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O Jogo dos Olhos


O título do livro autobiográfico escrito pelo búlgaro Elias Canetti, prêmio Nobel de Literatura (1981), me veio à memória, assim que vi as fotos da exposição Retrato Delas com Suas Fotos 01/11/2010 - por Vera Brandão na categoria 'Memórias'
O título do livro autobiográfico escrito pelo búlgaro Elias Canetti, prêmio Nobel de Literatura (1981), me veio à memória, assim que vi as fotos da exposição Retrato Delas com Suas Fotos .

Convidada pelo SESC Pompéia para um bate-papo com o tema A Arte de Lembrar, tive como companheiros a jornalista e doutora em psicologia Simonetta Persichetti e o cronista Ignácio de Loyola Brandão.

Este encontro, parte do lançamento da exposição, teve lugar em um espaço de debate permanente, oferecido à terceira idade, denominado Pensar Ver Ouvir. E, novamente, um jogo de palavras nos títulos dos outros 2 livros da trilogia autobiográfica de Canetti surgiam com instigantes pontos de reflexão.

O primeiro livro denomina-se A língua absolvida (1981) o segundo Uma luz nos meus ouvidos (1988), e o terceiro, que nomeia esta reflexão, O jogo dos olhos (1990).

Pensar Ver Ouvir, num jogo de imagens autobiográficas.

Pensar no trabalho realizado e no impacto que o Ver me causou e, no dia do encontro, Ouvir os outros convidados, as mulheres participantes do projeto e suas mentoras Tika e Mônica.

Exercício profundo, completo-complexo que gostaria de partilhar.

Cito as palavras de Abigail Vaz, do Núcleo Sócio-Educativo Geracional, no convite para o bate-papo, ao falar sobre o projeto:

“A exposição é o resultado do ensaio artístico realizado pelo Projeto Lambe-Lambe Contemporâneo, em parceria com o SESC Consolação, com 16 mulheres de 64 a 86 anos. Com a orientação da fotógrafa Tika Tiritilli e a atriz Mônica Sucupira, foram realizadas vivências teatrais com exercícios de contato, sensibilização e expressão; depoimentos sobre memória afetiva e a cidade de São Paulo, o registro fotográfico desses lugares lembrados; culminando, nas fotos que compõem a exposição, onde as fotos são projetadas no corpo desnudado dessas mulheres”.

Além destas palavras, tinha as de Ignácio de Loyola Brandão que, ao visitar a exposição em Bertioga (2008), escreveu a crônica Dezesseis Mulheres Nuas . Ele diz;

“As dezesseis mulheres nuas me fascinaram! Senti-me atraído por elas, pela sua coragem, determinação, arrojo, força. Imagino que para elas foi preciso romper uma enorme trava. Por enfrentarem algo novo que, tenho certeza, deve ter provocado um bocado de adrenalina. Algumas enfrentaram a câmera de frente, olhar aberto e havia (há) um ar de felicidade, orgulho, altivez”.

O projeto desenvolvido tinha como foco a memória e o corpo, mas depois de meses de trabalho Tika e Mónica perguntaram: - Que lembrança, ou que lugar, ou que fato elas levariam da cidade de São Paulo?

Com “uma idéia na cabeça e uma câmera nas mãos” saíram em busca de um marco referencial, e fotografaram “lugares de memória”.

Fotos reveladas e exibidas – passados presentes unidos nas imagens de portas, janelas, jardins...

“[...] Tika comunicou”:

- Estas fotos, agora, serão como tatuagens em seus corpos.

- Tatuagens?

- Sim, vou projetar as fotos em seus corpos e fotografá-las.

- Como em nosso corpo?

- Vou fotografá-las nuas!

[...]

- Nuas?

- Nuas!”

E agora, eu tinha estas mulheres, em belíssimas fotos, em meus olhos. Nuas!

Como Loyola pensei: - Que coragem! Que arrojo!

Tinha diante de mim mulheres tatuadas de lembranças únicas, marcadas nos tempos - cronos e kairós - do corpo de cada uma.

Pareciam me olhar com altivez, ou seria timidez revestida de orgulho?

O olhar...O jogo dos olhos.

Ana Paes fotografada por Tika Tiritilli

Tinha diante de meus olhos obras de arte, com suas cargas de emoções e latências – materiais, do artista-autor e seus modelos – que reverberavam e me capturavam, criando um canal de comunicação pelo Olhar. No silêncio do encontro um jogo de olhos.

E, a arte de fotografar a arte de lembrar, propiciava uma visão alargada do universo feminino, como possibilidade de superação. No espaço conquistado individualmente pudemos encontrar a beleza do “secreto doloroso”, não-dito e latente nas vidas cotidianas destas dezesseis mulheres.

A artista plástica Carmela Gross afirma a obra de arte ‘[...] como uma possibilidade de afetar o outro, sensivelmente [...], confirmado por mim naquele instante. Sentimento que permaneceu, nesse encontro de subjetividades que escapam às palavras, alimentando as possibilidades de entendimento do outro e seu modo peculiar de expressão - um diálogo entre observador e artistas-modelos, mediado pela obra fotográfica.

Em seu texto de apresentação, da primeira mostra desta exposição, Simoneta afirma que “[...] as fotografias podem contar histórias e criar em nosso imaginário uma idéia de cidade, de modernização, de fatos, mas, acima de tudo, criam em nós uma idéia de representação. Apesar da câmera fotográfica querer funcionar como testemunha ocular de um tempo, ela acaba funcionando muito mais como ficção, como criação daquilo que nós imaginamos e queremos que seja a representação do nosso lugar”.

Ao observar o conjunto de fotos pela primeira vez, ainda antes deste contato presencial, entre tantas reflexões trazidas, uma se impôs – a da perspectiva antropológica, o olhar interno trazido pelas fotógrafas desse “nosso lugar”.

Assim, pensei nesses encontros entre mulheres como uma preparação ritual.

Os encontros, os “mergulhos” na história de cada uma, mediados pelos corpos – o presente – do qual cada uma partiu ao passado, à busca - no espaço-tempo da cidade - de uma dupla identificação - faço parte dela / ela faz parte de mim, re-apropriando-se, metaforicamente, da “alma” do lugar, por meio das imagens. Parte de um ritual de (re) apropriação de si.

Entre muitas culturas tradicionais a fotografia é vista como um perigo – ela “roubaria a alma” do fotografado. Neste exercício foi um desafio e oportunidade, pois as mulheres se reapropriaram de imagens que já lhes pertenciam, como marcas de memória. Não roubaram. Tomaram para si o que já era seu.

Marcas tatuadas, impressas, projetadas - num ritual de passagem - em seus corpos nus.

Como, de forma ancestral, as tatuagens ficam como marcas, sinais, símbolos de pertencimento e identificação, o corpo presente foi suporte material destas imagens de um passado intensamente (re) vivido, é, agora, continente-conteúdo dessas memórias que, obras de arte, se lançam para o futuro.

Exposição – jogo de olhos.

Exposição também como celebração do final ritual que completaria o percurso na perspectiva antropológica. Mas, esta é uma exposição itinerante e, assim, aprofundamos um pouco mais esta busca de sentido, que apresenta e concretiza os tempos míticos, cíclicos, das culturas de celebração.

A cada nova exposição se refaz o ritual – preparação, inauguração, exposição, celebração - nos tempos, e se renovam os compromissos.

Ao visitar a exposição, vendo aqueles corpos nus, ousados, lembrei do que disse o curador Agnaldo Farias sobre o impacto que uma obra de arte pode causar no espectador.

Ele afirma que [...] a arte incomoda, agride, perturba, exige atenção, rompe com a anestesia”. Podemos pensar que ela nos causa estas sensações não só pelo que expressa, mas também como pelo que não apreendemos e fica pulsando em silêncio. (Brandão, 2004)

“A obra de arte tem sempre a condição de hipótese. Ela sempre coloca outras possibilidades, palpita de significados. Nasce de uma inquietação do artista que o leva a um desejo de expressão, que permanece na obra. Ela deve nos inquietar e nos levar à busca de um estreitamento com a vida”. (idem)

Por meio dessas obras de arte fotográficas temos a possibilidade do conhecimento multidimensional, tão necessária à compreensão das diferentes modos de longeviver, numa observação que deve considerar as partes expressas e as latentes, com uma atitude ativa do observador.

Articulam-se, então, duas complexidades: uma que considera as fotos, sua materialidade – desejos expressos nas / das “dezesseis mulheres nuas” – e das artistas, mentoras e executoras do projeto; outra que considera o indivíduo que a observa.

Neste momento percebo a possibilidade concreta de exercitar o que Gross denomina “leitura-circulação”, entre as potencialidades da obra de arte e os espectadores, que se comunicam em suas complexidades. Para que isto aconteça tenho que ser capturado pelo olhar – devo me de-parar, mas “[...] deparar-se é muito mais do que assistir [...] é quando o observador percebe que a obra existe como tal, e quando ele percebe que ele existe como tal, diferente da obra ainda que não saiba quem é ele e o que é ela”.(Teixeira Coelho, 2003)

Neste momento percebo que nada sei sobre estas “dezesseis mulheres nuas” e nada sei sobre mim. Mas sei que, além da admiração, elas me despertaram um sentimento de humildade !

Humildade e reverência, ante este dom absoluto de si ! Suas histórias, seus corpos !

Exposição – Celebração - Doação. Generosidade e Beleza como nos mais complexos sistemas ancestrais de celebração das alianças mantenedoras da vida!

Referências do Projeto
Criação, execução e documentação
fotográfica: Tika Tiritilli
Preparação, direção, depoimentos
: Mônica Sucupira
Captação em vídeo
: Mariana Sucupira / Tika Tiritilli
Edição de vídeo
: Mariana Sucupira / Mônica Sucupira

Participantes
Ana Paes, Cecília Rodrigues, Dina Otaviano, Diva Mendes, Júlia Baranowsky, Laurieta Galvina Gomes, Lucily Campos Trabanco, Mafalda Dato, Maria Aparecida Costa Manso, Maria do Carmo Ferreira, Maria Eliete Alencar, Maria Lemes Martins, Mayumi Oyamada, Railde Barbosa Lima, Vera Archanjo Oliva, Waldenice Nigro.

Produção e Execução: Cia Lambe-lambe de Teatros e Afins / Imagens Nômades.
Realização SESC São Paulo e Cia Lambe-lambe de Teatros e Afins

Parafraseando o livro autobiográfico homônimo de autoria de Elias Canetti (Companhia das Letras, 1990).

Exposição realizada no SESC Pompéia entre 30/07 a 30/08/2009.

Publicada no Caderno 2, do Jornal O Estado de São Paulo, em 07/11/2008, pág. D 14.

Depoimento registrado na tese de doutorado em Antropologia Construção do Saber. Desafios do Tempo. (Brandão, 2004)

“Entre a vida e a arte” (posfácio) in Balzac: A Obra prima ignorada. (2003:95)


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Atualizado em 23/05/2012 02:57:56