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Memória autobiográfica: um caminho para a vida


Como o oleiro, no processo sensível de moldar o barro, a tarefa do narrar esculpe forma, imprime trajetórias, traz uma nova expressão, um novo olhar, às experiências e ao vivido. 13/07/2011 - por Maria da Graça M. Lorenzeto na categoria 'Memórias'

Desde 2001, quando participei da Oficina Memória Autobiográfica – Teoria e Prática", promovida pelo Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento -  NEPE (PUC/SP), coordenado pela Profa. Dra. Vera Tordino Brandão,  fui tocada pela possibilidade de realizar um trabalho direcionado ao resgate do passado, ao ressignificar de experiências vividas, ao autoconhecimento e à construção de projetos futuros.

Assim sendo, comecei a desenvolver Oficinas de Memória Autobiográfica em espaços públicos: na Prefeitura Municipal de São Paulo (Centro de Convivência da Vila Prudente – Secretaria da Assistência Social; Unidade de Referência à Saúde do Idoso - URSI Mooca e Centro de Convivência e Cooperativa Mooca, compreendidos pela Secretaria da Saúde).

Minha experiência prática passou a enfocar, entre outros temas,  "Violência e Cuidar", que também desenhou seu caminho no âmbito privado: - na organização social Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, onde realizei uma Oficina de Memória para Acompanhantes Comunitárias de Idosos; em grupos de profissionais, como o Grupo de Assistentes Sociais Cristãs – GASC; e em grupos de terceira idade. Além disso, coordenei, recentemente, uma vivência com um grupo de artesãs - o Grupo de Mulheres, em São Francisco Xavier, SP.
Inspirada, nesta experiência, escrevi uma pequena reflexão:

Sob um céu azulão de início da noite, adentrei a Serra da Mantiqueira. Minha anfitriã estava ao volante e descrevia com gratidão àquela travessia. Olhei para o alto e lá estavam uma lua e algumas estrelas muito brilhantes. O silêncio e o cheiro da mata permaneciam tão vivos: a sensação era como se eu me movesse no sagrado. O automóvel serpenteava nas curvas, ziguezagueando, cumprindo seu rumo.

Refleti que aquele caminho estava sendo palmilhado por causa de um outro – um caminho de mesa que mãos zelosas haviam preparado, uma singela obra de arte: desfiando o tecido, escolhendo outros pequenos retalhos estampados que emprestavam seu harmonioso colorido para compor um todo que agora, decora uma mesa. Por vezes o acaricio – aqueles quadradinhos tão bem entrelaçados são, a meu ver, pedacinhos de memória. E memória é coisa delicada. Entendi, então, que o caminhar naquele momento era outro: o de ouvir as palavras daquelas mulheres que possuem o dom de tecer um caminho com agulha e linha; na minha lembrança veio, então, o caminho da poeta: "Um tecido fiz, de vida: fios subindo, fios descendo. Um tecido fiz de vida: fios atados, fios cortados [...]

No caminho da memória vêm as palavras, no caminho das palavras a linguagem; no caminho da linguagem a emoção – a confissão do apreço pela caminhada, pelo vivido - o sentimento de não sentir-se estrangeira em terra estranha, mas sim acolhida, a força em lidar a terra, a  alegria em fazer família, a dádiva em poder compartilhar as calmarias e adversidades com amigos.

As narrativas, então, acabaram por tecer um outro caminho que se expandiu – a peça artesanal sobre a mesa possui, agora, um valor mágico e mensageiro; palmilha o caminho daquela estrada cercada pelas montanhas e pelas falas daquelas mulheres – registro de um caminhar para si, de um falar sobre si...

Ao final do encontro, ou melhor, da vivência, como a encerrar o caminho, o pão também preparado por mãos de caminhante, foi servido em comunhão por todas. Um encantamento acerca do narrar a vida por intermédio das mãos e da voz pairou naquele espaço, abrindo caminho mais uma vez para a inspiradora presença da poeta:

"[...] Uma vida fiz tecida, bordada, quase rendada. Relevos de altos e baixos, formas de pouco jeito que trago aqui no peito. E agora, trabalho pronto, até aquele ponto, que não tinha lugar, deu um jeito de se encaixar, fez textura sem par" (Poema "Vida Tecida" de Rosaly Maria S. Ozório).

Após descrever esta experiência, gostaria de indicar que as diferentes experiências nesta área me encaminharam à docência, na disciplina Oficina de Memória Autobiográfica - no Centro Universitário Salesiano de São Paulo, para alunos da Universidade Aberta para Terceira Idade - a Idade Ativa.

Gostaria de salientar que ao término do Curso "Intervenções e Práticas Sistêmicas com Família – Terapia Familiar e de Casal", realizado por mim na UNIFESP, escolhi como tema do Trabalho de Conclusão de Curso O Estudo do Significado da Narrativa na História de Vida de Cuidadores.

Sua aplicação foi desenvolvida na cidade de Santo André (SP), e baseou-se na orientação sistêmica e percorreu a trajetória compreendida pelo reavivar do cuidado. Havia a presença de uma terapeuta, aqui compreendida em sentido mais amplo como a figura da mediadora, a qual foi tanto mais colaborativa quanto foi menos visível ao grupo, ou seja, as intervenções foram mínimas e necessárias, e a conversação se construiu pautada na circularidade, diálogo, reflexão e ressignificação.

Esta experiência deu origem ao convite para minha participação no programa Educare, gravado em 26/05/2011, com a participação da entrevistadora Luciene Moreira que havia participado da Oficina. O programa foi gravado pela ABC NET - programaabc@netserviços.com.br.

Diante destes estimulantes resultados me sinto fortalecida para prosseguir nos caminhos da Oficina de Memória Autobiográfica, cuja prática tem expressado que o passado não mostra como um exílio solitário, mas que sim, pode nos trazer novos significados.

Como o oleiro, no processo sensível de moldar o barro, a tarefa do narrar esculpe forma, imprime trajetórias, traz uma nova expressão, um novo olhar, às experiências e ao vivido.

Assista a íntegra da entrevista acessando:
Parte 1 - http://youtu.be/vLndWweHxdM
Parte 2 - http://youtu.be/Vxa3s2sfmc4

Assistente Social. Especialista em Gerontologia (HSPSP). Mestre em Serviço Social (PUCSP). Docente do Centro Universitário Salesiano. Pesquisadora do Grupo de Estudos da Memória – GEM / NEPE-PUCSP. E-mail: mgloren10@gmail.com


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Atualizado em 23/05/2012 02:52:34