
Mesa de abertura do evento: Denice Catani, Marie-Christine Josso e Elizeu Clementino de Souza
II CIPA-Congresso Internacional sobre Pesquisa (Auto) Biográfica - tempos, narrativas e ficções: a invenção de si, reuniu a comunidade de pesquisadores da área, enfatizando o aprofundamento da investigação e da metodologia, a valorização da subjetividade, a ampliação de horizontes para reflexão, as experiências individuais e coletivas, e os significados que os sujeitos imprimem em suas narrativas, valorizando as novas aprendizagens e perspectivas, entendendo a escuta e a narrativa (do outro) como um convite à construção de ciência.
O evento foi realizado no período de 10 a 14 de setembro na cidade de Salvador (Bahia) e organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade da Universidade do Estado da Bahia. Teve como co-organizadores os Programas de Pós-Graduação em Educação das seguintes universidades federais: da Bahia – UFBA; de Sergipe – UFS; de Pernambuco – UFPE; do Rio Grande do Norte – UFRN; de Santa Maria – UFSM; Universidade da São Paulo – USP; Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS; Faculdade Social da Bahia – FSBA, local de realização do Congresso. O evento teve o apoio científico da CAPES, do INEP e da FAPESB.
Artes, Ciências Humanas e Educação – este tripé ancorou o II CIPA, que enfatizou os temas da História Oral, História de Vida e Memória e (Auto) Biográfica, ligadas às questões da autoformação.
Segundo os organizadores, o Congresso propõe-se ao dar continuidade aos debates sobre os potenciais teóricos das fontes (auto) biográficas e seu estatuto epistemológico, a favorecer as aproximações entre domínios diversos das artes e das ciências humanas. Dentre os objetivos que se quer alcançar, destacam-se:
Para concretizar a proposta, assim delineada, as Comissões organizadora e científica delimitaram seis eixos temáticos que consubstanciam as grandes linhas do tema, a saber:
I Tempos, narrativas e ficções: a invenção de si;
II - Literatura, (auto) biografia e formação: práticas de escrita de si;
III - Histórias de vida, narrativas e história da educação;
IV - As artes e a invenção de si: questões de escrita e formação;
V - As construções (auto) biográficas e as práticas de formação
VI – História oral, memória e formação.[1]
Acreditamos que os objetivos do Congresso foram alcançados com êxito. Primeiramente pela competente organização geral, a cargo do presidente do evento Prof. Dr. Elizeu Clementino de Souza da UNEB (Universidade Estadual da Bahia) que, apesar de inúmeras dificuldades, recebeu a todos nós, estrangeiros de outros Estados e países, com alegria, carinho e disponibilidade, visível em todos os momentos, e considerando a envergadura do evento. E, evidente, pela qualidade e diversidade das atividades propostas e o alto nível dos palestrantes, os quais formam o grupo responsável pelo desenvolvimento e implementação desta metodologia, no exterior e no Brasil.
Os dados divulgados pela Secretaria do Congresso indicaram: 900 inscritos, com o envio mais de 700 trabalhos, sendo 445 trabalhos selecionados -195 em formato de pôster e 250 comunicações. Em função do número de comunicações inscritas, o Comitê Científico e a Comissão Organizadora do II CIPA aprovaram os trabalhos em duas modalidades: comunicações e pôsteres, com base em critérios epistemológicos, metodológicos e estruturais (normalização) dos mesmos. Os trabalhos que apresentavam experiências práticas foram apresentados como pôsteres, e os demais como comunicações, divididas de acordo com os eixos temáticos do Congresso.
Reuniram-se pesquisadores de todos os estados brasileiros, e dos países: Colômbia, França, Portugal, Argentina, Espanha, Canadá e Suíça, contemplando 101 instituições diferentes. O formato do congresso respeitou os eixos temáticos citados, nas apresentações de comunicação, dos pôsteres e nas sessões coordenadas dos grupos de pesquisa, e foi assim organizado:
Conferência de abertura: As histórias de vida entre a invenção, os projetos e as destinações, ministrada pela Profª Marie-Christine Josso da Universidade de Genebra.
Conferência de encerramento: As Histórias de Vida como artes formadoras da existência, ministrada pelo Profº Gaston Pineau da Universidade de Tours.
Foram organizados também seis mesas temáticas e seis mini-cursos.
Participamos do mini-curso ministrado pela Profª Christine Delory-Monberger da Universidade de Paris 13 - Os ateliês biográficos de projetos, por ser o que mais interesse trazia à nossa área de atuação e pesquisa, e que consideramos muito importante na consolidação de nosso trabalho.
Durante o evento foram lançados dois livros que contêm todos os trabalhos apresentados nas mesas e nos mini-cursos, e também o livro dos Anais, com 571 páginas, com todos os resumos e, em forma eletrônica, os textos completos. Esses dados apontam a riqueza do material veiculado no evento, seu peso teórico e as possibilidades que apontam para o estudo e a pesquisa.
Esse aporte teórico trazido nas mesas, palestras, mini-cursos, comunicações e pôsteres contribuíram muito para nossa reflexão teórica, e respaldo para atuação prática. O evento, proposto na área de educação, transitou por diversas disciplinas e foi, na sua dinâmica, um verdadeiro exercício interdisciplinar, abordagem necessária à construção de um saber complexo e multidimensional, fundamental para a formação, incluindo o campo gerontológico.
A inter-relação de todos os eixos de reflexão, a construção metodológica e científica ampliou nossas possibilidades concretas de reflexão, atuação e pesquisa sobre o ser que envelhece, bem como os projetos de auto-formação e formação continuada destes e dos profissionais que atuam na área. Questões como escuta sensível, atenção consciente, tomada da palavra como estatuto biográfico, a formação do ser e a “invenção de si”, e a caracterização de um conjunto de saberes no âmbito da formação e das experiências auto-biográfica foram amplamente trabalhadas, discutidas, ponderadas e avaliadas.
O Congresso veio, a nosso ver, ratificar todo o caminho por nós percorrido, desde 1994, no que se refere aos trabalhos de intervenção e (auto) formação por meio das Oficinas Memória e Cultura e as Oficinas de Memória (Auto) Biográficas – Teoria e Prática, da metodologia que as fundamenta, como também nas pesquisas e atualização bibliográfica.

Marie-Christine Josso recebe um exemplar da Revista Kairós, de Vera Brandão
Atentas às dificuldades inerentes ao trabalho, consideramos que as significativas contribuições dos conferencistas e demais pesquisadores, reiteram o sentido do nosso trabalho: a apreensão do significado e potencial do compartilhar histórias de vida; constatar que a subjetividade exige uma abordagem científica; que a “invenção de si” é processo contínuo e um desafio, e traz consigo pressupostos relacionados ao contexto sócio-cultural (como identidade e memória) e exige grande atenção; que essa metodologia aponta novos rumos, e amplia o campo da consciência, favorecendo a auto-formação e a educação continuada.
No nosso cotidiano, junto ao público que integra as Oficinas, nos deparamos com inúmeros “objetos autobiográficos” com destaque para as fotografias, e a palestra de Christine Delory-Monberger da Universidade Paris 13, Fotobiografia e a formação de si, veio reafirmar sua importância enquanto expressão de um sentido, já que a (re) leitura de uma imagem propõe um movimento permanente de re-invenção – com base na experiência vivida.
O mote do Congresso foi a (re) invenção de si que se mostrou como um ritual, como uma busca de sentido à vida, um aprendizado, chamando a atenção para as tramas tecidas, pois a individuação, envolve liberdade para (re) visitar o passado e inventar-se a cada dia. O espaço propiciado pelo II CIPA apontou direções para o estudo-ação-pesquisa que implica em uma escuta sensível – em primeiro lugar de nós mesmos – o que permite a abertura de um espaço interno e permanente para que a memória possa ser (re) visitada, reafirmando aos sujeitos sua historicidade, em permanente construção, e seu espaço de construtor de saberes-fazeres.
O evento também favoreceu momentos reflexivos na re-avaliação de nossa prática - tarefa de abrir caminhos, dar voz, imprimir uma ação transformadora e reveladora, sobretudo àqueles que (ainda) permanecem excluídos.
Na avaliação dos pesquisadores presentes este é, sem dúvida, um novo caminho de estudo e pesquisa para construção de um saber científico, muito próximo a nós mesmos, um caminho novo e, portanto, ainda com muitas incertezas, que desafia a todos, mas para o qual existe energia, entusiasmo, seriedade e experiências acumuladas, como ficou evidente durante o Congresso.
A riqueza cultural da Bahia se fez presente em vários momentos, mas destacamos a apresentação, na abertura do Congresso, das “Ganhadeiras de Itapuã”, formado por um grupo de mulheres, de todas as idades que revive, com danças e cantos, antigas tradições de uma das famosas praias da cidade. E no encerramento o grupo “A Tapa – o som dos pandeiros e tonéis” que fez a alegria de todos os presentes, e com um ritmo marcante contagiou a todos.
O mar azul, visão constante, foi nosso horizonte de reflexão e inspiração para a continuidade de nosso trabalho.
Que venha o III CIPA em 2008!
[1] Texto extraído doa Anais do Congresso (setembro, 2005)