São Paulo, 20 de maio de 2006. Onze horas de uma manhã de outono, fria e ensolarada. Igreja de Santa Ana, na Zona Sul dessa grande cidade. Toda enfeitada e cheia de parentes e amigos que vieram participar da cerimônia de casamento.
Ela, jovem, linda, de mãos dadas com o pai, meu irmão, aparece na entrada.
Logo, seus olhos descobrem sua presença e ela balbucia:
- O vovô veio.
Lá está ele, no último banco. Foi até onde conseguiu chegar com suas pernas fracas, quase carregado pela neta, minha filha.
Não sabe exatamente o que está acontecendo. A doença, Alzheimer, já levou dele quase tudo da memória e da força física.
A noiva, surpresa, mais à frente vê que também a avó está presente, apoiada por outra neta, também minha filha. Até pouco tempo a forte avó, cuidadora, dinâmica, prática, hoje enfraquecida e semidependente de oxigênio.
A presença deles é simbólica. É sagrada.
Quando estudiosos falam da negligência ou receio da ciência e da gerontologia em associarem religião, espiritualidade e envelhecimento, relato a vivência com meus pais idosos e, agora, infelizmente doentes.
Presença simbólica e sagrada naquele espaço – a igreja, no encontro com os familiares, numa cerimônia de casamento.
Religião, Encontro, Espiritualidade, Família, Casamento - parâmetros que alicerçaram a existência desse casal. Ainda muito jovens, se casaram e sem estudos e teorias, firmes no amor, na fé e na certeza de que queriam construir uma família começaram a caminhada.
Tiveram, criaram, educaram viram casar e ter filhos seus três filhos. Viram crescer as sete netas e já têm dois bisnetos.
Alicerçados numa forte espiritualidade partilharam vitórias e derrotas, sucessos e fracassos. Partilharam orações, discussões, desavenças, dores, sofrimentos, aventuras, lágrimas e muita, muita risada. Lembro do meu pai bravo, minha mãe zangada, mas, o que é mais forte na minha memória são as brincadeiras, as risadas.
Olho para o altar, os jovens noivos, começando também seu caminho.
Encontro sagrado dos iniciantes com os velhos.
Optam, também, os jovens pela benção religiosa, espiritual, pela fé que receberam do berço e que valorizam ao lado de toda revolução cultural, social da qual fazem parte.
‘Caminho - como dos velhos - único, sem receita, inimitável, exclusivo, singular, próprio, com coragem e ousadia, com erros e acertos.
O ponto de partida semelhante, a trajetória exclusiva!
Os velhos não mais produtivos, não mais donos das situações. Alteram-se os papéis, funções e lugares na família. Para os desavisados esses fracos seres nada mais tem a ensinar. E os jovens sorriem e se emocionam com a presença. Qual o aprendizado? O que fica?
Fica a continuidade, a renovação, o equilíbrio das tradições significativas com o tempo apressado e muitas vezes volúvel da atualidade.
Cerimônia bonita! O padre fala do compromisso, do amor, do perdão, do diálogo e eu ali emocionada rememorando minha própria trajetória – que se coloca no tempo – entre o jovem casal e meus pais.
Quais papéis e posições já exerci nesse grupo? E hoje quem sou?
Mãe de adultas, cuidadora dos pais, esposa, aposentada, mulher madura que se vê diante de novos desafios, indagações e constante busca de significado.
Rememoro a infância, as brincadeiras com os irmãos, a escola primária, as festas em família, a grande família – meus avós, tios, primos - os aniversários, Natal, Páscoa, festas juninas.
Rememoro a mocidade. Os namoros, os bailinhos, as missas no largo de Moema, a universidade, vários amigos feitos nessa época e que se mantêm até hoje. O casamento dos irmãos. Meu casamento. O nascimento das filhas e sobrinhas. E, outra vez, vejo os jovenzinhos no altar. Vejo meus velhos pais. Meu pensamento brinca, parte do presente e voa para o passado e para as reflexões do agora.
“O poder da memória é o poder da própria vida, e a caverna da memória é a toca da alma e a morada do significado” diz Raul Marino Jr.
Muito, muito, estamos aprendendo com eles. São eles que, adoentados, nos falam e nos transmitem fé, esperança, força, aceitação e a cada dia pedem e agradecem a vida, sentem-se realizados, não se recriminam por aquilo que não alcançaram.
Em situações simples do cotidiano temos rido e chorado juntos. Digo simples, porque pequenos acontecimentos, mas que muitas vezes exigem esforço, paciência. As mãos que tremem, não conseguindo fazer o movimento pedido, as pernas que falham, as palavras mal entendidas porque já não escutam bem, os tropeços, os tombos, os esquecimentos, as confusões, os desentendimentos, as corridas para o pronto-socorro, as internações. Na casa pessoas estranhas que vem para trabalhar, novas rotinas, novos temperos, novas estórias de vida, novos aborrecimentos, novas brincadeiras.
Estamos vivendo na carne o ditado que diz “Tudo que dá pra chorar, dá pra rir”.
Aprendemos no silêncio, na impotência, nas orações, nos dias da casa vazia, com o telefone que não toca, na ausência daqueles que queremos perto, no cansaço, nas vigílias, na raiva, no sentimento de abandono, no abraço, no chorar unidos.
Estar junto já não é só prazeroso. Ir a casa deles receber colo acabou. Inverteram-se os papéis. Essa inversão não foi fácil, principalmente para meus irmãos. Talvez, pela cultura, a mulher assume mais rapidamente o cuidar.
As netas convivem com essa fragilidade, ajudam e experimentam novos aprendizados e afetos. Ajudar a vestir, medicar, passear, fazer companhia, conversar e fazer junto as orações. A presença do Espírito é palpável e dá sentido a essas vivências, celebra as alegrias, os prazeres simples e as pequenas satisfações.
“Os idosos foram aquilo que os jovens são agora. E estes serão, um dia, aquilo que são os idosos hoje”. Paulo E. Arns.
Aprendemos a nos aproximar do inevitável – nossa vida tem um fim.
Aprendemos a valorizar a vida.
Referências:
ARNS, Paulo Evaristo. Reflexão sobre idosos. Artigo publicado no jornal "O São Paulo", set. de 2000.
BAN BREATHNACH, Sarah. Algo mais: encontrando o que falta para ser feliz. Rio de Janeiro: Sextante, 2002.
CONY, Carlos Heitor. Quase memória: quase-romance. São Paulo: Companhia da Letras, 1995.
CRITELLI, Dulce. A vida começa pela morte. Artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 22/7/2004.
GOLDSTEIN L.L, Sommerhalder C.Religiosidade, Espiritualidade e Significado Existencial na Vida Adulta e Velhice.
MARINO JR, Raul. A religião do cérebro: as novas descobertas da neurociência a respeito da fé humana. São Paulo: Editora Gente, 2005
TOLLE, Eckhart. O Poder do Agora: um guia para a iluminação espiritual. Rio de Janeiro: Sextante, 2002.
*Eva Regina Martinho do Valle - Pedagoga, Integrante do GEM (Grupo de Estudos da Memória)
Professora da "Faculdade da Maturidade Claretianos". E-mail: evadovalle@ajato.com.br