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Memória, corpo e envelhecimento


A memória em educação, psicologia, neurologia, e, em geriatria frequentemente refere-se à faculdade de registrar conservar e lembrar informações. 01/09/2010 - por Regina Célia Gorodscy, Daniele C. Zago e Pedro M. Gava na categoria 'Memórias'

Introdução

A memória em educação, psicologia, neurologia, e, em geriatria frequentemente refere-se à faculdade de registrar conservar e lembrar informações. A memória é considerada em três estágios: o primeiro é o da memória sensorial, ou ultracurta, composta por percepções visuais, auditivas, tácteis, cinestésicas, registradas através de fenômenos físicos. Na verdade a memória sensorial vai muito além deste contexto ultracurto, constituindo o primeiro momento do que pode ser apreendido a longo prazo . As crianças em seu desenvolvimento sensório-motor na descoberta e assimilação do mundo nos mostram este fato. Este tipo de memória é muito utilizado em imagens subliminares tanto no contexto artístico como em propaganda.

O segundo é o da memória em curto prazo, a qual é limitada pelo campo de apreensão instantâneo de um conjunto e pelo número de elementos que a mente pode apreender e reter, concomitantemente.  É a memória que os geriatras e neurologistas avaliam em pesquisa de processos demenciais (repetir dígitos, repetir palavras...)

A memória em curto prazo é também um dos primeiros pontos de descontentamento quando envelhecemos.  Uma experiência comum deste fato é aquela súbita incapacidade de lembrar nomes na hora de fazer apresentações, nomes que um minuto atrás se sabia muito bem, ou se confundir com um número de telefone conhecido. A informação está na “cabeça”, mas fica presa ao inconsciente e a força de vontade não basta para torná-la acessível à consciência.

A memória em longo prazo, ou memória secundária engloba todas as lembranças que estão no sentido da memória imediata, quer sejam lembradas após alguns minutos ou alguns anos. Pode ser dividida em memória recente, ou memória de médio prazo e memória antiga, terciária, ou memória consolidada. Assim, em relação à memória, distúrbios da memória são associados freqüentemente a distúrbios e estes a funcionamento cerebral.

Todavia, muitos teóricos nos dizem que a idéia da memória concebida dessa forma é restrita e incompleta. Concordando com Lopes (2000), acreditamos que entender a velhice apenas como fenômeno biológico, significa reduzir a questão, priorizando a condição biológica como formadora do comportamento e da saúde, não levando em conta aspectos psicológicos, sociais e culturais envolvidos na relação saúde-doença.  Merleau Ponty (apud Biccudo e Espósito,1997) em seu trabalho Fenomenologia da Percepção analisa vários relatos de patologias neurológicas e suas manifestações, procurando contestar as possibilidades de uma relação linear causal isolada, externo versus interno. “Mostra que mesmo a fisiologia moderna já não aceita a idéia da recepção de qualidades específicas conduzidas pelos órgãos dos sentidos, evidenciando uma organização relativa ao que afeta o indivíduo e ao que é por ele percebido” (pp36). Bicudo e Espósito (1997) referem que o passado, a memória, para Merleau Ponty é descrita como um horizonte, em lugar de uma coleção de qualidades ou impressões isoladas. A nossa experiência é o expoente máximo. Esta experiência é individual, todavia pode ser vivida através da intersubjetividade.

A memória, a aprendizagem e a experiência se baseiam no fato psicológico fundamental de que as experiências passadas não desaparecem de nossa mente e podem, portanto, ser utilizadas para novas organizações. Movimento e ação são necessários para este desenvolvimento.

Nossa auto-imagem, nossa vida, é em grande parte resultado dos padrões de comportamento e de movimento que desenvolvemos para nós mesmos e que praticamos regularmente. Izquierdo (1999) refere que guardamos na memória o que passou pela nossa emoção, e que essas emoções podem significar alegria ou sofrimento, mas, sem dúvida foram as mais marcantes e significativas de nossa vida.  A reminiscência de uma pessoa idosa não se constitui apenas em lembrança e o relato de acontecimentos históricos, mas, sim, a criação singular do indivíduo, representando uma síntese dinamicamente significativa de recordações que serve para conservar e ressignificar a sua identidade pessoal.

Eu não digo “Penso, logo sou”. Ao contrário, digo, ”Eu sou corporificado; portanto experiencio que sou “. É a experiência da corporificação que nos dá a experiência de estarmos vivos. Ela nos dá a percepção de um passado corporificado, de uma vida histórica, e nos dá o presente.  (Keleman,1999, p.26).

Citando Rosenfield em Invention of Memory, Levine refere que “nós não nos apoiamos em imagens fixas, mas em recriações – imaginações – pelas quais o passado é remodelado em formas apropriadas para o presente” (1999 p.180). Halbwachs (1990), por outro lado, faz uma notável distinção entre a memória histórica, de um lado, que supõe a reconstrução dos dados fornecidos pelo presente da vida social e projetado no passado reinventado; e a memória coletiva, de outro. Entre essas duas direções da consciência coletiva e individual desenvolvem-se as diversas formas de memória, cujas formas mudam conforme os objetivos que elas implicam.

Da memória depende o conhecimento, a personalidade, a história e o comportamento das pessoas. A mesma permite conservar a nossa identidade, o nosso ser, garante os nossos conhecimentos, aprendizagem e adaptação. Dá acesso à linguagem; oferece o fio condutor de nossos pensamentos, colocando em ordem nossa história pessoal e social.

A falta de memória pode ser provocada pelo excesso de informações, pela depressão, pela ansiedade, pelo estresse. Quando a pessoa não está presente ao seu momento existencial, ou vivencia crises de identidade, mudanças, conflitos, momentos de passagem, além de não ter concentração, com certeza, sua memorização também está comprometida (início de alfabetização, para algumas crianças, adolescência, menopausa, viuvez, aposentadoria, etc). Por outro lado, o eu se preserva à medida que se reconhece a si próprio. Deste modo, quando a memória se deteriora, também a unidade que sustenta a identidade é rompida. Goldfarb (1998) refere que a reminiscência contribui para se achar os elos entre o passado e o presente e para a formação, re - significação e manutenção da identidade.

Podemos lembrar aquele nome que estava na “ponta da língua” ou encontrar a solução de um problema em estudo, ou então mergulhar em um mundo de imagens, metáforas e símbolos que ordenados pela reminiscência e pela mágica das associações expressam muito do que somos, desejamos ou tememos em determinado momento que tem conexão com o presente, passado pessoal, familiar, coletivo e, até mesmo, a avaliação probabilística de comportamentos futuro.

O envelhecimento seja normal, seja patológico sempre se remete ao corpo.

A lembrança, na maior parte das vezes é resgatada por estímulos subjetivos, mas o elo que liga as sensações passadas ao presente, e que também é gerador de imagem é o próprio corpo, que filtra este passado e o situa em relação ao momento vivido. ( Brandão 1999, p.32).

As modificações do corpo ligadas à idade avançada pedem uma contínua reconstrução da imagem corporal, assim como de seu re-investimento afetivo, em termos de auto-estima.

A teoria sobre memória em que baseamos a pesquisa é de visão interdisciplinar. Consideramos autores como Halbwachs (1990) Thompson (1992), Bosi (1987) que acreditam que a memória individual se forma num processo cultural, social, mas que não se restringe à cultura externa. Para estes autores, a partir do trabalho empírico de história oral, o interessante é descobrir como a experiência pessoal e a interpretação cultural desta experiência se entrelaçam. As contribuições psicológicas para a construção de oficinas de memória utilizam como base estes conceitos de identidade e memória coletiva e os conceitos de identidade e memória individual da psicanálise e da fenomenologia. Acreditamos em condições de reconstrução e re-significação e que os símbolos e as estruturas comunicativas do grupo social são vivenciadas em lembranças de modo individual.

Com demasiada freqüência, são os mesmos (Dychtwald, 1984), que enrijecem nossas mentes, proibindo o fluxo do pensamento criativo, que enrijecem nossos corpos, negando-lhe prazeres e encorajam o coração, abortando nosso sentimento de amor. Quando nos damos conta de como fazemos isto conosco mesmos, podemos aprender a construir mudanças nesta existência que garantam uma vitalidade e consciência cada vez maior.

Os grupos de convivência entre pessoas maduras e idosas vêm se tornando um dos trabalhos psicossociais mais importantes nas diferentes instituições que se preocupam com o segmento da população que está envelhecendo. Seus objetivos, segundo Ferrigno (1998), visam minimizar os efeitos do isolamento social imposto pela sociedade urbano-industrial às pessoas que envelhecem e já não participam do processo produtivo. Recontar a sua história de vida pode ser uma tentativa do idoso de engajar-se em uma interação significativa e registrar sua identidade, partindo do tempo mais marcante e provocando uma avaliação objetiva de suas capacidades atuais. Este trabalho foi realizado por Wagner (1985) e por Cabral (2002) em suas dissertações de mestrado. Concordando com Lopes (2000) acreditamos que entender a velhice apenas como fenômeno biológico, significa reduzir a questão, priorizando a condição biológica como formadora do comportamento e da saúde, não levando em conta aspectos psicológicos, sociais e culturais envolvidos na relação saúde-doença.

Autores como Lesser et al. (1995) relatam as vantagens de modelos de grupo de reminiscência em relação a modelos de terapia de grupo. As pessoas em grupos com esse modelo mostram -se mais participativas, com menos apatia. Os silêncios tornam-se mais raros; há uma maior participação em relação aos assuntos trazidos pelos outros; aumento de iniciativa; maior comunicação entre os membros do grupo.

Mobilizados em conhecer um pouco melhor, em termos teóricos e com método de pesquisa, o que constitui nossa prática clínica e didática, propomos estudar um grupo de pessoas de mais de 65 anos com queixas de memória, sem perdas de memória de curto prazo e um grupo de pessoas com suspeitas diagnósticas de distúrbios de memória por processo de demência. A perda de memória de curto prazo é uma das observações que o geriatra utiliza como sintoma junto a outras observações em seu diagnóstico de demência.

Na realidade é justamente este fato que procuramos investigar em um trabalho grupal, seguindo o projeto de oficina de memória proposta por Brandão (1999), tendo como referencial a fenomenologia. O mesmo possibilitaria o conhecimento das pessoas estudadas por meio de reminiscências e intersubjetividades?  Como é o relato dos dois grupos?  Como se posicionam em relação à memória?  Qual a diferença entre os grupos?  Em que histórias de vida? Teriam a possibilidade de reminiscência, de re - significação de lembranças? Cuidariam melhor de suas prescrições médicas, nutricionais com aumento de consciência individual e de participação grupal?

Este estudo tem como objetivo mais amplo, dentro de uma leitura fenomenológica, propiciar uma reflexão sobre as possibilidades de se relacionar com o mundo do idoso, focalizando tanto suas angustias, sentimentos de perdas e ansiedades, como, principalmente, suas possibilidades criativas e as experiências que traz da consciência de sua história pessoal. Neste sentido, atividades que enfocam sua memória/ história, podem se constituir em objeto intermediário no sentido de re-significação da vida e re-aquisição do prazer de viver, isto é mais uma possibilidade em se lidar com perdas e sentimentos depressivos.

Sujeitos e procedimentos

A) Sujeitos

Trabalhamos em oficina de memória um grupo com 10 participantes, com idade entre 67 e 86 anos, pacientes do ambulatório de Geriatria do HSPE. Todos passavam periodicamente em consulta: No Serviço de Geriatria do hospital do Servidor Público Estadual, alem do atendimento ambulatorial de geriatria existe um ambulatório voltado ao estudo de pessoas com perdas cognitivas, que procura tratar e orientar os pacientes de modo criterioso, com acompanhamento, estudo familiar, exames laboratoriais, avaliações por instrumentos, como o Mini-Mental e exames tomográficos cerebrais, dentre outros instrumentos.

a) Três foram encaminhados com avaliação médica de perda de memória de curto prazo e com suspeita diagnóstica de início de processo de demência.  Procuramos caracterizá-los pelos dados de prontuário:

1-  I., 86 anos, sexo feminino, viúva, escolaridade primária, prendas domesticas, com os seguintes problemas físicos de saúde: catarata e osteoporose. Em consulta em 01/06/2000 a filha informa que está iniciando quadro de esquecimento. Informa apatia e inapetência com perda de peso. A paciente mantém a própria higiene e participa de afazeres domésticos

(arruma a mesa, quarto, roupas). Sua memória antiga está conservada.

2-  O., 84 anos, sexo masculino, escolaridade primária, casado, funcionário público aposentado, com os seguintes problemas físicos de saúde: perda O E. com uso de aparelho desde 1998; apresenta quadro de angina, arritmia cardíaca e hipertensão arterial; foi operado de aneurisma abdominal em 1998. Há três meses esquece nomes de objetos. Viveu um episódio de confusão no Banco: foi retirar dinheiro e não o trouxe para casa. Nega ter se perdido na rua ou pegar o ônibus errado. É independente em atividades da vida diária e cuidado próprio.  Participa de grupos sociais com a esposa. Vem trazido pela esposa. Desde 1998 é ela que o traz para cuidar de sua saúde. No momento em consultas está sem sintomas e com quadro de saúde equilibrado. É calmo, sem depressão. Alimenta-se bem.

3-  P. 69 anos, sexo masculino, casado, escolaridade: segundo grau, aposentado, com os seguintes problemas de saúde: está se recuperando de derrame que sofreu há 4 anos, enfarto e  parada cardíaca há um ano. Depressão após acidente de automóvel. Está meio esquecido embora seu quadro de saúde esteja equilibrado no momento atual.

 

b) Sete foram encaminhados sem queixas de memória de curto prazo, sem suspeitas de processo de demência, interessados em participar de oficina de memória com condições, vontade  e aceitação quanto a participação de oficina de memória:

1-  N. 67 anos, sexo feminino, escolaridade: segundo grau, casada, funcionária pública aposentada, com os seguintes problemas de saúde: dislipidemia, catarata, diabetes mellitus, hipertensão arterial, sem suspeitas de perdas de memória, mas com auto-avaliação de perdas. Traz o marido, P, para o grupo de memória porque ele só vem se for acompanhado. Avalia o marido como com problemas de demência após os problemas circulatórios que apresentou.

2-  MC 70 anos, sexo feminino, casada, escolaridade secundária com formação técnica de auxiliar de enfermagem, funcionária da saúde aposentada, trabalhando em período noturno em enfermagem de pacientes dependentes. Apresenta os seguintes problemas de saúde: problemas ortopédicos (osteopenia e hérnia de disco), gastrite, hipertensão arterial. Na geriatria faz consultas de rotina, para manter a saúde. Participa de teatro, estuda música. Tem muito medo de perder a memória e traz o marido, A, também à oficina porque ele está apático e desinteressado de tudo desde que se aposentou.

3-  D. 72 anos, sexo feminino, casada, escolaridade primária, prendas domésticas. Procurou a Geriatria para cuidar da saúde. Está assintomática, segundo anotações do prontuário (janeiro de 2002), resultados de exames e pressão arterial normais. Inicio de osteoporose e varizes. Inscreveu-se na oficina de memória com o marido que foi encaminhado para ele frequentar e porque avalia ter esquecimentos. Expressa “meu psíquico não quer lembrar”. Coordena grupos de 3ª idade há 20 anos e frequenta o SESC do Carmo. Canta em 3 corais. É soprano lírico. Frequenta bailes todas as segundas feiras e desfiles de moda, sempre trazendo junto o marido, O, com quem está casada há 53 anos.

4- M. 70 anos, sexo feminino, viúva, escolaridade: primário, costureira aposentada, com os seguintes problemas de saúde; hipertensão arterial, dislipidemia, glaucoma, hipotiroidismo subclínico. Queixa variações de humor e insônia. Sente que sua memória não está mais como antes, principalmente quando não dorme.

5- E. 70 anos, sexo feminino, viúva, escolaridade: curso normal – professora primária aposentada, sem problemas de saúde no momento, tendo apresentado hipertensão arterial, gastrite e hérnia de hiato. Procura a oficina porque sente sua memória prejudicada. Está com o marido enfermo em casa, reabilitando-se de dois AVC  (derrames cerebrais), andando com andador e muito dependente dela. Diz que procurou o grupo para ter um espaço para cuidar de si mesma, de sua memória.

6- A. 78 anos, sexo masculino, casado, escolaridade: primário incompleto (analfabeto) pedreiro aposentado, com os seguintes problemas de saúde: hipertensão arterial e dislipidemia. Foi tabagista. Atualmente sem sintomas.

7- I.S., 76 anos, sexo feminino, viúva, escolaridade: primária; prendas domésticas, com os seguintes problemas de saúde: insuficiência coronariana crônica, hipertensão arterial, dislipidemia, gastrite, hérnia de hiato, osteoporose. Após enfarto há um ano e meio, I.S.passou a cuidar de si própria e procurar qualidade de vida sendo atendida no Serviço de Geriatria. Para cuidar da memória inscreveu-se na oficina.

Incluímos três casais no grupo, por haver demandas individuais e não ter a oficina intenções de psicoterapia.  Desta forma, os três maridos que vieram trazidos pelas esposas puderam freqüentar a oficina, o que talvez, sem elas, não aconteceria, até pelo fato de se mostrarem muito dependentes. Este fato também se constituiu em dado sobre a demanda familiar em relação ao atendimento gerontológico.

Nos dois grupos não foram incluídas pessoas com quadros de depressão maior e com episódios psicóticos.

B) Procedimento

Uma oficina de memória com agendamento de 10 encontros, com proposta inclusiva, que permite o mesmo tratamento e mais possibilidades de trocas interpessoais a indivíduos com e sem perdas, foi planejada.

a) Entrevista para contato e contrato e termo de compromisso, cuidando dos aspectos éticos de pesquisa em saúde.

b) Avaliação de memória

Avaliação antes e depois da oficina pelos seguintes instrumentos: b1. subteste do Wechsler de Memória repetir dígitos. b2. Mini-Mental, teste utilizado em Psicogeriatria como um dos parâmetros para pesquisa de processos demenciais. Neste último procuramos observar como as pessoas se orientam no tempo, no espaço, como memorizam palavras de modo imediato, como lembram instruções verbais e, sobretudo, como se sentem frente ao processo de avaliação e ao que é perguntado.

C) Oficina de memória

A Oficina de Memória que realizamos, é um modelo interdisciplinar de trabalho que aprendemos em curso ministrado por Vera Brandão e realizado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas do Envelhecimento – NEPE – do Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia da PUCSP.  A oficina de memória propicia condições para que as pessoas se lembrem, em participação grupal compartilhada e pela troca intersubjetiva, de passagens significativas de sua vida, a partir de relatos pessoais, fotos, temas, vivências, trechos de crônicas/ musicas/ poesias que suscitam reminiscência e a possibilidade de reflexões e trocas interpessoais.

Focalizamos, a partir do conhecimento do grupo, a questão memória e identidade, sob a óptica do referencial fenomenológico. Assim procuramos trabalhar a partir do re-lembrar sensações corpóreas, tais como, cor, cheiro, sabor, sons, que permitiam lembranças e a consideração/ reconstrução, dentro do possível, do momento presente; com a re-vivência do tempo e a re-construção do tempo presente (por meio de música, fotos artigos de jornais objetos que as pessoas guardam por gerações) em vivências e discussões compartilhadas pelo grupo. Pensamos em avaliação dos movimentos de consciência expressos em lembranças, estudados através da análise dos seus discursos transcritos, e de comportamentos grupais (referentes à participação, quebra ou não de isolamento, etc) dos idosos a serem atendidos.

Nossa preocupação foi permanecer no pensar fenomenológico, todavia atentos à necessidade de conduzirmos nossa investigação com critérios de rigor. Procuramos, sobretudo, trabalhar com os dados de modo científico, cuidando para que o nosso trabalho não se resumisse em relato do trabalho de campo, da experiência clínica que, sem dúvida, nos envolveu ao lidarmos com pessoas. Os dados observados nas oficinas foram trabalhados qualitativamente através de unidades de significados, categorias abertas, apreendidas da análise do discurso e do comportamento em grupo dos componentes dos dois grupos.

Os encontros realizaram se semanalmente, com duração de duas horas, e neles eram realizadas vivências e atividades com o intuito de possibilitar consciência corporal, reminiscências e trocas entre os participantes. Estes foram avaliados por testes de memória, no início e no término das Oficinas de Memória.

Conclusões

Os dados obtidos permitiram observar que houve um grande interesse do grupo como um todo e, por esse motivo, incluímos mais duas oficinas, a pedido do grupo. Não houve diferença significativa entre os dois grupos, e foi constatada, a importância da dinâmica vivida pelos idosos no grupo e transferida às pessoas mais próximas, familiares, pelos seus relatos. O grupo abriu-se em trocas que ultrapassaram os limites dos encontros no ambulatório.

As pessoas trocaram experiências e possibilidades. Começaram a ir a desfiles de modas da terceira idade para verem uma das participantes “amiga” movimentar o seu corpo com elegância no desfile; foram ao cinema, a peças teatrais e shows gratuitos, descobrindo um mundo de possibilidades abertas, não limitadas por questões econômicas. Um dos maridos, que se mostrava dependente da esposa compareceu em uma sessão em que esta não pode vir. Resgatou suas lembranças nordestinas de identidade por meio da imagem de um mandacaru, em uma das vivências, árvore com a qual se identifica. Foi muito aceito pelo grupo que introduziu, cantou e dançou a música do Luis Gonzaga: “Mandacaru, quando....” Este senhor com suspeitas de  início de demência, matriculou-se em um curso de alfabetização na igreja próxima de sua residência.

Na busca da reconstrução e re-significação dos momentos vividos, a partir do referencial fenomenológico, pôde-se refletir sobre a memória como um todo, constituída e referente a cada modo próprio de ser no mundo e acerca da demência como uma paralisação existencial do ser em vida.

Referências

BICUDO, M.A. Viggiani e Espósito, V.H. Cunha (1997). Joel Martins...um seminário avançado em fenomenologia . São Paulo: EDUC.

BICUDO, M.A. Viggiani (2000). Fenomenologia: confrontos e avanços. São Paulo: Cortez.
BOSI, E. (1987) Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos. São Paulo: EDUSP.

BRANDÃO,V.M.ªT. (1999) Memória, Cultura, Projeto de Vida. Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais, PUCSP.

CABRAL, Patrícia K.G de Ferreira (2002) Idosos reconstruindo-se com suas histórias. Dissertação de Mestrado em Gerontologia, PUCSP.     

DYCHTWALD, K. (1984) Corpomente, São Paulo: Summus Ed.

FERRIGNO (1998) Grupos de reflexão sobre o envelhecimento: uma proposta de reconstrução da autonomia de homens e mulheres na terceira idade”.  São Paulo: Gerontologia: SBGGG, 6 91:27-33.

GOLDFARB, D (1998). Corpo, Tempo e Envelhecimento. São Paulo: Casa do Psicólogo.

HALBWACHS, M (1990). A Memória Coletiva. São Paulo: Ed.Vértice.

IZQUERDO, I. (1999) “O apaixonante estudo da memória”. Revista do Incor. São Paulo, Incor (Instituto do Coração do HCFMUSP) maio: pp.8-16.

KELEMAN, S. (1999) Mito e Corpo. São Paulo: Summus Ed.

LESSER et al (1995) “Terapia de Grupo de Reminiscência com internados geriátricos psicóticos” – Tradução em apostila – Biblioteca do Instituto Sedes Sapientiae.

LEVINE,P (1999). O despertar do tigre. São Paulo: Summus Ed.

LOPES, G.da Costa, R.(2000). Saúde na Velhice. São Paulo: EDUC.FAPESP.

THOMPSON, Paul (1992) A voz do passado: história oral. São Paulo: Paz e Terra.

WAGNER, E.C.A M (1985). Avaliação dos movimentos de consciência de idosos através de seus discursos relatados em forma literária. Dissertação de Mestrado em Psicologia Social. São Paulo: PUCSP.

*Regina Célia Gorodscy: professora associada doutora do Departamento de Psicodinâmica da Faculdade de Psicologia da PUCSP; disciplinas: Núcleo Corpo em Psicologia; programa 3:Corpo em Diferentes fases da Vida; Eletiva de Pesquisa: Pesquisa sobre Corporalidade; Professora de Seminários II; Psicóloga da Clínica  Escola Ana Maria Poppovic: Serviço de Atendimento à Comunidade PUCSP e Serviço interdisciplinar de Orientação de Pais. E-mail: regina_gorodscy@yahoo.com.br

Ex-Alunos: Daniele C. Zago e Pedro M. Gava – alunos de iniciação científica com bolsa CEPE/PUCSP para desenvolvimento do projeto: Memória, Corpo e Envelhecimento - projeto do professor orientador desenvolvido no Curso sobre Memória Autobiográfica, organizado por Vera T. Brandão -2000- 2002


[1] Pesquisa de Iniciação científica desenvolvida pela orientadora Profª. Drª. Regina Célia Gorodscy e pelos alunos de iniciação Científica Daniele C. Zago e Pedro M. Gava.


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Atualizado em 23/05/2012 02:53:11