Imagine um trabalho que una o bordado, o fuxico, a costura, o crochê e outras práticas artesanais cuja beleza salta aos olhos de quem cria e de quem tem a chance de apreciar. Imagine, agora, um fato ocorrido durante a vida, uma lembrança, uma prática ou um sonho sendo contados por meio da confecção desse trabalho. Foi isso o que aconteceu em Resende (RJ) com um grupo formado por 30 mulheres entre 52 e 85 anos de idade que participaram do projeto Retalhos de Memória, um ‘fazer coletivo’ que resultou na criação de 32 módulos, os quais, unidos, formam um painel de aproximadamente 28 metros de comprimento.

O projeto foi idealizado e executado pela arte-educadora Mariana Guimarães, 27 anos, formada pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele foi um dos 20 trabalhos selecionados no I Prêmio Inclusão Cultural da Pessoa Idosa, realizado em 2007 pelo Ministério da Cultura, por meio da Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural. Todas as iniciativas vencedoras foram contempladas com um certificado e o valor de R$ 20 mil. O projeto foi desenvolvido em três centros de convivência da terceira idade e com ele foi possível solidificar identidades, recuperar histórias e proporcionar a inclusão cultural por meio de trabalhos manuais.

Estudos indicam que daqui a 20 anos existirão 224% a mais de idosos no mundo, enquanto a população mundial crescerá 102%. Estima-se que em 2025 o Brasil terá 30 milhões de pessoas idosas. De acordo com a justificativa do projeto, “assim como a pluralidade cultural brasileira, há uma diversidade enorme na velhice - diversidade de culturas, de nível socioeconômico, saúde, aspirações, vontades. (…) O que fazer com os nossos idosos?”
A primeira execução do projeto aconteceu no ano de 2006. Com o sucesso que teve, está sendo desenvolvido em cinco locais da cidade do Rio de Janeiro, além de Resende.
Leia a seguir a entrevista que a arte-educadora Mariana Guimarães concedeu à Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural sobre o projeto Retalhos de Memória.
O que é o projeto Retalhos de Memória?
É um projeto de resgate da memória, elevação da auto-estima e de potencialidades adormecidas a partir da busca de práticas artesanais de produção presentes no imaginário da mulher brasileira: o bordado, o fuxico, a costura, o crochê e outras. Em sua primeira execução, no ano de 2006, o projeto contou com a participação de 30 mulheres idosas, que em encontros semanais contavam suas histórias, lembranças, sonhos e medos por meio da confecção criativa. O resultado desse encontro foi um painel de 28 metros de comprimento, montado com a junção dos 32 módulos criados. Cada módulo foi preparado por uma participante que ilustrou um fato de sua vida, uma lembrança, uma prática ou um sonho.
Onde foi desenvolvido?
Foi executado pela primeira vez no município de Resende, Rio de Janeiro, em três casas de convivência e lazer da terceira idade. Atualmente, o projeto está sendo desenvolvido também no Rio de Janeiro.
Por que você resolveu executar esse projeto?
Desde a sua elaboração, o projeto teve objetivos bem definidos e um deles era o de promover o reconhecimento da sabedoria acumulada por mulheres idosas, sabedoria esta que em muitos momentos não é reconhecida pela sociedade. A mulher idosa é vítima de preconceito no país. Pelo fato de serem idosas, mulheres e pobres, elas são, na maioria, excluídas três vezes mais da participação social. A pergunta que o projeto traz é: o que pensam essas mulheres? Como vivem? O que carregam consigo? São detentoras de qual saber popular? É importante ressaltar que atualmente existe um fenômeno mundial que é o da feminização da velhice, e no Brasil as mulheres vivem em média 8 anos a mais do que os homens. As mulheres são as participantes efetivas dos espaços voltados para a terceira idade.
Quantas pessoas se envolveram nesse trabalho?
Ele foi realizado por 30 mulheres com idades entre 52 e 85 anos, oriundas de camadas sociais populares. O trabalho foi aprovado pelo Programa de Atendimento da Terceira Idade (Pati), da Secretaria de Desenvolvimento Social do município de Resende. Também foi recebido com muito respeito e apoio pela prefeitura municipal.
Foi você quem idealizou o projeto?
Sim. Foi executado no ano de 2006. Ao longo do processo, muitas pessoas apoiaram o projeto e contribuíram voluntariamente na execução de um belíssimo multimídia que contém todo o processo, as fotografias, os vídeos e os trabalhos das participantes. O painel foi exposto no Senac do município, na I Semana Cultural do Idoso, realizada pelo Pati. Foi possível a venda de alguns produtos ( panos de prato, bonecas, almofadas etc).
Qual o significado desse trabalho para a cultura brasileira?
A perpetuação e afirmação da existência de um saber artesanal que é repassado de mãe para filha sem um objetivo econômico/ ou utilitário, mas um objetivo que busca uma expressão afetiva e a legitimação de uma identidade social.
O que significou estar entre os vencedores do I Prêmio Inclusão Cultural da Pessoa Idosa?
Significou continuidade e reconhecimento de um trabalho tão sério e profundo. Como conseqüência do prêmio e dos recursos recebidos, atualmente o projeto está ampliado e se desenvolve em 5 locais na cidade do Rio de Janeiro, em parceria com a ONG Obra Social da cidade do Rio de Janeiro e continua, é claro, em Resende, em parceria com o Pati. Há o desejo de estendê-lo para a área rural. E será realizado, neste ano, com a previsão da participação de 130 mulheres. Ser contemplada com esse prêmio possibilitou alcançar mais pessoas com o projeto.
Qual a sua opinião sobre essa premiação criada pelo Governo Federal?
Ela é de extrema importância. Esse primeiro olhar do Ministério da Cultura à pessoa idosa é necessário e imprescindível, uma vez que o Brasil está envelhecendo e que sua população idosa duplicará em 20 anos. O que fazer com nossos idosos? Essa pergunta deverá ser pensada por diversas áreas do conhecimento, e o apoio do Governo é de suma importância e urgência.
Você pensa que essa premiação deve continuar?
Com certeza! E além disso, sugiro um encontro onde os ganhadores do prêmio possam apresentar o desenvolvimento/ multiplicação de seus projetos a partir da utilização e aplicação do recurso recebido.
Fale um pouco sobre você: sua formação profissional, sua idade, seus sonhos, seu trabalho…
Sou arte-educadora formada pela Escola de Belas Artes/ UFRJ e tenho 27 anos. Atualmente curso o mestrado na PUC- RJ na área de Design com o tema “Design e mulheres idosas, uma interseção possível?”
Meu interesse pela pessoa idosa teve início no último ano da graduação ao ler sobre o aumento da população idosa no país. Sempre tive uma escuta paciente e interessada pelas histórias, memória e sabedoria dos idosos. E ainda tenho um enorme interesse e paixão pelas técnicas artesanais de produção presentes no imaginário da mulher brasileira, herança deixada pelos colonizadores e aqui aperfeiçoada e reinventada nas mãos de mulatas, negras, brancas. Como não reconhecer beleza e brasilidade no fuxico, nos bordados, nas rendas? Assim nasceu o projeto e sinto-me muito realizada em ser respeitada e querida por mulheres tão mais velhas do que eu, e pelas trocas que estabelecemos, por acreditarmos tanto umas nas outras. No final é só beleza, mãos que transformam a dor em cor, o pano em flor.
Informações pelo email marianasguimaraes@hotmail.com.
Fonte: Ministério da Cultura, 14/3/2008. Disponível em:
http://www.cultura.gov.br/site/2008/03/14/projeto-retalhos-de-memoria/