
As pequenas memórias, de José Saramago, Companhia das Letras, 144 págs., R$ 31
Escreveu Octavio Paz na abertura de um célebre ensaio sobre Fernando Pessoa: "Os poetas não têm biografia. Sua obra é sua biografia". A lembrança do estudo do Nobel mexicano dedicado ao extraordinário autor português vem à tona diante de As pequenas memórias, novo livro de um escritor igualmente lusitano e, ao mesmo tempo, também agraciado com aquele que é o maior prêmio literário internacional: José Saramago. A se tomar como válida, para todos os grandes artistas da palavra, a premissa de Paz, seria razoável perguntar que interesse poderia haver, então, num volume autobiográfico de Saramago - ademais composto, como não deixa de sugerir o seu título, de relatos de passagens menos significativas de sua existência. Diante disso - e ainda da afirmação do autor de que seu livro de memórias não é "literatura" sobre o vivido e sim aquilo que, em verdade, ele viveu -, não pareceria mais pertinente procurar Saramago em seus romances, peças teatrais ou coletâneas de poemas?
Não se pode exigir de As pequenas memórias o que elas não prometem. Sem um rigor cronológico, o volume concentra-se entre os quatro e os 15 anos do ficcionista. São "pequenas" essas memórias, portanto, não somente porque cobrem um curto período da vida de Saramago - nascido em Azinhaga, na província do Ribatejo, em 1922 -, rendendo, dessa maneira, modestas 140 páginas, mas sobretudo porque tratam de episódios ocorridos quando ele era ainda um garoto. O objetivo: pôr em cena o menino que Saramago foi para que seus leitores possam saber "de onde saiu" o homem em que ele se transformou. Daí a coerência da epígrafe, "Deixa-te levar pela criança que foste", supostamente retirada de um certo Livro dos conselhos - na verdade, uma obra que não existe, recurso comum na ficção do escritor.

Lisboa no começo do século, lugar visitado por Saramago durante a infância
É claro que nada há de surpreendente numa proposta baseada na máxima "omenino é o pai do homem" e a psicanálise já demonstrou à exaustão o quanto são decisivos para a fase adulta os primeiros anos de um ser humano. Assim, embora As pequenas memórias traga, por vezes, laços explícitos entre situações vivenciadas e páginas da literatura de Saramago - como a influência sobre o romance Todos os nomes (1997) de sua obstinada busca, em inúmeros cartórios, da data exata da morte, por broncopneumonia, de seu irmão Francisco, aos quatro anos de idade -, o que se destaca no volume é o retrato "em si" do artista quando garoto, vale dizer: antes da descoberta da arte e na freqüência da "vida como ela é".
Não foi ameno para o autor rememorar aqueles dias. De origem humilde, Saramago relata que, durante anos, sua mãe, tão logo terminava o inverno, penhorava os cobertores da casa - quase sempre dividida com outras famílias -, só os reavendo quando "os primeiros frios começavam a apertar". O pai, policial, "desnorteado pelas alegrias eróticas da metrópole lisboeta", não se incomodava em agredir a esposa diante do filho, que atribui às "deploráveis cenas domésticas" resultantes desse comportamento o fato de jamais haver levantado a mão para uma mulher.
Algumas outras desventuras da infância do escritor tiveram a marca indelével da violência. Aqui e ali, a prosa deAs pequenas memórias se aproxima do ritmo arrebatador da ficção que consagrou o autor português. Não se encontra porém no livro qualquer traço que revele a ambição bem-sucedida de Viver para contar, por exemplo, primeira parte da autobiografia de outro Nobel, o colombiano Gabriel García Márquez. Não importa. "Tudo é biografia, digo eu. Tudo é autobiografia, digo com mais razão ainda, eu que a procuro (a autobiografia? a razão?). Em tudo ela se introduz (qual?), como uma delgadíssima lâmina metida na fenda da porta e que faz saltar o trinco, devassando a casa", escreveu Saramago no romance Manual de pintura e caligrafia (1977). Sua obra, como se vê, é sua melhor biografia.
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José Saramago é romancista, teatrólogo e poeta. Tornou-se, em 1998, o primeiro escritor de língua portuguesa a receber o Nobel de Literatura. É autor de, entre outros, O ano da morte de Ricardo Reis, O evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a cegueira, A caverna e As intermitências da morte. |
Fonte: Entrelivros, capturado em 28 de novembro de 2006