Na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado. A memória não é sonho, é trabalho.
Ecléa Bosi (2001)
Este artigo tem como objetivo relatar a execução do Projeto Oficina: Conversas e memórias dos residentes do Lar Madre Regina [1] desenvolvido numa Instituição de Longa Permanência para Idosos. Inicialmente tivemos algumas inquietações. Quais seriam os critérios de ilegibilidade do grupo? Os residentes iriam se interessar pelo Projeto? Como faríamos com os que ficariam de fora? Que sentimentos aflorariam nos que foram escolhidos? Saberíamos lidar com estas situações?
Aos poucos, as questões foram se esclarecendo. A administração da instituição liberou um dormitório que transformamos numa sala onde as reuniões aconteceram. Precisávamos de mais privacidade para "conversar", e consideramos que o horário da manhã seria mais conveniente, pois todos estariam mais dispostos e atentos, e, assim, o agendamento das consultas médicas foi organizado para que ninguém tivesse outro compromisso nos dias de oficina. Os residentes foram selecionados obedecendo aos critérios de audição e lucidez, ressaltando que o critério alfabetização não foi excludente.
Decidimos que os encontros deveriam ter em torno de uma hora de duração para que os idosos não ficassem cansados, e que para esta atividade 8 participantes seria o número ideal de modo que cada um tivesse um tempo adequado para se expressar em cada encontro. Com antecedência de 2 semanas, antes do início da oficina, reunimos o grupo selecionado e comunicamos a ele nossa intenção de iniciarmos o Projeto. Explicamos como aconteceriam os encontros, e que a freqüência seria semanal, com um total de 8 encontros. Informamos também que como resultado do Projeto cada integrante da oficina teria ao término do processo um caderno de memórias onde estariam registradas as suas histórias e as de cada um de seus companheiros.
Uma das residentes mostrou-se especialmente entusiasmada, pois é de ascendência austríaca e veio para o Brasil em 1929, e disse que se lembrava muito da sua infância. Informamos, também, que seria pedida uma tarefa escrita após os encontros, e que teriam nossa ajuda para escreverem os textos. Eles nos ditaram suas lembranças, estas foram lidas por nós para confirmação dos relatos e depois assinaram os textos, posteriormente digitados por nós.
O objetivo era que se estabelecesse um espaço onde pudessem ouvir e serem ouvidos, trazendo o passado para o presente, criando um espaço de cumplicidade no grupo, melhorando o entrosamento e a comunicação entre eles e, assim, fossem formados novos laços de amizade e confiança.
O grupo
O grupo foi composto por 6 integrantes do sexo feminino e 2 do sexo masculino com idade média de 79 anos. Quanto à escolaridade: 62% completaram o ensino básico e 38% são analfabetos. Com relação ao tempo de institucionalização: 20% dos participantes residem na ILPI há 7 anos e os outros são moradores há um ano.
A oficina

Durante oito semanas nos encontramos e conversamos sobre nossas memórias. Quantas descobertas! Tivemos a oportunidade de nos conhecer de uma forma diferente. Nos primeiros encontros os idosos encontravam dificuldade ao falar sobre o seu passado.
Seria por se sentirem inseguros para contar suas estórias? Ou, se essas lembranças estavam adormecidas há tanto tempo, que ninguém daria mais valor aos sentimentos por elas trazidos? Mas, após o 4º encontro, todos começaram a se soltar rememorando suas vidas, com sorrisos confiantes, e orgulhosos ao falarem de suas experiências, sentimentos, decepções e alegrias de um passado tão distante e que, ao mesmo tempo, se mostrava tão perto.
O desafio de relembrar e registrar, por escrito, essas memórias, para que se tornassem um documento vivo – uma marca - da passagem de cada um pela vida, pode ser observado no relato de uma das participantes:
Eu era noiva, tinha aliança e tudo. Eu amava este noivo, eu era doente por ele, eu amava muito ele. A mãe dele não queria que ele casasse comigo porque eu era pobre. Eu vivia com a família... eu vim da Bahia com eles. Como eu não tinha experiência em nada, a mãe dele falou que não queria meu casamento com ele. Eu mandei ela ficar com ele. Falei desaforo para ela, com raiva. Ela queixou-se para ele. Aí ele veio falar comigo. Eu confirmei o que eu tinha dito e terminei com ele.
Aí terminamos tudo e na época tocava esta música "Brigas". Em todo canto que eu ia, em todas as rádios só tocava para mim lembrar mais dele ainda. Eu só sei que eu fiquei com ele na cabeça quase uns 10 anos, 15 anos depois de casada. Aí foi que eu esqueci dele. Como custou para eu esquecer este homem.
Aos poucos os idosos foram descobrindo novas possibilidades em seus cotidianos, e algumas pessoas ousaram escrever de próprio punho: Há quanto tempo não o faziam? Diz outro membro do grupo:
Gostei de tudo, tive dificuldade no inicio para escrever; minha mão estava trêmula, porque quase não escrevia, não é como jovem.
Inspirado por esta motivação este residente escreveu uma mensagem para uma de suas companheiras de instituição por ocasião do seu aniversário, homenageando-a de forma singular.
Os resultados

No último encontro os participantes expressaram satisfação pela oportunidade de exercitarem a memória, que vem sendo gradualmente prejudicada pelo envelhecimento, comprometendo a cognição. Relataram que foi de grande proveito, pois os levou a uma maior participação social, possibilitando ampliação da convivência entre si. Também ressaltaram que o esforço feito para lembrar dos acontecimentos passados contribuiu para trazer mais lembranças, enriquecendo as suas histórias. Todos ficaram emocionados com o caderno de memórias:
Este caderno é o nosso orgulho, para filhos e netos, porque estão documentadas lembranças de nossas vidas.
Devido ao interesse demonstrado pelos residentes em continuar este Projeto, as executoras estão desenvolvendo uma atividade quinzenal com este grupo, com a finalidade de promover uma integração mais ativa, propiciando melhor satisfação e aceitação das condições de convívio dentro de uma ILPI.
Céres Machado - Enfermeira lmr_enfermagem@terra.com.br
Rita Amaral - Pedagoga silveiramaral@uol.com.br
Fotos: Rita Amaral
Referência
BOSI, Ecléa (2001). Memória e Sociedade. Lembranças de velhos. São Paulo. Cia das Letras.
[1] As executoras do Projeto participaram da formação continuada Oficina de Memória Autobiográfica: Teoria e Prática, idealizada pela Prof. Vera Brandão, que tem como objetivo a formação e/ ou atualização de profissionais que trabalhem com a questão do envelhecimento, por meio do resgate e ressignificação de suas próprias trajetórias, de uma perspectiva teórico-prática, usando a memória como método.