre o que e como se lembravam de suas mães; o que aprenderam com elas, resgatamos lembranças muitas bem guardadas nas suas memórias, re-significando muitas figuras maternas “adormecidas”. Revelam-nos também um pouco das trajetórias e o contexto sócio cultural, cenário na qual viveram esses atores.
Momberger (2008:35) diz que “o ser humano apropria-se de sua vida e de si mesmo por meio de histórias. Antes de contar essas histórias para comunicá-las aos outros, o que ele vive só se torna sua vida e ele se torna ele mesmo por meio de figurações com as quais representa sua existência. A primeira destas figurações, a mais matricial e abrangente, aquela, que de certa maneira enquadra a infinita multiplicação das histórias humanas, concerne ao desenrolar a vida (...) o homem escreve no espaço a figura de sua vida”.
Ouvimos, trocamos, escrevemos, endossamos, tecemos histórias - “narrativas de si”!

Encontro de um grupo em uma das Instituições.
Referências
Brandão, Vera M. A.Tordino. (2007). Memória autobiográfica: reflexões. Artigo elaborado para fins didáticos. São Paulo.
Bassanezi,Carla.(1997) “Mulheres dos anos dourados” in Del Priore, Mary (org.) História das mulheres no Brasil. Ed. Contexto. São Paulo.
Jacob, Cesar Romero et.al. (2004)" Dossiê Religiões no Brasil". Revista Estudos Avançados, número 52, vol. 18. setembro /dezembro 2004. São Paulo: Universidade de São Paulo.
Monberger-Delory, Christine. (2008). Biografia e educação - figuras do individuo –projeto. Editora da URFN.
Souza, E.R. 2008. Que cultura é esta? In Revista Mente e Cérebro, nº 185. p.30-31 Duetto Editorial. São Paulo.