Resumo: Desde os anos 90 do século XX, nossos governantes e responsáveis pela Odontologia Brasileira já haviam tomado conhecimento das projeções populacionais para o 1o século do 3o milênio. Estes dados estatísticos colocavam, ainda no ano de 1998, que o total de idosos no Brasil era semelhante ao número de habitantes de Portugal.
Este aumento constante na quantidade de indivíduos acima de 65 anos, desde os anos 60,até o presente e tendendo a crescer ano a ano por todo este século, se deveu a uma melhora das condições de saúde da população, pelo advento de novos fármacos , criação de medidas preventivas em larga escala, aumento significativo das infra-estruturas de saneamento básico, apoio crescente da mídia impressa e falada à difusão de conhecimentos, ao mesmo tempo que houve uma maior exigência social para os trabalhos e benefícios da Odontologia Estética, somado até aos aspectos psicológicos de auto-estima por estar são, especialmente nestes tempos de uma menor interferência estatal na assistência médica.
Em que pese o fato deste aumento do números de pessoas idosas ser detectado em todo o mundo civilizado, no Brasil, ainda considerando os diversos bolsões de pobreza que ainda perduram, isto nos obrigou a fazer previsões inclusive sobre o desenvolvimento da Odontologia, pelo afluxo de clientes e de suas necessidades profissionais bastante diversas daquelas realizadas até os anos 70 e 80 do século XX.
Palavras-chave: Odontogeriatria, saúde geriátrica, gerontodontia
Com o desenvolvimento da Odontogeriatria no país, deve-se esclarecer algumas definições, muitas oriundas da Medicina. Começando com a GERIATRIA ,que vem do grego, geras: velhice, idoso e de iatréia (iatrikos):cura. Em um consenso pode-se dizer que seja a medicina dos indivíduos idosos, envolvendo aspectos médicos, psicológicos e socioeconomicos deste grupo populacional. Já a GERONTOLOGIA seria a ciência que se preocupa com o envelhecimento e suas consequências nas áreas biológica, médica, psicológica e socioeconomica.
Em nosso campo de atuação temos a ODONTOGERIATRIA , que é focada no atendimento das necessidades de prevenção, cuidados e tratamento das diversas estruturas do Sistema Mastigatório nos indivíduos de 3a idade. Dentro de seus requisitos encontra-se o planejamento e criação de normas e condutas para ações futuras.
Como sinonímias temos a Odontologia Geriátrica , Gerodontologia e a Estomatologia Geriátrica que podem ser usadas tanto como as definições acima citadas, como para unidades de Ensino curricular, conforme afirma KINA et al.(1996)(8).
Desde meados do século XX, já se notava a preocupação com os textos clássicos de ETTINGER (na Austrália, Inglaterra e USA) e SILVERMAN(USA) ( 10 ). Com estes autores era colocada a preocupação com a dieta / nutrição e as pessoas acima de 65 anos, nas quais o envelhecimento puramente biológico( senescência) era notado. Também o livro de COWDRY(1942) “Problemas do envelhecimento” abriu perspectivas de análises mais objetivas e científicas sobre o processo de envelhecimento ( 7 ).
Durante os anos 60 e 70 do século passado o interesse com a Odontogeriatria foi crescendo em toda a comunidade odontológica mundial ,já que os indicadores demográficos, somados às reais melhoras de condição de vida, desde o nascimento, durante a fase adulta e também em idades avançadas (ao menos nos países desenvolvidos) mostravam um crescimento real e consistente das pessoas de 65 ou mais anos de idade, fazendo-se prever que no ano de 2020, no Brasil, existirão mais de 36 milhões de pessoas nesta faixa etária(6).
Este fato causou preocupação às entidades mais representativas da Odontologia Mundial, a saber: American Dental Association (1986) ( 1 ) e a Fédération Dentaire Internationale (1987) ( 5 ) cujos relatórios anuais e/ ou editoriais mostravam naquela época a real necessidade de um enfoque específico para os tratamentos para pacientes de 3a idade, muito mais avançado dos que eram até então realizados ou ao menos proposto.
Em termos de histórico, os primeiros trabalhos sobre os idosos os colocavam como institucionalizados ou não, dependentes ou não (de pessoas para lhes ajudar a deslocar para atendimento) ficando os demais idosos- que estivessem gozando de boa saúde física e economica- excluídos dos estudos até então realizados.
Estas características da nova população de 3a Idade- capacidade física de locomoção para atendimento( por cuidados de saúde geral mais eficientes durante a vida) e uma melhor condição financeira( face à um crescimento da classe média somada à um decréscimo dos custos dos tratamentos odontológicos - ampliando benefícios preventivos para um maior número de habitantes) acabaram por gerar opções de tratamento odontológico mais abrangentes para esta faixa etária e que hoje são as mesmas propostas para as pessoas de meia idade, apenas adequando-as às condições específicas dos indivíduos atendidos nos ambulatórios de universidades e consultórios particulares.
Também o ambiente universitário sentiu a necessidade de adequar os alunos para esta realidade e deve-se citar o esforço pioneiro da Universidade de Iowa (anos 80)( 8 ) , com ETTINGER‑( 4 )(Austrália ,Inglaterra e USA) e o excelente trabalho de KINA e CONRADO( 8 ) de introdução da Disciplina de Odontogeriatria no currículo da Universidade Estadual de Maringá (BRASIL),nos anos 90, uma atitude ainda não realizada pela maioria das Escolas de Odontologia brasileiras nos dias de hoje, o quê consideramos como uma falha curricular grave a ser sanada nos bancos universitários.
Ainda no Brasil, é importante citar os trabalhos de TOMMASI(11) em livros odontológicos diversos (anos 70,80)e do espaço obtido junto à área médica por BRUNETTI , MONTENEGRO e MANETTA(anos 90)( 2,3 )e a abertura pela Internet dada por DUNKERSON e CORMACK. Deve-se louvar o esforço, desde o início da década de 80,da série interdisciplinar de matérias sobre a Geriatria e a Odontogeriatria existente nos cadernos da 3a idade publicados pelo SESC ( 9 ).
Com certeza, muitos outros autores foram esquecidos de serem citados neste breve histórico e desde já nos desculpamos por eventuais falhas, mas é preciso que seja considerado o ineditismo do tema no país, bem como a grande dispersão de matérias científicas por revistas odontológicas, médicas e pela Internet ,tornando bastante difícil um levantamento completo sobre o assunto. Também relevar pelo fato da data em que esta matéria foi escrita e sua efetiva colocação para o mercado odontológico.
A complexidade do tratamento dos pacientes idosos envolve tanto aspectos técnicos- mudanças/alterações das estruturas dentárias e do Sistema Estomatognático, como conhecimentos de aspectos médicos diversos associados à idade e as devidas e vitais interações medicamentosas imiscuídas no tratamento.
Também o diálogo com o(s) médicos(s) e familiares dos pacientes de 3a idade busca a obter dados não facilmente conseguidos na(s) entrevista(s) com eles. Isto reforça a idéia da necessidade de um conhecimento mais abrangente do paciente e seu meio, para daí poder estruturar um plano de tratamento condizente com a necessidade e realidade do paciente. Somado a isto temos aspectos psicológicos e subjetivos que são de grande importância no sucesso final dos casos, mas que sua especificação neste momento seria muito extensa, recomendando a leitura dos artigos de l998 de BRUNETTI et al.( 2,3 ) , para uma compreensão mais abrangente destes
A fundamental integração entre a Odontologia e a Medicina é particularmente notada na Odontogeriatria, já que caberá ao Cirurgião-Dentista buscar um aumento considerável nos conhecimentos sobre as doenças e medicações voltadas à 3a idade, cujo direcionamento não ocorria nos cursos de Graduação do século passado , já que o paciente desta faixa etária pode ser considerado, na maioria das vezes, crítico em termos de saúde geral, devendo o CD integrar as informações sobre pressão arterial, diabetes, problemas de postura física bem como os psicológicos dentre outros inúmeros que devem fazer parte do arcabouço técnico abrangente daqueles que se propõem a atender pacientes da 3a idade.
Os profissionais de Medicina precisam reconhecer suas limitações na área odontológica: longe das disputas da CTBMF no século XX , é preciso uma conjugação de forças e conhecimentos para ambos poderem dar o máximo no tratamento integral do paciente. Ambos podem aprender muito se conjugarem esforços constantes.
Nos atuais currículos de Graduação e Pós-Graduação deve-se procurar a inserção e aprendizado prático sobre a Odontogeriatria, para a criação de profissionais capacitados a atender com dignidade e conhecimento esta crescente faixa populacional( 8 ). As entidades de aperfeiçoamento profissional devem liderar este movimento criando e dando constância a cursos sobre Odontogeriatria, não como uma curiosidade da profissão e sim como uma das realidades mais palpáveis na crítica condição de clínica particular no final de século e início deste novo milênio, inclusive com a complementação médica e clínica imprescindível.
Este modesto exercício de futurologia nos permite pensar que a Odontogeriatria é a grande demanda de trabalho nos anos vindouros no mundo todo e notadamente no Brasil. As medidas preventivas aceitas e praticadas pela Odontologia e populações , levam a uma diminuição da prática curativa em ,por exemplo, odontopediatria e outras áreas de maior intervenção clínica, com um crescente aumento para a Periodontia básica-de remoção e controle de placa bacteriana e suas consequências- em idosos, levando-se em conta a menor habilidade no manejo de instrumentos de higienização nessa fase da vida, cabendo ao profissional dotar os pacientes de instrumentos que lhes dêem grande eficiência de limpeza com as restrições de manuseio que possuam, enquanto que os pacientes na sua melhor forma física e memtal devem receber o máximo de informações e aparatos eficientes disponíveis na atualidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1) AMERICAN DENTAL ASSOCIATION. The future of ADA,J.Amer.Dent.Assoc.v.113,n.3,p.374- 9, Sept. 1986.
2) BRUNETTI,R.F.;MONTENEGRO,F.L.B.;MANETTA,C.E. Odontologia geriátrica no Brasil e a realidade Atual.Geriatr. v.3,n.l5,p.26-9,Mar 1998.
3)BRUNETTI,R.F.;MONTENEGRO,F.L.B.;MANETTA,C.E. Funções do sistema mastigatório e importância no processo digestivo.Atual.Geriatr.v.3,n.16,p.6-9,Abril 1998.
4) ETTINGER,R.L. Diet,nutrition and mastigatory ability in elderly patients. Austr.dent.J. v.18,n.1,p.12-19, Feb.1973
5) FÉDÉRATION DENTAIRE INTERNATIONALE. Oral needs of the elderly, FDI report,Amsterdan.1987.
6) INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA.Projeções preliminares de população 1980-2020,Departamento de projeções estatísticas,Março 1995.
7) KAMEN,S. et.al. Perception of dental needs in the well elderly,Spec.Care Dent. V.2,n.4,p.161-4,Jul-Ago, 1982.
8) KINA,S;CONRADO,C.A. O ensino da Estomatogeriatria no Brasil. Ver.Odontol Univ.São Paulo v.10,n.1 p.69-73,Jan/Mar 1996.
9) SESC- Serviço Social do Comércio, Cadernos da Terceira Idade,diversos volumes,São Paulo,1982
10) SILVERMAN,S. Geriatric and tissue changes J.Prosthet.Dent. v.8,n.5,734-739, Sept/Oct.1958.
11) TOMMASI, A F. Estomatologia geriátrica, Diagnóstico em Patologia bucal, Medisa, São Paulo,1977 p.493-499.
(*) Prof. Emérito UNESP, Doutor pela Faculdade de Medicina da USP,Ex- Diretor da EAP da APCD-Central, Consultor em Odontogeriatria,Criador do COAT, da F . O . São José dos Campos-UNESP
(**) Mestre e Doutor pela FOUSP,Coordenador de Curso de Especialização em Odontogeriatria na ABENO-SP, Diretor Departamento de Vídeo APCD
Nota dos autores:
Como publicado no livro: A Odontologia no Brasil durante o século XX,Rosenthal,E.,São Paulo, Livraria Santos,2001, p.215-218. Esta matéria foi escrita em Agosto de 1998, para inclusão no Anuário 2000 do Instituto Museu da Odontologia de São Paulo que , de fato, só veio a ser publicado em 2001,por isto alguns fatos pertinentes à Odontogeriatria do período 1999-2001 não se encontram presentes no texto.Foi uma grande honra ter atendido à solicitação do deligente colega Elias Rosenthal, que brindou a Classe com o excelente Museu da APCD, que fica no 1o andar da Sede Nova da APCD-Central e que merece sua visita.
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