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Revista Portal

Os fios da memória na trama da cultura


Neste texto levantamos questões relativas à memória vista duplamente como biológica e cultural. Ressaltamos o valor da rememoração como instrumento de reflexão sobre a trajetória vivida no tempo e espaço da cultura, reassegurando ao indivíduo a noção de identidade e pertinência a um grupo de origem / destino em uma sociedade em mudança. 01/09/2010 - por Vera Maria A. Tordino Brandão na categoria 'Memórias'

É grande esta força da memória, imensamente grande, ó meu Deus.

É um santuário infinitamente amplo. Quem o pode sondar até ao profundo? Sto. Agostinho (X,8, 15)

RESUMO: Neste texto levantamos questões relativas à memória vista duplamente como biológica e cultural. Ressaltamos o valor da rememoração como instrumento de reflexão sobre a trajetória vivida no tempo e espaço da cultura, reassegurando ao indivíduo a noção de identidade e pertinência a um grupo de origem / destino em uma sociedade em mudança.

Palavras-chave: memória, cultura, tempo / espaço, identidade.

ABSTRACT: This text raises questions related to the memory as both the biological and cultural factor. We emphasize the value of remembering as a tool for pondering the moments experienced within the bounds of space and time in culture, reassuring every single individual the notion of identity and that it pertains to a group of origin/destiny in a continuously changing society.

Key words: memory, culture, time, space, identity.

Ao falarmos sobre memória, usualmente, aparecem associadas duas questões: uma do ponto de vista neurobiológico, relativa a perda ou enfraquecimento (lapsos e esquecimentos) da memória, e que podem ocorrer na fase do envelhecimento; outra seria a visão social e / ou cultural que denominamos de “memória afetiva”, que nos traz  a vida vivida com sentimentos e emoções.

Os distúrbios da memória afetam-na como um todo e estão geralmente associados às doenças degenerativas do sistema nervoso central (por exemplo, demências e, entre elas, o mal de Alzheimer).

A memória, como outras funções orgânicas, ”enfraquece” com a idade e os especialistas recomendam, como para todas as funções, a prática para mantê-la ativa – a função faz o órgão – e recomendam o [...] exercício efetivo e reiterado da função mnemônica em si: aprender, ler, analisar o que se aprende ou se lê. Izquierdo (1999)[2].

Esta afirmação se confirma na prática do trabalho que realizamos com grupos de indivíduos a partir de 50 anos desde o ano de 1994. Constatamos, nesse período, como aulas, palestras e as atividades das Oficinas de Memória[3] são estimulantes para reflexão, expressão e debate de idéias, refazendo o conhecimento e reforçando o sentido de identidade e pertinência. Essas atividades, realizadas em grupo, apontam por seus excelentes resultados a importância da manutenção e ampliação dos espaços dedicados a indivíduos dessa faixa etária onde possa ser colocada em prática a reflexão para a ação.

Bobbio (1997) nos diz [...] somos aquilo que pensamos, amamos, realizamos... somos aquilo que lembramos [...] e vemos que ele coloca na memória o conteúdo do significado da vida mesma.

Neste sentido, observamos que a memória da trajetória de vida tem fundas raízes na vida coletiva e é nosso “olhar” individual que a resgata. Halbwachs (1990) afirma que apoiamos nossa memória nesse passado vivido e compartilhado com os grupos – a comunidade afetiva. A memória dos fatos vividos no passado, chamados por estímulos do presente, vem recomposta e retrabalhada por mecanismos sócio-históricos e psicológicos. Lembramos não o que queremos e nem como queremos. É comum uma lembrança de acontecimentos que julgamos banais, nos tomar de assalto e se fazer imperiosa em sua força. Outros fatos que julgamos marcantes em nossa vida aparecem como que velados, e nos escapam mesmo diante de um esforço consciente de rememoração. Esses fatos relembrados mais ou menos nitidamente, banais ou perturbadores, são trechos de uma história, a história de cada um que, simultaneamente, singulariza o indivíduo e o torna parte de um grupo.

A visão deturpada sobre o envelhecimento e a figura do idoso se estende ao tema da memória. Ela é vista como “coisa de velhos”, em uma perspectiva duplamente preconceituosa – por um lado apresenta-se o velho memorioso, que só fala do passado “do bom tempo que passou”; de outro a figura do velho sábio, idilicamente colocado como detentor de uma fonte mágica de sabedoria ligada às experiências vividas. Esta perspectiva dupla é depreciativa e /ou condescendente, e aponta a perda da memória cognitiva e a exacerbação da memória afetiva, ou uma pretensa sabedoria como natural ao envelhecimento.

Mas, por outro lado, observamos uma atitude comum, quando se verificam lapsos ou perda de memória, de certa “benevolência” ou acomodação em relação ao problema. Vista como decorrente da idade e, portanto “natural” deixamos de considerá-la como um possível alerta, que pode indicar uma depressão, um estresse profundo ou outras doenças degenerativas mais graves.

A questão da memória deve ser vista então sob no amplo aspecto – biopsicosocial – e é dessa forma que ela se expressa socialmente. Cada grupo humano, e cada indivíduo inserido em sua cultura, têm sobre a memória e seu uso uma visão que lhes é própria.

Nas sociedades de tradição oral, é sobre a memória que se assenta a cultura do grupo. Nas tribos africanas, temos a figura do griot (o narrador) cuja função é manter, através de repetição oral, a unidade da história do seu povo para as gerações futuras.

Na cultura indígena a oralidade é também a base da tradição que mantém a memória da criação do mundo. A raiz dessa memória está não só no grupo, mas tem uma base real que é o território, espaço de origem. Afirma Krenak (1994):

Nos lugares onde cada povo tinha sua marca cultural, seus domínios, nesses lugares, na tradição da maioria de nossas tribos, de cada um de nossos povos, é que está fundado um registro, uma memória da criação do mundo [...] nesse lugar, que hoje o cientista, talvez o ecologista, chama de habitat, não está um sítio, não está uma cidade nem um país. É um lugar onde a alma de cada povo, o espírito de um povo, encontra a sua resposta, resposta verdadeira. De onde sai e volta, atualizando tudo, o sentido da tradição, suporte da vida mesma. (p.201)

Este trecho nos traz dois temas que caminham paralelos à discussão sobre memória: tempo e espaço.

O tempo da memória, assim como do mito, não é linear. É o tempo da duração, do que foi vivido – Kairós -, é um tempo interno, pessoal, que nos protege do tempo linear – Cronos -, externo e acelerado da sociedade atual e que assegura, em parte, nossa identidade. Como no mito, o tempo da memória pode ser visto como circular já que podemos, ao refazer a trajetória através da memória, unir o fim ao começo e recomeçar olhando para o futuro.

Ao falar da memória e sua relação como tempo Sto. Agostinho a coloca depositada em “antros e cavernas sem número” onde estariam guardadas as nossas lembranças, conscientes e inconscientes, e, como um “tesouro”, todos os “movimentos da alma”. Nesse sentido coloca o tempo como uma duração (distensio animi)

[...] pareceu-me que o tempo não é outra se não distensão; mas de que coisa o seja ignoro-o. Seria para admirar que não fosse a da própria alma [...]. Sei perfeitamente que meço o tempo, mas não o futuro, porque ainda não existe. Também não avalio o presente, pois não tem extensão, nem o passado, que não existe. Que meço eu então? O tempo que presentemente decorre, e não o que já passou? (1980:p.226 - XI, 26,33).

Essa discussão nos coloca as dimensões espirituais e filosóficas do tema. Poderiam elas ser entrevistas nos relatos guiados pela memória autobiográfica? Quando trabalhamos com rememorações vemos que elas se apresentam nuançadas, das bem superficiais às mais profundas, e que não existe uma lógica na sua aparição. Tanto nos relatos recolhidos para nossa dissertação de mestrado, como nos que são trabalhados nas Oficinas de memória, notamos que as lembranças se apresentam de forma descontínua, mais ou menos profundas. Observamos também que nada foi perdido. Tudo o que se viveu e sentiu aparece como peças de um mosaico, que podem ser reaproveitadas num minucioso trabalho de bricolage, de reconstrução a partir dos restos, do que sobrou consciente e inconscientemente na nossa memória. Esse trabalho de bricolage tem uma luz própria, que pode iluminar nosso passado e nosso futuro. É a luz que vem da consciência da nossa trajetória e que podemos preservar através da palavra falada e a escrita.

Ilustrando este vai-e-vem do tempo da memória, a consciência que dela emana e que aparece nas narrativas, trazemos o trecho de um depoimento[4] onde a narradora nos fala do pai que era capataz de uma fazenda no interior de São Paulo na década de 30.

[...] porque ele (o pai) acompanhava tudo dos republicanos, do patrão lógico, e ele era cabo eleitoral. Na época da eleição ele pegava o pessoal, punha na caminhonete e levava pra votar, no cabresto, era nessa época [...] Minha mãe contava que em muitos discursos que ele fez (o patrão) ele dizia que o pobre não tinha direito ao mesmo pão que o rico [...] Quando eu ensinava história, e falava que se fazia aquelas eleições no cabresto, eu sabia que era isso mesmo [...] Eu me lembro que  na revolução de 32 [...] uma vez meu pai escondeu dois policiais debaixo da cama [...] era a favor deles. (mulher, 72 a., paulista, professora).

O tempo aparece, marcado no relato, misturando a fala da mãe, suas próprias lembranças (eu me lembro) e a análise do período sócio-histórico, com olhar retrospectivo como professora de História, que dá sentido e amarra a narrativa.

O trajeto da memória se faz “no tempo”, interno e externo, e nos traz, além dos acontecimentos, o espaço onde estes ocorrem. Ao falar sobre sua juventude um outro narrador exemplifica, trazendo concretamente o espaço onde ela foi vivida – a cidade de São Paulo.

Aos domingos havia footing no Paraíso, em que as garotas passeavam de um lado e nós do outro e ficávamos flertando [...] Mas, eram outros tempos [...] O Largo da Guanabara onde formamos o grupo (de pintores) não existe mais [...] o metrô passou [...] Eu gostava muito de patins. Ia de patins ao Trianon para namorar [...] patinava na Av: Paulista! Veja só! (homem, 75 a; paulistano, artista plástico).

Poulet (1992) falando sobre a obra de Proust, que escreveu brilhantemente tendo a memória autobiográfica como suporte, e com ela articulando o tempo e espaço, diz:

[...] graças à memória, o tempo não está perdido, e se não está perdido, também o espaço não está. Ao lado do tempo reencontrado está o espaço encontrado, um espaço que se encontra e se descobre em razão do momento desencadeado pela lembrança.(p.54)

Quando Halbwachs (1990) analisa a questão da memória ligada ao espaço diz que enquanto algumas marcas materiais da cidade permanecerem elas serão fontes de segurança para as pessoas que ali vivem. Afirma também que a memória espacial estaria sempre ligada e, portanto, reforçada pelos grupos de convívio. Estes resistiriam às mudanças das “pedras da cidade” mantendo sua lembrança intacta.

Se para o narrador, acima citado, algumas marcas importantes foram destruídas ou modificadas pelo crescimento e o progresso, como o Largo Guanabara onde se reunia o grupo de pintores, do qual fez parte, outras se conservam ainda hoje servindo de referência. O Parque Trianon e a Av: Paulista que, apesar das transformações, continua sendo a mesma via (re) conhecida por todos. Concordamos com Bosi (1987) quando afirma que, através da reconstrução que a memória nos faculta, é possível manter o sentido de pertinência em relação à cidade apesar do desaparecimento de algumas referências arquitetônicas e da descaracterização de outras, e que [...] à resistência muda das coisas, à teimosia das pedras, une-se a rebeldia da memória que as repõe em seu lugar antigo. (p.371)

Poderíamos, então, pensar sobre a memória dos “espaços perdidos” para aqueles que mudam de cidade ou de país para nunca mais voltar. Estaria a memória desses espaços perdida para sempre? O trecho do depoimento seguinte pode ilustrar a questão.

Budapeste era muito sofisticada, como Berlim e Viena [...] Íamos á ópera, nos concertos [...] naquela época era também o Jazz, uma delicia! Nosso esporte predileto era a patinação. Tinha um ringue maravilhoso em Budapeste, até hoje tem. O inverno inteiro, enquanto tinha gelo, a gente ia toda a tarde, e ia de metrô, porque o primeiro metrô da Europa, é o da Hungria. (mulher, 74 a, húngara, dona de casa).

A narradora abandonou a cidade logo após o fim da 2a Guerra e deixou para traz o tempo vivido da juventude, a pouca família que restou e uma cidade destruída. Mas seu relato ilumina o espaço perdido mostrando-o como vivo, na sua memória. Mesmo com o grupo desfeito, e o espaço abandonado, a memória mantém intacta a lembrança da cidade natal e o feliz período ali vivido.

Apesar de passados 50 anos de vida no Brasil, onde reconstruiu sua vida, ela nos diz “Sou européia até hoje!” mostrando que sua identidade se mantém ligada a cultura de origem, ancorada em sua memória.

A questão da identidade ligada a memória fica explicita na afirmação acima, pois se o passado é revivido, no tempo e espaço, e atualizado na perspectiva atual, vemos que ela é construída a partir das histórias que contamos sobre nossa trajetória, mas atualizadas por quem somos nós hoje. Afirma Thomson (1997):

[...] nossas reminiscências também variam dependendo das alterações sofridas por nossa identidade pessoal, o que me leva a um sentido, mais psicológico, da composição: a necessidade de compor um passado com o qual possamos conviver. Esse sentido supõe uma relação dialética entre memória e identidade [...] assim, podemos dizer que nossa identidade molda nossas reminiscências; quem acreditamos que somos no momento e o que queremos ser afetam o que julgamos ter sido.(p.57)

O autor nos coloca pontos fundamentais para refletirmos sobre a questão da identidade, construída, múltipla e passível de atualização, e sobre a maneira como ela acompanha a construção de um sentido para nossa trajetória, que narramos como uma história.

Nos relatos, por nós ouvidos, constatamos que recordar, para esses idosos, não foi doloroso, e que não devemos considerar que falar do passado é sempre um movimento de fuga da realidade presente, freqüentemente marcada por perdas. Mas esta não é uma verdade absoluta, pois sabemos que recordar não é sempre bom, e nem é para todos.

No entanto, em nossa experiência, observamos que a rememoração pode favorecer a ressignificação, unindo passado, presente e futuro que se harmonizam, reforçando a sensação de pertinência a um grupo de origem e a um de destino (considerando-se os deslocamentos que ocorreram ao longo da vida). Isso pode levar a uma revisão e reafirmação da identidade construída, e aparentemente destruída, face ao acelerado processo de mudanças, e que coloca todos os indivíduos, e não só o idoso, que estão à margem do mercado de trabalho como excluídos sociais.

Retomando aqui a discussão inicial podemos ver que a questão da memória exige uma abordagem complexa envolvendo conhecimentos sobre o funcionamento dos mecanismos cerebrais, ligado a área biológica (ainda com muitas descobertas a serem feitas), aos aspectos culturais, onde se colocam as memórias históricas, pessoais e coletivas, e aos aspectos filosóficos, quando pensamos na questão do “ser”, no tempo e espaço, sua base de sustentação.

Se procuramos ao longo da nossa trajetória, desde a origem – através dos mitos, das religiões organizadas, da filosofia, da arte e da história - contextualizar o nosso “ser no mundo”, as motivações que nos conduzem, as escolhas que fazemos em determinados momentos de nossa vida, podemos pensar na memória autobiográfica como fio condutor na compreensão das trajetórias, nossa e de outros, que se apresentam de forma desigual dentro de uma mesma trama de vida social. Podemos ver em cada uma das “vidas vividas” uma tentativa de resposta pessoal a esse tema fundamental que é o significado profundo da vida para o homem, ampliando nosso conhecimento sobre a cultura e fazendo-nos redimensionar a importância da memória autobiográfica na construção e manutenção da identidade, e como um farol a iluminar os caminhos de uma “re-construção de si”.

Referências bibliográficas

BRANDÃO, Vera Maria A. Tordino. (1999) Memória, cultura, projeto de vida - Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais – Antropologia. PUCSP - São Paulo.

BOBBIO, Norberto. (1997) O Tempo da Memória – De senectude - Rio de Janeiro. Campus.

BOSI, Eclea. (1987) Memória e Sociedade - Lembranças de Velhos. São Paulo, Edusp.

IZQUIERDO, Ivan Antonio. (1999) “O apaixonante estudo da memória”, Revista do Incor, nº 48, São Paulo, maio.

KRENAK, Ailton. (1994) “Antes, o mundo não existia”, in Novaes. A.(org.) Tempo e História. São Paulo, Companhia das Letras.

HALBWACHS, Maurice. (2004) A Memória Coletiva. São Paulo. Centauro.

POULET, Georges. (1992) O Espaço Proustiano. Rio de Janeiro, Imago.

SANTO AGOSTINHO. (1980) Confissões. São Paulo – Abril, Coleção Pensadores.

THOMSON, Alistair. (1997) “Recompondo a memória: questões sobre a relação entre a história oral e as memórias” – Revista Programa de Estudos Pós-graduados em História (Ética e história oral), nº 15, São Paulo, Departamento de História PUCSP. EDUC.

*Vera Maria A. Tordino Brandão - Pedagoga (USP). Doutora em Ciências Sociais – Antropologia PUC-SP. Pesquisadora mentora do Portal do Envelhecimento. E-mail: veratordino@hotmail.com


[1] Artigo revisado (2007) para o Espaço Memória – Portal do Envelhecimento – www.portaldoenvelhecimento.net . Publicado originalmente na Revista Kairós – Gerontologia. Ano 2. n.2. São Paulo. Educ, 1999.

[2] Prof. Dr. Ivan Antonio Izquierdo é professor titular de neuroquímica do Departamento de Bioquímica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul onde também coordena um Centro de Memória.

[3] O projeto Oficinas de memória abrangeu 100 indivíduos num trabalho realizado entre 1994 a 1996 em uma Universidade Aberta, e no ano de 1997, através do NEPE, PUC-SP.

[4] Os trechos dos depoimentos citados neste artigo fazem parte da dissertação para o Mestrado em Ciências Sociais apresentado à PUC pela autora. (vide bibliografia)


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Atualizado em 23/05/2012 02:59:36