Comecei a escrever minhas crônicas em Outubro de 2006, mas na realidade tudo teve início em 2005, quando fiz o curso de Oficina de Memória Autobiográfica, com a Professora Vera Brandão. A cada semana, lição de casa: relato de episódios da vida.
Acostumado a só escrever temas profissionais, na área de psicologia organizacional, de repente me deparei com o gostar de escrever temas livres, especialmente os causos em que me envolvera, alguns hilários, outros nem tanto.
Cristão novo no uso da informática, resolvi enviar para amigos - a maioria ex-alunos dos quais tinha endereço eletrônico – o que passei a chamar “croniquinhas”. Dada a boa receptividade, não parei mais com essa brincadeira. No início, tinha apenas alguns poucos casos pra contar, mas, como ocorre com a livre associação, fui descobrindo mais e mais casos que se transformariam em matéria prima de minhas crônicas.
Lá pelas tantas, o Portal do Envelhecimento da PUC me pediu para publicar meus causos e foi através do Portal que um jornalista da minha terra ou, mais precisamente, do meu bairro da infância leu uma crônica em que falava da terrinha e me pediu licença para publicar no “Jornal da Vila”. Licença dada sai publicada a primeira crônica “Era e Não Era”, sobre a minha primeira escolinha.
Vejam só! Minha primeira escolinha se chamava ALEMÃ. Na fachada, a bandeira nazista, com suástica e tudo. Era setembro de 1940 e o Brasil ainda era neutro na guerra que corria solta na Europa.
A escola tinha aquele nome porque a Antártica a patrocinava, através da Fundação Zerrener e Zerrener, o nome da família dona da Antártica. Eram alemães. A bandeira com a suástica era a bandeira oficial de então.
Tinha eu apenas seis anos e, com essa idade, não podia me matricular, mas tanto insisti que acabei convencendo minha mãe a me levar até Dona Elvira, a professora. A escola tinha apenas primeiro ano primário, como se chamava naquele tempo.
Dona Elvira não fez qualquer objeção e sem nenhuma burocracia falou pra minha mãe: “Deixa o menino vir. Ele vai fazendo cobrinha até se acostumar. Basta trazer caderno, lápis e pronto”. É, de alemã, essa escola só tinha o nome.
O que mais me cativou desde o início era o que acontecia na última meia hora. Depois de três horas e meia de aula D. Elvira encerrava as lições e convidava quem quisesse para ir à frente da turma para cantar ou recitar ou fazer qualquer outra representação. Ela nem precisava insistir muito, tinha sempre alguém que se apresentava.
E, agora, o mais interessante: Os mais tímidos podiam chamar outro coleguinha mais desinibido e se apresentar com ele lá na frente. Com isso, ninguém ficava de fora e em pouco tempo toda a turma participava sem medo.
Em 1941, completei sete anos e já me sentia um veterano na escolinha. Não precisava mais escolher colegas pra me acompanhar lá na frente e logo mais seria eu o escolhido para essa função.
Pra cantar a gente ia em turminha. Pra recitar era sozinho.
Foi então que comecei a me interessar em decorar quadrinhas que encontrava em um velho livro de leitura que pertencera a minha mãe, coisa de mil novecentos e abobrinha. Só eu sabia aquelas “novidades” e fazia o maior sucesso. Mas, sucesso mesmo aconteceu quando decorei um poemeto burlesco/caipira que, de tanto declamar, até hoje sei de cor. Olha ele aí:
“ERA E NÃO ERA”
Era e não era
Imaginem vanceis:
Eu andava viajano,
Correno o mundo
Quando, um dia ansim de
supresa
Arrecebi uma triste nova:
Meu pai ia pra cova
E eu ia nascê
Mas isso era estúrdio
O que fazê?
Saí na disparada
Mas vortei
Vortei pra trais
Pois perdi uma capa
Uma capa
Que eu não levava.
Mas valeu
Topei cum pé de figo
Carregadin de pesco maduro
Trepei por ele em riba
E toca apanhá as maçã
Aí veio o dono do feijoá
E gritou:
Ô tinhoso, comé questá
A apanhá feijão, mangarito e
bucha
No sapesá aeio?
Então agarrô num pé de cove
E me assentô na testa
Ui qui festa!
Mesbandaiô os jueio.
Dos sete anos até, mais ou menos, os treze o Era e não Era passou a ser minha “pièce de résistance”. Em qualquer festinha, lá ia eu – a pedidos - declamar o danado poemeto. Nem eu agüentava mais!
São Paulo: dezembro de 2006.
Waldir
Alguém por lá leu a crônica e, no dia nove de outubro de 2008, recebo a seguinte mensagem:
Caro Professor:
Meu nome é Arthur. O Sr. Não me conhece meu pai chamava-se Egydio Tamburus e foi barbeiro na Vila Tibério durante toda vida.
Estou lhe escrevendo para lhe dizer: Muito obrigado!
E para afirmar que tanto eu como meu pai sempre fomos muito gratos ao Senhor. Explico:
Lá pelos idos de 1965 (portanto mais de 40 anos) eu estava disputando um lugar de trabalho na Nestlé, aqui de Ribeirão Preto e para isso, como já tinha passado nos “crivos” iniciais, deveria ir a São Paulo, em endereço já marcado, para submeter-me a uma série de testes psicológicos e entrevistas, que seriam as últimas etapas para a escolha do candidato.
Estava desempregado, tinha largado o primeiro ano de Faculdade da USP.RP. E muito desanimado.
Achava que naquele estado de espírito, minhas chances de sair-me bem e superar os fortes concorrentes eram pequenas.
Conversando com meu pai a respeito e falando das minhas inseguranças, ele me disse:
“Porque você não vai uns dias antes da data marcada para a entrevista e procura um grande amigo meu – ele vai te ajudar”.
E explicou que tinha um freguês que desde moço cortava o cabelo com ele e que ao abandonar o seminário, havia se mudado para São Paulo onde era psicólogo e que com certeza, me orientaria, quando eu me identificasse como o filho do Egydio Barbeiro da Vila.
Fui para São Paulo, procurei por essa pessoa, que, me recebeu com muito carinho em seu consultório e que durante horas me ensinou o “caminho das pedras”, mais do que isso, restabeleceu minha auto-estima, deu-me coragem. Enfim, preparou-me para aquela grande batalha.
Saí do seu consultório animado e no outro dia, pude sentir o quanto tinha sido importante a sua ajuda.
Aliás, diga-se de passagem, o Sr. Não me cobrou um centavo, nem permitiu sequer que eu esboçasse qualquer gesto de pagamento.
Durante os testes e durante a entrevista que começou as 8:00 e só terminou depois das 13:00horas, eu sentia que se não tivesse estado com o Senhor, as minhas chances seriam nulas.
Após os testes, retornei a Ribeirão Preto. Depois de algum tempo, fui chamado pela Empresa que havia selecionado dois elementos e assim passamos mais de um mês sendo treinados e finalmente partimos para o estágio prático no campo, que durou três meses de experiência. Após fomos, ambos, admitidos.
Devo dizer-lhe que trabalhei durante 20 anos na Nestlé. Fui promovido várias vezes, até chegar no cargo de Gerente de produtos Sênior.
Viajei por todo o Brasil. Estive no exterior (México, Suíça, Espanha, Portugal, França) fazendo cursos de especialização em marketing e propaganda.
Enfim, foi através desse emprego, que pude realizar-me pessoal, social e emocionalmente.
Atualmente estou aposentado, resido em Ribeirão Preto onde quem sabe um dia terei o prazer de receber sua visita para pessoalmente poder abraçá-lo e dizer-lhe pessoalmente do quanto a sua ação humanitária significou para minha vida.
Desculpe ter esperado tanto tempo para agradecê-lo assim explicitamente, porque mentalmente, sempre que eu me lembrava desse episódio e contava para alguém, eu fazia questão de frisar a minha eterna gratidão a esse cidadão que tanto me ajudou e que não tinha recebido de mim um agradecimento mesmo que simples e sincero. Muito obrigado sempre!
Pois é minha gente, em Dezembro, estarei com o Arthur, no Pingüim, pra comemorar e tomar o melhor chop do mundo.
Waldir
*Filósofo e psicólogo e ex-professor de Psicologia do Trabalho na PUC/SP. E-mail: awbiscaro@uol.com.br