Mariana Tinêo entrevista Fernando Luiz Brunetti Montenegro(*)
O senhor tem notado um crescimento na procura de pacientes idosos pelos tratamentos dentários? Há como fazer uma comparação com dez anos atrás, por exemplo?
Sim, como as pessoas têm vivido mais anos, eles acabaram tendo contato com critérios preventivos bucais-que existem no Brasil desde a década de 50 - e assim acabam chegando com mais dentes na terceira idade e portanto precisarão do suporte de um dentista familiarizado com suas necessidades e isto é bem diferente do que ocorria a 15-20 anos atrás. Também muitos idosos estão ainda no mercado de trabalho e precisam estar bem apresentados para a manutenção de seus empregos, que complementam suas aposentadorias. Ter dentes naturais remanescentes na Terceira Idade é uma realidade cada vez mais palpável para os idosos e os cirurgiões-dentistas brasileiros.
Quais são os tratamentos mais realizados hoje em idosos?
São os cuidados periodontais e gengivais, trocas/reembasamentos de Próteses e Restaurações são os mais destacados, além do desenvolvimento do atendimento domiciliar aos idosos comprometidos de vir aos nossos consultórios com maiores opções de atuação clínica nestes pacientes debilitados.
Os tratamentos odontológicos não são baratos. Como o senhor vê hoje o acesso do paciente idoso à reabilitação bucal? Existe algum benefício do governo em relação a essa questão?
O acesso a trabalhos mais extensos tem melhorado face aos planos de financiamento parcelados disponíveis para dentistas e seus pacientes no mercado atualmente. Mas em termos de população como um todo, ainda é difícil o acesso, mas existe de forma gratuita para a 3a Idade, nos Centros de Referencia ao Idoso (IPGG em São Miguel Paulista e CRI- Norte, na zona Norte, ambos na Capital) onde diversos trabalhos - inclusive reabilitadores - são realizados para os moradores das regiões vizinhas a estes locais. Em nível Federal existe o Brasil Sorridente e o Programa de Saúde da Família (PSF), programas que por enquanto se preocuparam com adultos e crianças/adolescentes (este último através das Casas do Adolescente estaduais de São Paulo), mas breve chegarão aos idosos de um modo mais específico, certamente.
Quais os benefícios da reabilitação oral na terceira idade?
Falar em Reabilitação Oral pode dar a idéia de caras Próteses Fixas e Implantes, mas uma simples prótese total (dentadura) ou prótese parcial (pontes móveis) ou tratar suas gengivas e cáries, acabam trazendo o idoso de volta a uma melhor condição mastigatória, que vai ser a garantidora de uma boa saúde geral, que é o que o idoso mais precisa nesta fase da vida. Mastigando bons alimentos e deles obtendo os nutrientes necessários nesta fase da vida, vai poder manter uma boa condição orgânica que o ajudará a enfrentar melhor as doenças da terceira idade. Sua recomposição bucal eficiente é necessária para acabar com o esquema de sopinhas, mingaus, papinhas e cafés com leite que não o levarão a nada em termos nutricionais e de boa saúde geral que precisariam ter.
Como deve ser feito o diagnóstico nesses pacientes? Existem cuidados especiais?
O diagnóstico tem que levar em conta as doenças que o idoso possui, os medicamentos que ingere, sua condição física, o informe técnico-preventivo a seus cuidadores e as possibilidades de quem os levará por um bom tempo para tratamento nos consultórios. Sem contar os custos, bem estudados e adequados à sua realidade de vida; e a manutenção do máximo de elementos dentários naturais na melhor condição de funcionamento. Esta formação técnica é bem realçada nos Cursos de Especialização e Atualização em Odontogeriatria que começam a existir por nosso País.
O consultório de um Odontogeriatra tem que ter algumas adaptações especiais?
Sim, seria o ideal, mas o acesso às Cadeiras de Rodas, por exemplo, já aumentaria bastante o número de idosos que poderiam vir aos consultórios. Existem plantas específicas para Consultórios para esta faixa etária, mas os custos de adaptação podem inviabilizar a realização em espaços alugados ou antigos, sendo indicadas para locais próprios, novos e em clínicas junto à outros profissionais que cuidam da Terceira Idade como médicos geriatras, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, endocrinologistas, fonoaudiólogos e vários outros envolvidos no cuidado com os idosos.
O senhor vê algum tipo de dificuldade na comunicação com o paciente idoso?
Sim, elas podem existir em situações de maior comprometimento neurológico. Mas estas pessoas já devem possuir cuidadores/familiares que têm algum grau de comunicação e cuidados com eles e caberia inserir a Odontologia nestes cuidados. No dia-a-dia dos pacientes que podem ir sozinhos ou acompanhados aos nossos consultórios, o diálogo é fácil e temos de ser bem positivos e claros nas colocações, evitando “infantilizar" o idoso, pois isto é uma “agressão” à sua pessoa, mesmo que esteja aparentemente debilitado. Manter sua dignidade como pessoa é um ponto muito importante na boa comunicação com os idosos.
E para os dentistas, há algum incentivo ou estímulo pela busca de capacitação técnica em Odontogeriatria?
A Odontogeriatria, como cadeira universitária oficial, curricular, existe em não mais de 6 ou 7 Faculdades no Brasil, quando deveria ser obrigatória em todas por termos uma população de idosos crescente de 1 a 1,5% a cada ano e dentistas sem a mínima formação específica a eles. Em 2050, projeta-se existirem 30 milhões de idosos no Brasil, mas quantos dentistas com formação dirigida existirão, se não existe a cadeira obrigatória em suas Faculdades de Graduação? Cursos de Especialização e de Atualização em Odontogeriatria acabam assim tendo uma fatia muito reduzida de profissionais os fazendo, quando os dentistas mais jovens, pensando muito além de implantes e estética atuais, deveriam se preocupar com esta crescente fatia de futuros pacientes que estarão técnicamente desassistidos se os cirurgiões dentistas não se preocuparem especificamente desde já.
Muito há que se comentar e esclarecer sobre este assunto e mais entrevistas como esta precisam ser realizadas e divulgadas à população como um todo.
(*)Mariana Tinêo - Jornalista da Revista Dentistry- Brasil. E Fernando Luiz Brunetti Montenegro – Mestre e Doutor pela FOUSP, Coordenador Curso Especialização em Odontogeriatria da ABENO, SP. Responsável Saúde Bucal no CEDPES e Casa Ondina Lobo. E-mail: fbrunetti@terra.com.br
*Versão integral do editado na Revista Dentistry Brasil 3(27):12-14,Novembro 2010.
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