Dr. Fernando Montenegro, como está o mercado da Odontogeriatria e quantos profissionais atuam no Brasil?
R:O mercado ainda está iniciante no Brasil,apesar da área existir há mais de 50 anos nos EUA e Europa , porque só foi oficializada como especialidade odontológica pelo CFO em 2001 e não é, infelizmente, presente como Disciplina Obrigatória nos Currículos mínimos das Faculdades de Odontologia brasileiras. Segundo o Site do Conselho Federal de Odontologia (em Maio/2006) existem cerca de 150 Especialistas registrados mais cerca de 90 futuros Especialistas cursando por todo o Brasil,mas a população de idosos cresce por volta de 650.000 pessoas por ano e hoje já são cerca de 18 milhões de pessoas,ou seja, 9% de toda a população brasileira. O mercado, numericamente, parece ser promissor, mas não devemos nos esquecer do achatamento econômico da classe média e que quase 70% dos idosos brasileiros recebem benefícios da Previdência de até 01(hum) salário mínimo....
Para ser um odontogeriatra, como o profissional deve fazer ? Existem Cursos de pós-graduação?
R: Sim, todos são de Pós-Graduação, mas cada tipo de características específicas. Ele pode fazer um Curso de Especialização, na média, por 18 meses, em Entidades com cursos reconhecidos pelo CFO/MEC,que lhe darão direito a um diploma e especialidade amparados por lei. Normalmente têm Clínica na maior parte da carga horária e muitos são em finais de semana,para não impedir o trabalho de consultório de forma marcante. Existem muito poucos(2 ou 3 no máximo) Cursos de Mestrado na área, mas como todos os Mestrados,estes são voltados para professores e a vida acadêmica.Devem ser aprovados pelo MEC/CAPES para terem valor posterior.A duração é de 24 meses em média. Mas também existem Cursos de Iniciação/Atualização, com prazo menor, por volta de 4 meses, em diversas entidades odontológicas, a maioria no Estado de São Paulo, mas vê-se informes destes cursos básicos por todo o Brasil. Ou seja, o Profissional que desejar se informar sobre a área, rápida ou profundamente, tem muitas opções.
Quais as principais ocorrrências na saúde bucal dos pacientes geriátricos?
R: Na realidade brasileira, são as lesões decorrentes de próteses desadaptadas e/ou por má higienização de toda a cavidade bucal bem como lesões brancas variadas,pensando no global da população.Dentre aqueles que tiveram acesso à uma odontologia mais consistente por toda a vida no Brasil,ou para idosos dos países mais ricos ou com melhor atuação preventiva odontológica, o quadro envolveria doença periodontal/gengival,cáries e as diversas conseqüências bucais da xerostomia(diminuição do fluxo salivar),muito comum em quem toma muitos medicamentos como os idosos ou sofre/sofreu terapia anticancerígena.
A interação medicamentosa é um dos problemas mais sérios no atendimento destes pacientes ?O Cirurgião-Dentista (CD) está preparado para enfrentar esta situação? Quais as dicas que o senhor daria?
R: Cerca de 70% dos medicamentos normalmente ingeridos pelos idosos - e que têm, em média, cerca de 4 a 5 patologias diferentes na sua saúde geral - causam repercussões por toda a boca destes , que vão desde maior números de cáries(e não só as de raiz),como maior incidência de problemas periodontais , incômodo(e abandono) do uso de próteses,associação com controle da diabetes ,hipertensão , pneumonias aspirativas para pacientes acamados ou debilitados e participação ativa em quadros de desnutrição só para citar alguns dos problemas da interação dos medicamentosa na 3a Idade e seus graves efeitos colaterais .O CD , não afeito à área , não está muito preparado para ir ao fundo da questão(pois não teve informes específicos sobre isto nos bancos universitários) ,só tratando das conseqüências clínicas de maior incidência que são as caries e doença nas gengivas mas sem se ater às verdadeiras causas do que está tratando clinicamente. Relacionar os medicamentos ingeridos pelo paciente,discuti-los com seus médicos, estabelecimento de medidas preventivas odontológicas eficientes(e que o paciente ou cuidador possa realizá-las com sucesso) podem ajudar a minimizar os destacados quadros clínicos odontológicos observados na 3a idade.Mas são medidas que o CD clinico geral conhece desde a Faculdade,só que devem ser mais incisivos na aplicação prática pelos pacientes nesta faixa etária.
O odontogeriatra deve conversar com o geriatra/ os médicos dos pacientes?
R: Com certeza absoluta SIM ! Este intercâmbio é fundamental para solucionar os casos de ambos os profissionais e deve envolver também todo o corpo de Enfermagem e cuidadores no ambiente hospitalar , asilar e domiciliar . Dr. Wilson Jacob Filho, Prof. Titular da Faculdade de Medicina da USP, deixa isto muito claro:” Na Terceira Idade, nenhum profissional tem destaque sobre os demais : todos devem estar irmanados no auxílio aos pacientes” e não deixa de incluir os dentistas entre estes profissionais..... O CD precisa se acostumar a este contato interdisciplinar,que é muito mais profundo que a famosa cartinha“ favor usar anestésico sem vasoconstrictor ” que vemos adentrar costumeiramente junto com os pacientes em nossos consultórios. O diálogo interprofissional é primordial na 3a Idade!
Existe algum preconceito da Classe com a Odontogeriatria?
R : Como ,infelizmente , a Odontogeriatria não é ensinada na maioria das faculdades brasileiras – também pelo imenso corte funcional que têm feito nos últimos tempos- as novas e antigas gerações de dentistas pouco sabem desta fascinante área da Odontologia e muitos CDs que encontro nos Cursos que ministro pelo Brasil (e já são mais de 130 até hoje ) se pregam nos seguintes chavões: “odontogeriatria? É só colocar dentaduras nos velhinhos”, “pra que tratar os dentes se vão perdê-los com o passar dos anos ?”. Só para citar dois dos mais comuns “chavões”... Ambos não correspondem em nada à Odontogeriatria que conheço e estudo e que é também aquela praticada nos países mais desenvolvidos do Mundo. Sobre o 1opreconceito ,o nível de edentulismo tem caído em todo a Terra e no Brasil,mesmo com suas imensas carências na área de saúde, mais e mais pessoas chegam à 3a idade com dentes naturais seus e que vão precisar de intervenções clínicas muito diferentes de próteses totais(“dentaduras”). É isto que vemos nos pacientes idosos de consultório e na clínica dos Cursos de Especialização (mas é claro, existem muitas próteses totais a fazer,pois os pacientes não as revisam por 15/20/30 anos e, quando chegam aos nossos olhos, estão em péssimo estado bucal e facial...). Considerando agora o 2o ponto,é vital ponderar que nenhum de nós dentistas aprendeu que os dentes inevitavelmente vão se perder com o passar dos anos. Eles SÓ se perdem por falta de controles constantes,de revisão periodontal,de cáries,de oclusão e do estado das próteses que os pacientes possuem. A Prevenção tem resultados práticos REAIS-como se vê em todo o Mundo desenvolvido- e não podemos esquecer que as pessoas de 80,90,100 anos de hoje nunca tiveram contato com a Odontologia Preventiva, que só desabrochou no Brasil lá pelos anos 60/70 do século passado. Os pacientes destas idades NÃO tiveram formação preventiva e cabe à nós ensina-la e é muito gratificante um idoso nos falar: “puxa, doutor, fui em dentistas por toda a minha vida(sic.) e só com o sr. vim a aprender como se cuida da boca e me sinto muito melhor com meus dentes hoje que nos últimos 20/30 anos!“. E não precisa ser um Odontogeriatra para ouvir isto: basta ser mais incisivo com medidas preventivas ao tratar dos adultos e dos mais idosos. Você vê nos crânios de homens pré-históricos que os dentes e osso de suporte estão lá há mais de 40,50,200.000 anos que faleceram...dentes bem cuidados duram bem mais que os 120 anos que podemos viver! Por isto, abaixo os preconceitos sem sustentação e mãos à obra: há MUITO o quê fazer pela condição bucal dos idosos brasileiros!
Quais as dicas que você daria para quem participa deste público diferenciado?
R : Primeiro:pensar nele como um ser humano único e JAMAIS como alguém que retornou à infância. Eles estão sedentos de saber coisas ( e as “nossas coisas” ele não sabe ainda!). Segundo: faça excelente anamnese,com perfil de medicamentos e converse com os médicos dos pacientes:você vai se espantar como eles estão receptivos ao diálogo e é disto que os pacientes idosos precisam. Depois: pense simples,ou seja, não busque opções reabilitadores de difícil higienização se o paciente tem (ou vai ter breve,para muitos) um problema de coordenação motora, mas isto não quer dizer extrair e fazer próteses totais ou remover dentes bons(ou só com pequenas cáries) para colocar implantes! Ouça o paciente: ele tem uma história de vida riquíssima e que é diferente daquela da sua família.Marque um tempo longo para o idoso e deixe ele se soltar que você, seja de que idade for, tem muito a conhecer de um mundo que não viveu (porque nem era nascido,muitas vezes!). Isto cria uma intimidade ,cooperação e uma fidelização fantásticas! Estude,aprofunde-se: existem inúmeros cursos de iniciação/aperfeiçoamento e de especialização na área atualmente e um mundo clínico novo pode se descortinar para você: basta você querer!
Os planos de saúde cobrem as despesas com a odontogeriatria?Você pode comentar este fato?
R : A grande maioria dos Planos de Saúde(Convênios) não cobrem a Odontogeriatria ainda ,por ela ser muito recente,mas deveriam começar a pensar neste importante segmento,que pode render muitos clientes entre os funcionários antigos e aposentados das empresas a que dão cobertura médica/odontológica aos mais jovens . Mas capacidade comprovada,titulação e disposição REAL dos profissionais credenciados devem ser checadas antes de serem credenciados . Também uma tabela de procedimentos e valores de repasses que contemplem a realidade da Especialidade devem ser postas na mesa de discussões e não simplesmente transferir a tabela de outras faixas etárias para os dentistas que queiram atender aos idosos filiados. Especialmente uma atenção com todos os procedimentos de prótese , para que os credenciados em Odontogeriatria possam usar bons protéticos,com conseqüente , satisfação maior dos CDs e dos pacientes idosos .Mas todas as áreas de Clínicas Odontológicas devem se fazer presentes também,para chegar a bom termo de um plano de tratamento abrangente para a 3a Idade.
Vejo que o Sr. se preocupa muito com a higiene da língua e o limpador lingual está sendo bem aceito pelos idosos?
R : O limpador lingual é um importantíssimo meio de higiene bucal na 3a idade e deve ser aplicada em todos os idosos(a não ser daqueles muito debilitados em hospitais,para os quais existem outras opções,como o higienizador lingual).Ele ajuda indiretamente,mas seu poder não pode ser desprezado, em 3 pontos vitais entre os idosos: Controle da Hipertensão: como ele chega mais longe e sem a ânsia das escovas de dentes tradicionais ,limpa as papilas gustativas melhor,permitindo que evitem colocar sal em excesso na sua dieta; na Diabetes,elo mesmo motivo, só que pelo açúcar ingerido e na eliminação da saburra lingual, um verdadeiro criadouro de bactérias patogênicas para o pulmão, agindo na prevenção de pneumonias,que é uma das maiores causas de óbitos em idosos acamados (bem como as duas doenças acima). E por fim, mas não menos importante, ajuda a diminuir as bactérias bucais causadoras do mau hálito, que levam a um embotamento social do idoso(e depressão com o passar do tempo). São motivos de sobra para se usar os limpadores/ higienizadores linguais nos idosos! (e nas outras faixas etárias também...). Como diversos outros meios de higiene bucal complementares,ele é pouco conhecido e usado pelos idosos- normalmente é indicado por poucos CDs-, mas uma crescente indústria(mais de 15 empresas no Brasil) vem buscando colocar seus produtos nos pontos de venda e um dia os higienizadores bucais vão assumir seu papel junto à escova de dentes e o fio dental, na tarefa comunitária mais nobre que a Profissão tem que é a Prevenção!
Por conversas prévias a esta matéria, soube que muitas são as opções protéticas para se reabilitar um paciente idoso, mas gostaria que o sr. falasse agora sobre os implantes em particular: o implante dentário é uma boa solução para os pacientes idosos? Podemos fazer próteses que se apóiem em dentes naturais e implantes numa peça única?
R: Os implantes são uma ótima opção restauradora das funções bucais, mas seu custo ainda é proibitivo para grande parte dos brasileiros.Mas como existem muitos cursos de implantes, uma boa parcela da população tem sido atendida neles. Na 3a Idade são um excelente meio reabilitador,mas tendem a estar associados às próteses totais, na forma de sobredentaduras, de custo bem mais acessível.Mas um grande problema em sua aplicação nos idosos está relacionada às condições de saúde atuais deles que podem impossibilitar uma boa técnica cirúrgica e uma previsibilidade de sucesso como o alcançado em outras faixas etárias.Este é um ponto VITAL na indicação dos implantes na 3a idade e tudo passa pela profunda anamnese com destaque para o real histórico médico dos pacientes. Conversar com os médicos deles é mais importante ainda. Sobre unir implantes aos dentes naturais devo salientar: os implantes têm um sistema de fixação ao osso semelhante a uma anquilose ,que não permite qualquer movimentação(entenda-se amortecimento) quando se mastiga um alimento.Os dentes naturais não são assim tão rigidamente fixados ao osso – e sim presos por inúmeras fibras colágenas/elásticas à ele - por isto cedem até 0,2mm quando sofrem uma carga de mordida. Por isso, unir implantes aos dentes naturais em peça única, não é adequado, pois com o passar do tempo, um dos 2 suportes vai se perder (ou ambos) pois um sofre flexão(dente) enquanto o outro é rígido (implante) . A regra deve ser sempre: “dente é dente, implante é implante” e não podem se misturar. Num primeiro momento tudo parece que deu certo, mas com o passar dos anos a frustação do CD e ainda mais do paciente idoso poderão ser enormes. E como as pessoas estão vivendo mais, a chance disto acontecer é bem factível e aí o paciente pode não ter condições de saúde geral para fazer os enxertos para repor o osso perdido e não poder receber qualquer prótese convencional ou implanto-suportada, com profundas repercussões na sua nutrição, inserção social, qualidade de vida e até sobrevida....
Quantos pacientes que o senhor atende e este atendimento demora, em média, mais do que os outros?
R: Para um bom atendimento aos idosos,cerca de 4 pacientes/dia seria uma média razoável, intercalando-os com outros adultos e jovens,para que pudéssemos manter uma produtividade semanal adequada aos nossos significativos e crescentes custos fixos. Como dito anteriormente, é preciso dar carinho,atenção maior aos idosos,mas tratando-os com o respeito que merecem e isto, com certeza,torna o atendimento mais longo em duração horária,mas extremamente prazeiroso e também no ponto de vista de ganho humano para o profissional.
Certamente sinto que o Sr. teria muito mais a expor, mas como, infelizmente, temos um limite de espaço, gostaria que tecesse seus comentários finais, deixando o assunto em aberto para outros gostosos “papos” nossos, como foi este de agora.R: Caro Walter,concordo contigo que muito há para se falar sobre a Odontogeriatria, e suas inúmeras nuances, pois é o quê respiro no dia-a-dia de consultório e científico. Mas há muito o quê aprender e talvez só consiga chegar lá no dia do meu passamento, pois cada dia que vivemos é de uma riqueza única e acumulativa..... A Odontogeriatria é uma atividade nova e de grande potencial no nosso País e a convivência com profissionais de outras áreas de saúde,seja no ambiente clínico, hospitalar , asilar ou domiciliar gera uma guinada muito positiva em nossas crenças profissionais e pessoais.
OBS: Um resumo desta matéria foi publicado no Canal Arcoxia, periódico patrocinado pela Merck, Sharp & Dohme, na edição que circulou em Julho de 2006.
*Valter Salton Vieira - Editor-Chefe da Editora Limay. editora@limay.com.br
**Fernando Luiz Brunetti Montenegro - Mestre e Doutor pela FOUSP. Coordenador de Cursos de Especialização em Odontogeriatria. Membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia-SBGG. fbrunetti@terra.com.br
Observação: Os artigos postados nesta sessão são encaminhados
pelo Dr. Fernando Luiz Brunetti Montenegro
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