RESUMO: Este artigo, baseado na obra Quase memória, de Carlos Heitor Cony, procura ressaltar o papel fundamental das sensações na apreensão da realidade e sua prevalência nas buscas da memória. Procuramos articular essa questão com outra, a nosso ver, importante quando tratamos de relatos reais ou ficcionais - a construção dos personagens e a subjetividade inerente a esse tema e sua repercussão sobre a pesquisa.
Palavras-chave: memória; sensações; realidade; subjetividade.
ABSTRACT: This article is based on the book “Quase memória” by Carlos Heitor Cony and tries to point out the fundamental role senses play when we try to capture the reality, as well as their significance to recall memories. We relate this issue with another one we consider important when dealing with reports of real or fictional facts - biulding up characters, the inherent subjectivity and its repercussion on the research.
Key-words: memories, senses, reality, subjectivity.
Novembro de 1995. Rio de Janeiro. O cronista e escritor recebe um embrulho. Um envelope. Para o jornalista Carlos Heitor Cony. Em mão. Sem remetente.
Ele reconhece a letra e o modo do embrulho. Seu pai era o remetente. Seu pai... morto aos 91 anos em janeiro de 1985... Dez anos...
Além do modo, da letra, o cheiro:
(...) pois o envelope tinha um cheiro - era o cheiro dele, de fumo e água de alfazema que gostava de usar... Recente, feito e amarrado há pouco, tudo no envelope o revelava: ele, o pai inteiro, com suas manias e cheiros. (1996, p. 11)
Este é o início de um quase-romance, no qual, nas palavras do autor, “personagens reais e irreais se misturam”, em que Cony, “quase” autobiografado, fala-nos de sua vida entrelaçada com a de seu pai, e nos leva por caminhos de quase-realidade, quase-sonho, numa reflexão sobre memória - realidade e ficção. De início, a letra desperta no autor as primeiras lembranças de sua estada no seminário, parte tão importante em sua vida.
(...) se tudo era ele no papel, no barbante e no nó, havia a letra. Fosse eu cego, mergulhado na treva mais profunda da carne, bastaria passar a mão sobre ela para saber que a letra era dele. A mesma letra que vinha nos envelopes quando ele me escrevia para a fazenda do seminário (...) (Idem, p. 12)
Na seqüência desta recordação reaparece, como também em outras passagens ao longo da obra, misturada com ternura, a saudade e até uma certa admiração, um travo de amargura
(...) a rigor, nem precisaria abrir o embrulho para saber quem o enviava. Era ele. Ele mais uma vez e sempre, querendo ser útil e necessário, querendo agradar, mas conseguindo apenas embaralhar meu caminho - e digo “embaralhar meu caminho” para ser isento comigo e delicado à sua memória. ( p.11)
Essa seqüência nos reporta às reflexões de Bergson (1990), quando diz que o passado se conserva independente no espírito e seu modo de existir é inconsciente. [2] Toda a lembrança vive em estado latente e potencial , podendo ser chamada pelo presente a qualquer momento e, este chamado pode vir em forma de uma imagem fugidia, uma música, um sabor, um odor...
Aproximamo-nos de Marcel Proust e da descrição da sensação trazida pela memória involuntária, que surge ao mergulhar a madeleine no chá e saboreá-lo - “invadiu-me um prazer delicioso, sem noção de sua causa” (1992). Essa sensação, fugaz, leva-o de volta ao passado ou, melhor, presentifica-o e, a partir desse instante ele tentará, laboriosamente, reconstruí-lo por meio dos sete volumes que constituem sua obra Em Busca do Tempo Perdido.
É diferente, mas não menos intensa a reação de Cony ao reconhecer, no pacote, seu pai: “sentia um calor estranho, a cabeça latejando, sentia até mesmo um início de suor na testa” (p. 11).
Como Proust chamado pelo sabor, Cony é imediatamente subjugado pelo odor “o cheiro” e vai, através dele, mergulhar lentamente no mar, ora revolto ora tranqüilo, das recordações e que, como no movimento das marés, no fluxo e refluxo das águas, ora aproxima, ora afasta aquilo que no mar do passado havia sido lançado.
Durante a leitura desse quase-romance, entre tantas “pistas” lançadas pelo autor, para o deslindar dessa quase-memória, sobressaiu o aspecto da memória chamada pelo odor. O odor é imaterial. Não se registra como a escuta. Não nos chama, pelo olhar, como uma foto. Não se materializa numa música. É apenas uma lembrança, muito leve e tênue e que só existe, podemos assim pensar, na imaginação. É também, como a maior parte das lembranças trazidas pelos sentidos, pessoal e intransferível. O cheiro que sentimos é nosso, vem filtrado pelas nossas narinas e pela nossa imaginação, é subjetivo... nada tem a ver com a realidade. No entanto, ele é tão forte, como o sabor, para despertar o passado...
E sobre este ponto, voltamos a Proust que diz:
(...) mas quando mais nada subsiste de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas, - sozinhos, mais frágeis, porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, - o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação. (1992, p. 47)
Retomando as lembranças de Cony, no trecho que se segue, surge novamente um cheiro, o de brilhantina, tornando presente os preparativos de sua ida para o seminário, onde permanecerá por 8 anos
(...) um cheiro vivo, mas distante da brilhantina que ele usava, um potezinho pequeno e redondo com bonito rótulo dourado... e ao sentir agora, tantos anos depois, esse cheiro de brilhantina, percebo que me incomodava aqui dentro outra lembrança também antiga e que tinha tudo a ver com ele (...) ( p. 17)
Esta lembrança traz outra, mais profunda e amarga:
(...) mas houve um problema - e como quase todos os problemas da minha vida - por culpa dele. Nem sequer me avisou que havia colocado, no pequeno baú... (com o enxoval do seminário) ... um pote de brilhantina igual a que (ele) usava (...) o pote de brilhantina causou escândalo (...) era um emblema de luxúria, quase um pecado (...) padre Cipriano que me apontou à execração pública - Esse aí trouxe brilhantina (...) ( p. 20)
O trecho acima mostra claramente como a lembrança é chamada, filtrada pelas sensações subjetivas, no caso o cheiro. As sensações são geradoras de imagens, do passado para o presente, e é o próprio corpo, que filtrando esse passado, situa-o em relação ao momento atual vivido. E Bergson diz, a esse respeito (...) é do presente que parte o apelo ao qual a lembrança responde, e é dos elementos sensório-motores da ação presente que a lembrança retira o calor que lhe confere a vida. (1990, p. 125)
Esses flashes do passado trazem, além da figura do pai, suas “técnicas”, manias e truques, uma nesga da sociedade da época. Resgate do Rio de Janeiro, capital do Brasil, na década de 30 a 40, da boemia, da vida tranqüila, das casas com quintais, mas também da Revolução de 30, da ditadura de Vargas, da clandestinidade do pai e suas tentativas, sempre malsucedidas, de arranjar outro trabalho, que não o de jornalista “fazia parte de seus truques interiores partir de uma realidade estéril para um sonho grandioso”. Lembrança marcante também do grupo que trabalhava na sala de imprensa da Prefeitura junto com o pai:
(...) essa gente toda reunida, tinha um cheiro específico, um cheiro que os acompanhava onde quer que se reunissem (...) o cheiro dos rapazes da sala era impossível de ser confundido com qualquer outro cheiro (...) De repente, todos estes fantasmas, todos estes mortos pareciam estar ali, não na sala de Imprensa da Prefeitura, mas em minha sala, olhando o embrulho, apreciando a última do pai, que todos esperavam não ser a última de verdade, pois as histórias em que ele se metia nunca tinham fim, ligavam-se umas às outras, entravam uma dentro da outra, como aquelas bonecas que fabricavam na Rússia. (p. 89)
A imagem das bonecas russas que se encaixam umas nas outras pode servir de metáfora para o aparecimento das lembranças encadeadas umas nas outras. No caso das bonecas, elas são semelhantes, no caso das lembranças, não. Partindo de um sentido como o odor, no caso de Cony, surgem as imagens do passado, não numa seqüência lógica ou cronológica.
Estas aparecem desordenadamente e ora se fala da infância e na seqüência da juventude, ora se fala do presente. O tempo passado se presentifica no momento, o espaço reaparece com detalhes - mas é uma sensação fugidia... O que fica realmente presente é a emoção, não a mesma que foi vivida, mas outra, reconstruída, filtrada pelo presente, mas nem por isso menos intensa, dolorosa às vezes... É o presente que chama o passado - foi um pacote real, recebido com data e hora -, neste instante ele se vivifica - daí a sensação de prazer ou dor, o suor, a cabeça latejando...
André Maurois, em seu livro Em busca de Marcel Proust (1995), esclarece-nos também sobre esse tema:
Dissemos que o tempo é reencontrado por Proust (ou pelo narrador) em raros momentos de iluminação, nos quais a presença simultânea de uma sensação e de uma lembrança reaproxima instantes muito afastados, dando-nos o sentimento de nossa unidade e de nossa duração. Mas tais momentos, além de raros, são fortuitos. (p. 158)
Então, como trazer o passado para o presente? Maurois prossegue: “Proust pensa que este milagre é possível porque o próprio presente está todo repleto de passado”. E aqui o autor vai citar o próprio Proust:
(...) uma imagem oferecida pela vida em realidade nos traz nesse momento sensações múltiplas e diferentes (...) o gosto de café com leite matinal traz-nos essa vaga esperança de um bom tempo, que tantas vezes outrora, enquanto bebíamos na xícara de porcelana branca, cremosa e plissada que parecia leite endurecido, punha-se a sorrir na clara incerteza da primeira hora do dia. (p. 158)
E nos diz Maurois: “uma hora não é apenas uma hora; é um vaso cheio de perfumes, de sons, de projetos e de climas”. E traz as palavras do próprio Proust:
(...) o que chamamos de realidade é uma certa relação entre estas sensações e essas lembranças que nos cercam simultaneamente (...) como na vida, quando, comparando uma qualidade comum a duas sensações ele (o autor) extrai a essência delas ao reunir uma e outra, para subtraí-las as contingências do tempo, numa metáfora, e encadeá-las pelo elo indescritível de uma aliança de palavras. (p. 158)
Nesse longo trecho de citações, vemos como as sensações nos trazem o passado e são inerentes a reconstrução de uma vida no tempo e espaço. Tentaremos aqui analisar melhor, do ponto de vista bergsoniano, o lugar das sensações na cadeia de reconstrução do passado através da memória. Ele diz:
(...) meu presente é aquilo que me interessa, o que vive para mim e, para dizer tudo, o que me impele a ação, enquanto meu passado é essencialmente impotente (...) meu presente portanto é sensação e movimento ao mesmo tempo; e, já que meu presente forma um todo indiviso, esse movimento deve estar ligado a essa sensação, deve prolongá-lo em ação. Donde concluo que meu presente consiste num sistema combinado de sensações e movimentos (...) do meu passado, apenas torna-se imagem e, portanto, sensação ao menos nascente, o que é capaz de colaborar com esta ação, de inserir-se nessa atitude (...) de tornar-se útil; mas tão logo se transforma em imagem, o passado deixa o estado de lembrança pura (...) (virtual no passado) ... e se confunde com um certa parte do meu presente (...) (1990, pp. 113-115)
O que prevalece nesta discussão é o problema da relação do espírito com o corpo, sendo a lembrança a intersecção entre ambos. A sensação que é filtrada pelo meu corpo leva à percepção e não há percepção que não seja lembrança... Na medida em que a sensação, filtrada pelo corpo, desperta a percepção, esta vai buscar na memória a resposta e identificado-a, torna-a presente.
Se o processo descrito foi desencadeado num escritor, temos então a matéria-prima de um romance, como é o caso da presente obra. Tornam-se as lembranças, palavras, signos de comunicação de transmissão e de preservação do passado. A sensação é, no caso analisado, o fator desencadeante de uma reflexão sobre o passado que se torna uma obra de ficção (ou quase).
Tempo/espaço na memória
Ampliando esta análise, gostaríamos de abordar os temas do tempo/espaço, que estão imbricados nas reflexões sobre memória. George Poulet, analisando a obra de Proust, afirma:
(...) graças a memória o tempo não está perdido, e se não está perdido, também o espaço não está. Ao lado do tempo reencontrado está o espaço encontrado, um espaço que se encontra e se desdobra em razão do momento desencadeado pela lembrança. (1992)
Observamos, então, que o tempo se presentifica e se dissipa ao sabor das recordações, mas ele se faz num universo, que tem um espaço específico. Assim, Cony, ao descrever as passagens de sua infância, nos traz os espaços vividos. Como já dissemos, além do espaço de um Rio de Janeiro idílico, ligado a um cheiro de manga, podemos “ver” esse pai, no cemitério do Caju, roubando mangas, “as melhores do mundo... manga de cemitério...”. Ou, pelo mesmo motivo, o vexame no cemitério de Santa Cruz, quando ao tentar pegar as mangas chama a atenção de todos os presentes de um enterro.
A sala da casa transformada em laboratório para fabricação de perfumes; o quintal onde tentava criar galinhas, depois peixes, onde construiu uma represa e tentou criar um jacaré... ou seria um lagarto? E no final da vida a casa de Correias - último refúgio onde espaço e tempo se unem. E diz Cony “pegava o caminho de terra que levava a seus novos domínios, começava a sentir o cheiro dele, de suas técnicas, de seus troféus, de seus truques” (p. 92).
No fluxo e refluxo das recordações somos projetados no tempo que é passado, no espaço que foi vivido, agora presentificados, e avançando e retrocedendo, a memória ilumina, como num teatro, ora uma cena, ora outra, colocando-nos face a face com o passado revisitado.
Para Halbwachs, o tempo é social, a memória está no grupo, e o trabalho de reconstrução do passado só pode ser realizado se nos apoiarmos “nas malhas da solidariedade múltipla dentro das quais estamos engajados”. Para Bergson, o tempo é individual e apóia-se na temporalidade dos corpos. O tempo verdadeiro é o tempo vivido e que nossa consciência faz durar e essa duração depende de cada um: ele está em nós, na nossa memória e não é homogêneo, nem dizível. O tempo social baliza nossa realidade: é o tempo irreversível, o tempo histórico. O tempo da memória é reversível, “viajamos” para o passado, voltamos para a infância, a juventude... de novo para o presente...
De repente, não senti cheiro algum. Nada fizera além de olhar o embrulho imóvel, no centro da minha mesa de trabalho, eu também imóvel, viajando sem pressa e sem itinerário por cheiros antigos, cheiros que sentira (ou julgara sentir), cheiros que pareciam vir do embrulho mas que, de repente, desconfiei que vinham de mim mesmo. (p. 32)
Num parágrafo temos, para concluir essa discussão, a fusão deste tempo social, irreversível, com o tempo da memória reversível, elástico, quase ... a-temporal...
Olhei para o relógio para conferir. Sim, seis horas, o tempo passara e eu não desgrudara o olhar e a memória daquele pacote... O que seria um amanhã agora? Tudo fora um amanhã e tudo já era ontem... ( p. 73)
Na leitura e elaboração desta reflexão, foi inevitável uma aproximação com algumas passagens da obra proustiana. Não falamos da estrutura da obra, mas dos mecanismos (sensações) que remetem esses autores ao passado. O sabor da obra de Proust e o odor “o cheiro” na obra de Cony são os fatores que as aproximam e que colocam a discussão das noções de tempo e espaço.
No entanto, Cony nos alerta a respeito desta comparação:
(...) nada mais diferente... entre o biscoito de Proust e o embrulho do pai. A madeleine trouxe o gosto que leva ao passado (...) o biscoito abriu as portas do tempo - do tempo perdido (...) o “meu” embrulho não me abre nada, muito menos o tempo. Se abria alguma coisa era o espaço - até então, nunca pensara organizadamente na única pessoa, no único personagem, no único tempo de um homem que, não sendo eu, era o tempo do qual eu mais participara. E o meu não era tempo perdido mas tempo desperdiçado. (p. 94)
As aproximações que acreditamos possíveis dizem respeito ao despertar das lembranças, através de sensações - odor, sabor - e de como ambas trazem o tempo passado, desordenadamente, mas repleto de emoção. A obra de Proust nos parece mais “construída” e isto nos é ensinado pelos seus estudiosos; a obra de Cony parece mais espontânea, apesar de, como Proust, ele colocar a obra como semi-confessional.
Cony nos diz também que o tempo não fora perdido, mas sim desperdiçado. O tempo perdido da infância e juventude são, na idade madura, vistos, apesar da clareza do sofrimento e angústias de muitos momentos, como uma espécie de “idade do ouro”, daí a nostalgia e a idéia de tempo perdido ou desperdiçado, como prefere Cony.
Preferimos ver esse passado como um tempo vivido, possível a cada um, que pode (e deve) ser reconstruído a partir dessas lembranças trazidas ao presente pelas sensações. Poderíamos pensar que trazemos à tona sensações adormecidas, ou “esquecidas” no inconsciente, mas já vividas - seria então reviver, reconstruir o passado, mas filtrado pelo indivíduo que nos tornamos -, resultado de todas as alegrias e decepções, erros e acertos, lutas e vitórias.
Nada foi perdido, tudo foi vivido e sentido e pode ser reaproveitado num minucioso e delicado trabalho de bricolage - reconstruir a partir dos restos, do que sobrou consciente ou inconscientemente na nossa memória. Esse trabalho tem uma luz própria que vem iluminar nosso passado e nosso futuro, é a luz que vem da consciência que temos da nossa trajetória. Essa consciência que, como diz Bérgson:
(...) tem sobretudo o papel de presidir a ação e iluminar uma escolha - ela projeta assim sua luz sobre os antecedentes imediatos da decisão e sobre todas aquelas lembranças capazes de se organizarem utilmente com elas. O resto permanece na sombra. (p. 116)
A luz que ilumina, metaforicamente, o trabalho de Cony vem de um balão que lança luzes às noites de sua infância. A memória dele e seu significado vêm também pelo cheiro do papel de seda, usado na construção dos balões junto ao pai.
(...) um cheiro civilizado de papel importado, o pai só usava papel sueco (...) as resmas caíam na mesa numa cascata de cor - o cheiro era tanto que me tonteava de prazer (... ) e impedia que eu dormisse de vez. (p. 95)
Essa lembrança, que acreditamos ser a mais densa e importante de toda a obra, mostra-nos o fundamento da relação pai-filho. A proximidade, a cumplicidade no sonho e no prazer: “se tínhamos que ser felizes, queríamos ser felizes já”. Esse pai extravagante, sonhador com suas técnicas, truques e manias, mas sempre presente, às vezes até de maneira incômoda. Esse pai, que é ao mesmo tempo o anti-herói e um gigante, e que aparece de forma sutil e metafórica na redação do menino que se preparava para o seminário:
(...) um gigante que morava longe, onde moram o vento e as coisas do mundo, que apesar de morar tão longe nunca deixava de chegar, em horas estranhas, mas sempre chegando, porque sabia que eu precisava dele... ( p. 110)
Por entre essas palavras repletas de um tão grande amor, surge a doce lembrança do pequeno balão que o pai fez, de surpresa, para enfeitar a sua cama:
(...) esse balão, que nunca soltei, ficou amarrado a minha infância, se um dia eu chegasse a rei ou bispo e tivesse direito a um escudo, nele mandaria gravar esse balão, logotipo do meu mundo, emblema de mim mesmo. ( p. 100)
Técnica narrativa
A leitura e as reflexões despertadas pela obra de Cony nos trazem outra questão interessante para o campo teórico de estudos e pesquisas sobre a memória. Quando trabalhamos em pesquisa, com a história oral, temos um relato direto de fatos vividos por um narrador que fala sabendo dos objetivos da pesquisa, com dois elementos externos (estranhos?) - o gravador e o próprio pesquisador. No relato de Cony, temos o livre manejar da lembrança e o relato elaborado, por um grande autor, das lembranças de seu pai.
Recordação do passado, resgate da figura do pai - figura forte/frágil, mas marcante na formação e determinação dos caminhos escolhidos pelo filho. Na lembrança do cronista, a técnica narrativa se espelha na estruturação da obra, mas vai além e aparece na construção do sonho, da fantasia, na construção do imaginário. Um pai de verdade ou um pai de sonho?
O autor classifica sua obra como quase-memória e aí entra a ficção. Esse pai existiu ou foi construído?
E nos relatos da história oral, quanto são verdadeiras as figuras que aparecem? Os cenários construídos, o papel desempenhado pelos vários “personagens” e o do próprio narrador, até que ponto podem ser considerados “reais e verdadeiros”?
O escritor pode inventar um personagem, uma história. O cientista (pesquisador) vai interpretar e procurar um sentido na narrativa (trazida na história oral), não só no que o narrador fez - e contou - mas o que não fez, mas pensou em fazer. O pesquisador tentará captar a memória do outro - ladrão de sonhos? - e daí entra a subjetividade e, decorrente dela, a questão ética na pesquisa.
No romance construído sobre a memória, o autor vai buscar dentro dele próprio a substância da obra. O pesquisador trabalha com a memória do outro; existe a subjetividade de quem conta e de quem ouve. Ao contar, o narrador reconstrói sua história e as figuras que dela fizeram parte - é o passado que volta reelaborado, filtrado pelo presente. Quanto de ficção nos relatos de história oral, quanto de verdade na ficção de Cony (e de outros memorialistas)?
Sabemos que Proust sempre negou qualquer traço autobiográfico na sua obra. No entanto, sabemos que todos os seus personagens foram construídos com base nas pessoas de suas relações. Sua descrição da sociedade francesa do final do século XIX tem uma marca - é o seu olhar, único, crítico e é através desse olhar que podemos “ver” esse grupo e o próprio autor que se esconde (?) atrás da figura do narrador. O trabalho fabuloso de reconstrução nos mostra um Proust minucioso, ao limite da exasperação, que indaga exaustivamente, por exemplo, às senhoras de seu relacionamento sobre o uso de chapéus e luvas para um determinado acontecimento. Que chega uma noite a acordar a filha de um casal de amigos para fazer perguntas que o ajudariam na construção de um personagem...
Quem é mais objetivo/subjetivo, o narrador eventual que narra ao pesquisador sua história ou o autor que assume uma pseudoficção? Esse tema de subjetividade na história de vida é recorrente e base para muitas críticas em relação ao uso dessa técnica. Halbwachs nos diz: “Para algumas lembranças reais junta-se, assim, uma massa compacta de lembranças fictícias”.
Na obra de Cony, uma outra questão se coloca: se, como diz Pollack (1989), a memória ajuda na reconstrução da identidade, (de) quem (se) refaz a identidade - o pai figura (re) construída ou o próprio filho que reconstrói sua vida através desse pai?
Cony assume a ficção misturada a essas memórias, mas a figura do pai que surge é tão presente, real, tão humanamente frágil e verdadeira... Muitas vezes, nos relatos orais, falta-nos essa “verdade”... Artes de um narrador hábil, escondido por trás de uma assumida quase-memória? Medo da exposição, medo das próprias lembranças no narrador comum?
Desse terreno de quase-memória, quase-ficção, quase-autobiografia, um trabalho mais profundo e extremamente interessante poderia ser escrito, enriquecendo com tantas questões, nem sequer aqui levantados, as reflexões sobre os relatos memorialistas em que aparece a memória e a reconstrução ficcional. Como diz Benjamin (1994), “escrevendo, descubro sempre um novo pedaço de infinito; o momento não conta”.
Chegamos aqui ao final desta incompleta reflexão. Gostaríamos de colocar um último ponto, que também poderia ser aprofundado. Halbwachs nos diz que a “memória não é sonho é trabalho”. Trabalho de reconstrução através da linguagem, elemento socializador dessa lembrança, e que assim podemos, presentificando-a, fazê-la participar do momento histórico e cultural. É ele também que afirma que a memória recompõe “magicamente” o passado.
A mágica traz a matéria do sonho, da fantasia, do devaneio, que ele nega, mas que Bergson, avançando nesse caminho, vai colocar o sonho como uma possibilidade de conhecimento, e que através dos símbolos por ele proposto possamos decifrar as marcas deixadas no inconsciente e que são parte da experiência vivida. No sonho não existe tempo e espaço, é uma contínua superposição de imagens sem a lógica da realidade sendo a subjetividade dominante. Se ao acordar conseguimos “capturar” esse sonho, dele lembrar e pensar no seu significado, ele passa a fazer parte da realidade, da nossa consciência. Um momento fugidio de contato com nosso mundo inconsciente. E Bergson diz:
Mas se nosso passado permanece quase que inteiramente oculto para nós porque é inibido pelas necessidades da ação presente, ele irá recuperar a força de transpor o limiar da consciência sempre que nos desinteressemos da ação eficaz para nos colocar-mos de algum modo na vida do sonho. (p. 127)
Para finalizar, entre tantas questões levantadas, ficamos com o aspecto, a nosso ver, mais marcante desse livro: a emoção. Cony, nesta belíssima e comovedora obra intitulada Quase memória, nos leva de volta ao passado. Com ele embarcamos numa viagem para fora de nossa realidade, há um tempo/espaço vivido, em que se amou, sofreu, conquistaram-se pequenas glórias, sofreram-se muitas decepções, mas, principalmente, forjou-se o caráter de um homem, o próprio autor, o filho do herói diário, quixotesco e por isso mesmo grande. Uma história, trazida pela memória, na qual vemos um pouco da muita fragilidade humana e da busca que é de todos nós... com nossos truques e manias...
Saber que o meu balão não existia doeu. E só não doeu mais porque esse balão freqüenta meus sonhos, freqüenta sobretudo - e até hoje - minhas insônias. É quando, de repente, iluminado e silencioso, ele se ergue, roxo e branco, e passa pela minha memória, lentamente, cobrando-me o legado que me deixou, um legado de tristeza, mansidão e fragilidade. (p. 101)
Referências bibliográficas
BENJAMIN, Walter (1994). “A Imagem de Proust”. In: Obras Escolhidas - Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo, Brasiliense.
BERGSON, Henri (1990). Matéria e Memória. São Paulo, Martins Fontes.
CONY, Carlos Heitor (1996). Quase Memória. São Paulo, Companhia das Letras.
HALBWACHS, Maurice (1990). A Memória Coletiva. São Paulo, Revista dos Tribunais, Edições Vértice.
___________ (1994). Les Cadres Sociaux de La Memoire. Paris, Albin Michel S.A.
MAUROIS, André (1995). Em Busca de Marcel Proust. São Paulo, Siciliano.
POLLACK, Michel (1989). Memória, Esquecimento e Silêncio. Estudos Históricos nº. 3. São Paulo, Revista dos Tribunais.
POULET, Georges (1992). O Espaço Proustiano. São Paulo, Imago.
PROUST, Marcel (1992). Em Busca do Tempo Perdido - No caminho de Swann (vol. 2). Porto Alegre, Globo.
[1]Artigo revisado (2007) para o Espaço Memória – Portal do Envelhecimento. Publicado originalmente na Revista Kairós – Gerontologia. Vol. 4, n.2. São Paulo, EDUC, 2001.
*Pedagoga, Doutora em Ciências Sociais - Antropologia pela PUC-SP e pesquisadora do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento – NEPE.
[2] Henri Bergson (1859-1941) e Maurice Halbwachs (1877-1945) são os teóricos clássicos para os estudos da memória nos quais nos baseamos para esta reflexão.