
Mesa redonda composta por Patrícia Cabral (GEM), Pe. Leo Pessini e a profª Vera Brandão
Em dias de um verão antecipado, com temperaturas acima dos 30º, foi realizado na PUC São Paulo o III Congresso Iberoamericano de Psicogerontologia. O calor externo combinava com entusiasmo e o alegre (re) encontro entre tantos pesquisadores das áreas gerontológicas, muitos já participantes dos I e II Congressos de Psicogerontologia - Buenos Aires em 2005 e Montevidéu em 2007 – e outros que participavam pela 1ª vez.
As altas temperaturas eram deixadas de lado ao menos durantes as atividades do Tuca, Tucarena, e auditórios, ambientes nos quais o friozinho da refrigeração fez muitos usarem suas jaquetas e xales!
Entre inúmeros e importantes trabalhos, provenientes de 13 países da Ibero América, o Grupo de Estudos da Memória – GEM, que integra o Núcleo de Estudo e Pesquisa em Gerontologia – NEPE, apresentou os resultados indicativos de um Projeto de Formação Continuada e Pesquisa, realizado no período de 2004 a 2008.
A mesa redonda intitulada Memória Autobiográfica, Envelhecimento e Espiritualidade, foi formada pelo padre camiliano Leo Pessini, pela psicóloga e mestre em gerontologia Patrícia Cabral, representando o Grupo de Estudos da Memória (GEM), e por mim Vera que mediei o Projeto de Formação e a mesa redonda.
Faria também parte da mesa a Dra Ligia Py, conhecida e reconhecida por todos, mas que, infelizmente, não pode comparecer devido a um súbito problema de saúde.
Pe. Leo, Doutor em Teologia Moral/Bioética, professor e escritor de inúmeros livros e artigos nas áreas de bioética, saúde e espiritualidade apresentou uma síntese brilhante de seu pensamento, que impactou e sensibilizou a todos os presentes.
Apresentamos a seguir o resumo por ele escrito, base de sua palestra, bem como os dos demais trabalhos.
Espiritualidade E Envelhecimento
Por Pe. Leo Pessini
Espiritualidade é o que permite que uma pessoa vivencie um sentido transcendente na vida. Isto envolve “fé” e “sentido”. Fé é acreditar numa dimensão espiritual transcendente da vida, o fio condutor que liga e re-liga todas as coisas (Deus). Esta ligação e comunhão é um componente essencial da experiência do sentido da existência. Julgar que a própria vida tem um sentido, envolve a convicção de que se está realizando uma missão inalienável na vida, vivida como um dom.
Cultivar uma espiritualidade na vida e principalmente na velhice nos introduz na vivência e experiência do Kairós (tempo de graça), para além do encontro implacável e inevitável do chronos (tempo acumulado do calendário... que nos assusta) e que descobre que a velhice é “o domingo da vida”. Na rota do Kairós, podemos envelhecer com sabedoria e viver com qualidade de vida. “Quão bela é a sabedoria nas pessoas de idade avançada, e a inteligência e a prudência nas pessoas nobres! A experiência consumada é a coroa dos anciãos” (Eclo 25,7-8).
A vida humana é um processo. Tem seus altos e baixos, mas ela vai acumulando experiências, sentimentos, vivências que enriquecem a caminhada. Soma-se a isto os êxitos e os fracassos como estímulo para novas conquistas espirituais. Na velhice, para além dos cuidados com saúde, que se tornam mais intensos, temos que cuidar de nossa identidade, bem como nutrir este tempo Kairótico com: contemplação, silêncio, despojamento, oração e crescimento na auto-estima. Esta é a agenda da espiritualidade frente à velhice.
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Importante ressaltar que a pesquisa-piloto realizada pelo GEM, que buscou articular três complexos tema – memória, envelhecimento e espiritualidade – teve um texto de base no tema espiritualidade intitulado Espiritualidade e a Arte de Cuidar da Saúde, que Pe Leo entregou nas mãos da Patrícia após sua apresentação no XIV Congresso Brasileiro de Geriatria e Gerontologia: “Envelhecimento Ativo: enfrentando fragilidades, resgatando competências” -realizado em Salvador (2004) - quando fomos cumprimentá-lo pela brilhante “aula” que havia ministrado.
E assim, fazemos um pouco a “memória” deste projeto de pesquisa que teve como “ponto de partida” um encontro entre os participantes desta mesa aqui sintetizada.
A seguir apresentamos o resumo que buscou apresentar o projeto GEM.
Memória Autobiográfica, Envelhecimento E Espiritualidade.
Projeto de Formação Continuada e Pesquisa
Por Vera Brandão e Patrícia Cabral
O envelhecimento da população mundial exige pesquisa e formação continuada dos profissionais da área gerontológica, motivo da organização do Grupo de Estudos da Memória GEM - NEPE. Composto por 15 profissionais de formações variadas, egressos do projeto de formação - Oficina Memória Autobiográfica: Teoria e Prática, o grupo trouxe de suas práticas a questão base da pesquisa-piloto - Memória Autobiográfica, Envelhecimento e Espiritualidade.
Objetivos: elaborar metodologia de formação continuada em pesquisa qualitativa interdisciplinar, por meio de pesquisa-piloto; articular saberes e competências de profissionais e idosos; utilizar a memória autobiográfica na pesquisa sobre o significado da espiritualidade na trajetória e seus benefícios na saúde e qualidade de vida.
Metodologia: preparação teórica; elaboração do instrumento de pesquisa; entrevistas gravadas, transcritas e analisadas segundo seus conteúdos; construção coletiva do texto final.
Resultados: Grupo pesquisado - 10 indivíduos: 8 do sexo feminino; idade média 82 anos; 55% católicos e 45% de outras crenças; profissões, grau de escolaridade e nível sócio-econômico variados.
A análise dos dados constatou que: a religião declarada não coincide com as práticas e rituais; espiritualidade e religiosidade difusas, mas base da busca de sentido na trajetória; estabilidade atual parece resultar da autopercepção prospectivas positivas, ligadas à luta pela sobrevivência, fortalecendo a saúde, auto-estima e sentido de transcendência, não necessariamente ligadas às crenças e práticas religiosas.
Conclusões: os resultados da pesquisa-piloto indicam: diversidade das práticas espirituais ligadas à subjetividade e complexidade dos sujeitos e experiências de vida. Os profissionais avaliaram positivamente o trabalho de formação continuada, com crescimento pessoal e profissional, indicando a continuidade do projeto.
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Gostaríamos de deixar registrado também o resumo escrito pela Dra Ligia Py, psicóloga, gerontóloga, mestre em Psicossociologia, Doutora em Psicologia. Professora Colaboradora do Instituto de Psicologia/UFRJ, e Presidente da Comissão Permanente de Cuidados Paliativos da SBGG, entre outras atividades, além de autora de muitos livros e artigos abordando os temas da finitude e cuidados paliativos. Este resumo também foi lido durante nosso encontro para marcarmos, por meio das palavras, sua presença tão desejada naquela tarde do dia 3 de novembro.
Envelhecer é transgredir
Dra Ligia Py
O ser humano envelhecendo pode cursar esse processo de forma apavorante, no desespero das perdas inexoráveis, antecipando a sua morte, tanto quanto pode revelar-se como contribuição para o redimensionamento do estatuto sociocultural do sofrimento, tamponado pelo hedonismo do consumo. Assim, pode fazer confluir a experimentação da precariedade humana e da fragilidade do seu corpo com a vivência da finitude e criar um sistema de valores que lhe permita compartilhar o reconhecimento de si mesmo, sendo reconhecido pelas pessoas do seu convívio. Pode apresentar-se velho, envelhecendo mais e mais, com dores, fracassos, prazeres e sucessos, transgredindo ambos os padrões, de velho ativo e velho incapaz, para revelar a realidade de uma velhice que, transcendendo ideologias, viabiliza formas peculiares de transcendência do ser humano.
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Deixamos registrados, neste breve relato, um pouco do muito que foi dito naquele dia.
Mas ficam apenas simples palavras, que não “contam” a intensidade da emoção “à for da pele’ proveniente da partilha de seres-saberes-fazeres, que buscam entender o envelhecimento e o longeviver na dimensão da in-finitude, indicando ações mais amorosas e éticas.
Pe. Leo Pessini, Patrícia Cabral e Vera Brandão ao final da apresentação da mesa redonda Memória Autobiográfica, Envelhecimento e Espiritualidade.

Grupo de Estudo de Memória – GEM. Pesquisadores: Araci T.Coriolano, Celina B. Monteiro, Edméa M. Bragatto (parcial*), Elza P.Corrêa (parcial*), Eva R. M. do Valle, Ivany Antiqueira (parcial*), Lúcia M. Pupo, Márcia Barreto (parcial*), Márcia Plesman (parcial*), Maria Aparecida de Jesus R. Oliveira (parcial*), Maria Augusta Lós Reis, Maria Beatriz S.Teixeira, Maria da Graça Lorenzetto, Maria da Graça Leal (parcial*), Maria Olívia de Araújo, Maristela H. B.F.Catanoso, Patrícia G.F.Cabral, Rita D.Amaral e Vera M. A. Tordino Brandão. Os participantes não assinalados fizeram parte integralmente do processo de formação continuada, e da pesquisa, resultados aqui apresentados. Os assinalados como parcial* participaram de diferentes etapas do trabalho trazendo, naquele momento, sua contribuição para este resultado final.