Descobri muitas benzedeiras, quando fui morar no sul de Minas Gerais e me encantei por essas sábias mulheres. Lá como qualquer outra cidade do interior de Minas, sem bons hospitais ou acesso fácil aos Centros de Saúde, as benzedeiras são as salvações dos doentes. Elas são tão poderosas que poucas pessoas se arriscam a ir ao médico antes de ouvi-las. Sua credibilidade está ligada a idade, quanto mais velha mais valorizada. Por isso a maioria das benzedeiras possui mais de 60 anos. Nesse pequeno artigo eu conto um pouco dessa minha experiência com uma dessas sábias mulheres. Infelizmente ela já faleceu, mas guardo comigo lembranças de suas palavras e orações que agora me ecoam aos ouvidos, mente e coração.
Foi uma moleza no corpo, que me levou a procurar Dona Alvina pela primeira vez em uma tarde comum e quente de janeiro. Ela tinha então 96 anos e respirava vida intensa. Dona de uma voz forte, um sorriso sincero, gostoso e muita energia, Dona Alvina da Costa, benzedeira e ex parteira, costumava me dizer que adorava sair para fazer compras no supermercado. E quando fazia isso gostava de colocar o belo vestido florido, lenço colorido na cabeça e o andar vagaroso. Era só ela apontar na esquina da praça que juntava gente em sua volta querendo lhe tirar fotografias. Mulher antiga e não acostumada a época da máquina fotográfica, estranhava, mas sempre deixava. Gostava de tirar fotografias. Me lembro de ter visto água em seus olhos no dia que lhe entreguei uma das fotos que fiz dela rezando. Dona Alvina nasceu nessas roças perdidas do interior das Minas Gerais perdeu as contas de quantos partos e benzimentos já fez na vida. A mente lúcida enganava sua idade e trás de volta todos os seus momentos de infância, uma mescla de felicidade e tristeza. Sentada ao sol como gostava de ficar nas tardes quentes, Dona Alvina revezava os seus dias entre a cama, a reza, o café, o cachimbo e o olhar no céu relembrando seu passado. E em voz alta gostava de me contar da época em que corria por essas roças sem fim nas terras de seu pai, um africano ´brabo`.
O pai bravo e a infância agitada
De seus dias de menina o que mais se lembrava era do pai Pedro José da Costa, um africano ´brabo`, sacudido “da África”, que casou duas vezes e teve 24 filhos. Ela costumava encostar na parede, mascar um pedaço de cigarro de palha e dizer:
- Ih já vi tanta coisa. Que as veze fico pensando no que era e o que sou.
Dona Alvina perdeu o pai com 90 anos. A mãe Francisca Maria de Jesus, uma índia dos cabelos negros e lisos era benzedeira, parteira e tinha o dom de prever o futuro, tanto que quando morreu não foi nenhuma surpresa, pois ela já sabia que morreria de pneumonia. Dona Alvina nasceu na roça da cidade e recebeu do pai o dom de falar enrolado. Uma herança de seu pai, que só sabia falar “africano”. Foi aprender o português brincando com o seu cavalo de estimação. Ela costumava brincar com ele o dia todo, e ele gostava tanto da menina que dava até o pé. Os amigos da rua costumavam rir do jeito de Dona Alvina falar. Mas ela nem ligava, seu gosto era correr pelos campos, aprontando e ver mulher dar a luz. Desde nova Alvina já tinha vontade de fazer partos. A magia e o poder de curar as pessoas e fazer pratos, ela recebeu da mãe, pois adorava observá-la nesses afazeres.
Partos e benzimentos
E não demorou muito para que começasse a fazer os partos. Ela não tinha mais de sete anos e já cortava o umbigo da criança, dava banhos e arrumava a roupa da mãe. Com 9 entrava no quarto das mulheres e da mãe grávida e ajudava as parteiras mais velhas no ofício. Um dia, uma mulher tava para dar a luz, mas o médico não havia chegado então a deixaram sozinha com a mulher. Quando o médico chegou ficou assustado e disse apontando para Dona Alvina:
- Não acredito que essa criança fez o parto! Vou levar ela comigo.
Conclusão a ex parteira o acompanhou até seus 10 anos, depois cansou e voltou para casa trabalhar na roça. Apesar de nunca ter tido vontade de se casar, acabou aceitando aos 33 anos. O marido de Dona Alvina era bravo, mas trabalhador, chegava a ir para as roças doente e foi exatamente isso que o matou. Conclusão morreu e foi enterrado na fazenda onde trabalhava sem a presença de qualquer parente.
Os piores partosMas também nunca se esqueceu do pior parto. Uma vez a criança morreu dentro da barriga da mãe. Cada dia saia um pedaço da criança.
-Tivemo que faze uma lavagem nela e foi aí que melhorou.
Porém esse não foi o único, o outro parto difícil foi de um casal de gêmeos, um deles nasceu completo. Ela morreu e a barriga começou a crescer. Precisou o médico dar uma calcada nela senão arrebentava. Dona Alvina também é conhecida na cidade pelas suas famosas benzeções, não tem cobreiro que resista às suas poderosas rezas. Nos últimos anos de vida menos disposta, ela diminuiu suas atividades de cura, mas continuou fazendo suas rezas diárias. Em uma das últimas vezes que a visitei, ela me pediu para entrar no seu quarto, estava deitada descansando. Contei a ela que sentia uma moleza estranha e por isso queria que ela rezasse para mim. Ela me olhou com atenção, pegou o terço, já rústido de tanto uso, e pediu que eu me sentasse a seu lado. Em silêncio começou a rezar baixinho e depois sentou-se na cama e me disse que agora estava tudo bem, o quebrante havia se desfeito. Por fim deitou o cachimbo na boca e soltou uma fumacinha. Olhou para mim e disse que posso partir pois tenho a sua proteção e de suas rezas. E assim acredito até hoje...
Uma história muito antiga
Os benzimentos são sem dúvida alguma uma das formas mais antigas de cura do mundo. Seus conhecimentos são originários dos curandeiros antigos nos primórdios da humanidade há pelo menos 30.000 anos. No Brasil, onde existem várias sociedades indígenas, a imagem do xamã equivale a do pajé e as benzedeiras são originárias dessa tradição secular passada de mãe para filha. Os benzimentos são praticados por várias culturas das formas mais diferentes possíveis. Na idade média, as mulheres já praticavam o benzimento até porque precisavam tratar suas doenças e de seus filhos. Mas isso criava problemas para a igreja por esse motivo, elas sofreram perseguição. As benzedeiras unem fundamentos do catolicismo com o das curandeiras e bruxas da antiguidade. Atualmente elas são mais encontradas nas zonas rurais e mesclam conhecimentos da medicina popular, religião e magia. Elas são geralmente, pessoas mais velhas, simples que carregam as crendices populares na mente e no coração. Mal compreendidas, essas mulheres foram perseguidas e queimadas. No entanto o seu legado se manteve e deixou a intuição e sabedoria feminina em amenizar os males da vida. Ou melhor, dar conta do que não conseguimos explicar.
A autora
Nasci no dia 27 de outubro de 1970 em São Paulo. Sou jornalista, escritora, pesquisadora, com formação em ciências sociais e enfoque em antropologia e escultora. Atualmente faço o latu sensu em Fundamentos de Arte e Cultura. Profissionalmente escrevo e atuo como repórter fotográfico para as revistas Planeta, National Geographic Brasil e Raízes. Meu foco jornalístico é a Cultura popular e as histórias das comunidades esquecidas do Brasil. Publiquei em 2007 o livro Abre as portas para os Santos Reis pela Fundação Pró-Memória e a partir dele passei a fazer parte da Associação Brasileira do Folclore. Agora estou escrevendo o livro Mulheres do Brasil, um livro reportagem onde conto um pouco da minha experiência junto de algumas comunidades brasileiras. Escrevi o livro Mãos Abençoadas onde reúno as mais de 20 benzedeiras que entrevistei, e ele está sendo analisado para publicação por uma editora.