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Um ano de brinViajando para Itaquera


Sabemos que a cidade de São Paulo é gigantesca! Nela vivemos, diariamente, os encantos e desafios de uma megalópole 01/11/2010 - por Patrícia Cabral, Rita Amaral na categoria 'Memórias'

Sabemos que a cidade de São Paulo é gigantesca! Nela vivemos, diariamente, os encantos e desafios de uma megalópole. Moramos na zona sul da cidade, mas um convite do Sesc Itaquera para ministrar uma palestra nos fez “viajar para Itaquera”, viajar literalmente, pois percorremos quase 90 quilômetros para ir e voltar.

O convite do SESC, que tem um trabalho pioneiro e legitimado com a população idosa, apresentou-se como um desafio e um incentivo, uma experiência na qual sentimos reconhecimento pelos projetos que temos desenvolvido.

A palestra “Memória e Envelhecimento”, atividade por nós desenvolvida no Sesc Itaquera -situado ao lado do Parque do Carmo, na zona leste da cidade, e que é lindo! - aconteceu no dia 27 de abril, e fazia parte de uma atividade para a qual vários grupos de idosos da cidade foram convidados.

Como as atividades não tinham inscrições prévias, não podíamos prever o número de idosos, mas, pela nossa prática com grupos de idosos, acreditávamos que mais do que uma palestra seria interessante propor uma dinâmica teórica-prática, a fim de trabalhar os conceitos de memória a partir da própria vivência dos idosos. O ponto de apoio foi nossa experiência com a oficina de memória (auto) biográfica Conversando com idosos: o registro das memórias vivas que temos realizado há um ano, com sucesso, no Grupo Vida Barueri. Assim como tem acontecido neste grupo, tivemos o objetivo de tornar o encontro um momento de intercâmbio de narrativas e saberes.

Foto/Rita Amaral

Nesse dia, tivemos a participação de aproximadamente 70 idosos e a oportunidade de deixá-los experimentar a força advinda da memória coletiva[1], mesmo entre pessoas que nunca haviam se visto. Inicialmente, em pequenos grupos, trabalhamos em torno de um tema comum - a cidade de São Paulo -, sobre o qual os participantes evocaram suas lembranças; depois, em plenária, os idosos porta-vozes dos grupos, relataram o resultado da reflexão sobre o tema proposto. Para ilustrar, e melhor esclarecer como se desenvolve o trabalho com a memória autobiográfica – afetiva e social -, apresentamos um DVD com uma matéria da jornalista Neide Duarte que foi exibido na TV Cultura em 2003.

No documentário a idosa entrevistada apresenta seu acervo de memórias familiares e da cidade de São Paulo, e é o que denominamos a história viva, na voz de seus cidadãos   Finalizamos nossa atividade com a leitura e distribuição do texto “Sobre memórias”[2] de Rubem Alves.

A seguir, trazemos trechos das reflexões dos participantes a respeito das mudanças ocorridas em torno dos bairros periféricos da cidade de São Paulo onde residem, e que se desenvolveram muito nos últimos 30 anos.

“Por volta de 1954 viemos minha irmã e meus irmãos para o Bairro de Itaberaba que é sub-distrito da Freguesia. Não tinha nem escola. A capela era uma igreja muito pobre, não tinha praça. Agora está uma beleza, muito bonita com praças.”

“Vim para São Paulo com seis anos; meus pais e mais oito irmãos. Viemos morar no Tatuapé. Aqui crescemos. Me lembro como era, as ruas eram sem asfalto, todas de terra, existiam os bondes na Celso Garcia. Não existia fogão a gás era a carvão, não tinha geladeira, não tinha nada...hoje tudo mudou.”

“Eu Osvaldo lembro e tenho muita saudade quando eu passo na antiga estação da luz. Porque me faz lembrar muito quando eu cheguei aqui em 1973.”

Ontem, hoje e amanhã. Antes havia bondinhos, charretes, carroças que eram os meios de transporte em 1950. Hoje há um grande avanço com metrôs, ônibus, carros, táxis e etc. Só que temos outra necessidades, que esses avanços cheguem a todos os bairros e municípios...”

Foto/Rita Amaral

Ao final desta atividade, pelo envolvimento observado no grupo e nas conversas informais que se seguiram, a avaliação foi a de uma experiência positiva e mobilizadora para os idosos participantes.

Um novo projeto, que faz parte de uma reestruturação das atividades para a terceira idade do Sesc Itaquera, está sendo articulado. Tem como objetivo abrir espaço, mensalmente, para que os idosos já freqüentadores das atividades físicas do Sesc debatam diferentes temas, com a coordenação de um profissional, seguido de um chá da tarde, em um ambiente informal, seguindo a idéia de uma dinâmica mais participativa do que informativa.

Diante do bom resultado da experiência por nós realizada em abril, e acima relatada, novas possibilidades se abrem para continuidade de nosso trabalho, em uma parceria que aposta no resgate do espaço de convivência e valorização para os idosos desta megalópole chamada São Paulo.


[1] Termo proposto por Halbwchs explicitando que a inter-relação com o meio social alimenta as lembranças individuais. HALBWACHS, Maurice - “A memória coletiva” in Revista dos Tribunais. São Paulo, Revista dos Tribunais/Vértice, 1990.

[2] Rubem Alves in “O velho que acordou menino”, Planeta, 2005


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Atualizado em 22/05/2012 12:48:12