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Os preconceitos no tratamento com próteses dos idosos portadores de doenças mentais


A média de idade do ser humano vem rapidamente aumentando em todo o globo, apresentando novos desafios ao tratamento odontológico, muitas vezes relacionados com os não raros problemas neurocognitivos presentes no idoso (CHIAPPELLI et al.¹, 2002). 01/09/2010 - por Stefano Frugoli Peixoto, Luciana Cassimiro e Fernando Luiz Brunetti Montenegro na categoria 'Odontogeriatria'

Introdução

A média de idade do ser humano vem rapidamente aumentando em todo o globo, apresentando novos desafios ao tratamento odontológico, muitas vezes relacionados com os não raros problemas neurocognitivos presentes no idoso (CHIAPPELLI et al.¹, 2002).  O ideal seria sempre proporcionar saúde juntamente com qualidade de vida, uma vez que estão inter-relacionadas (FONSECA; PAÚL³, 2007).  Infelizmente, a óptica     com a qual muitas vezes a sociedade ocidental enxerga a velhice pode influenciar na nossa conduta profissional.  Vicente Faleiros (UCB), em 2008, afirma que a sociedade crê “que os idosos estão fora de época, de lugar e, por isso, são incapazes e vistos como descartáveis”.  Neste mesmo ano, Isolda Günther (UnB), apregoa que devemos “deixar de entender a velhice como um momento de perdas e inutilidade”. Esta visão, muitas vezes negativa, e partilhada freqüentemente pelo próprio idoso, pode ser incrementada se o paciente geriátrico possuir, ainda, uma doença mental (SPADINI; SOUZA¹º, 2007; GONÇALVES7, 2008).

Apresentaremos a seguir um caso clínico no qual foi observada a aparição de preconceitos tanto por parte da equipe odontológica como da cuidadora em relação às observações externadas pela paciente.

Relato do caso clínico

Paciente S.E.D., sexo feminino, raça latina, 63 anos, procurou atendimento odontológico no Centro de Referência do Idoso “José Ermírio de Moraes” (CRI – Leste), acompanhada de sua irmã e cuidadora D.E.D., almejando confeccionar uma Prótese Total (PT): superior e inferior.

Na anamnese, a acompanhante relatou que a paciente portava esquizofrenia, fazendo inclusive uso contínuo de risperidona, medicamento antipsicótico e neuroléptico.  A paciente disse estar sem usar suas próteses há cerca de dois anos, relato desmentido pela cuidadora, que retificou o lapso de tempo para 25 anos.

A confecção das PTs (que seriam muco suportadas, o tipo comumente confeccionado neste local) durou aproximadamente dois meses (de 6/08 a 8/10/2008), quando foram entregues à paciente.  É importante notificar que, durante as consultas, a paciente “falava sozinha” constantemente.

Na consulta seguinte, realizada uma semana depois, a paciente queixou-se que a PT superior estava “machucando”.  Ao ser indagada onde seria, retirou-a da boca e apontou com precisão e rapidez as regiões de freio labial superior e de bridas laterais superiores, atitude incomum na maioria dos idosos usuários deste serviço de prótese.  A idéia primeira sobre a queixa foi, tanto do nosso ponto de observação quanto da cuidadora, desta ser improcedente, devido ao estado mental da paciente.  A despeito disto, pedimos para ela repetir suas queixas, exigência que ela atendeu prontamente, com mesma exatidão e velocidade anteriormente observadas.

Efetuamos logo a seguir um desgaste nas regiões apontadas.  A paciente, então, ao colocar novamente a PT superior, afirmou que a peça tornou-se confortável.

A mesma faltou nas duas sessões subseqüentes, retornando apenas em 9, 21 e 28 de janeiro de 2009.  Nestas últimas datas, a paciente reclamou pontos de incômodo desta vez na PT inferior.

A reclamação quanto à superior passou apenas à referência que “a de cima junta muito cuspe” (sic).

Neste mesmo mês, encaminhamos S.E.D. para o setor de Psicologia Clínica do CRI – Leste, que constatou, entre outras características da paciente, desorientação temporo-espacial, atenção e concentração rebaixadas, embotamento afetivo, percepção delirante, pensamento e discurso desorganizados, ilusões intensas, incoerência ideoverbal, nos fornecendo o setor acima uma hipótese diagnóstica de esquizofrenia indiferenciada.

Considerações finais

A estigmatização social da loucura leva não raro à formação de preconceitos.  Não necessariamente um portador de doença mental terá um QI menor do que uma pessoa mentalmente saudável no contexto daquela comunidade.  Yellowitz¹² (2005) nos aconselha a atentar para o reconhecimento de alterações cognitivas em idosos, e Tibério et al.¹ (2006) chegam a sugerir o uso de avaliações do nível de depressão ou demência do paciente como auxílio do plano de tratamento.

É imprescindível ao Odontogeriatra e para o clínico geral que trata de idosos o contato com outras áreas.  A multidisciplinaridade num enfoque interdisciplinar faz-se mister para todos os que trabalham com Gerontologia, otimizando o resultado final do tratamento (MONTENEGRO et al.7, 2002; DURSO², 2005; PADILHA et al.8, 2006).  A orientação e a troca de informações em relação aos cuidadores e/ou à família é igualmente importante: eles estão em contato com o paciente por muito mais tempo do que o cirurgião-dentista.  Existem diversas associações, inclusive no Brasil, que procuram, por meio de palestras e outras atividades, englobar no tratamento os familiares de portadores de transtornos mentais (SOARES9, 2008).

Cremos que o cuidado sugerido por Durso² (2005) em relação a manter-se em contato com outros profissionais é válido, mas também é importante não desviarmos o foco da nossa capacidade técnica particular, ou seja, odontológica.  Talvez déssemos maior valor às reclamações de S.E.D., se focalizássemos a PT confeccionada, e não o comportamento psicossocial da paciente.

Marchini et al.5 (2000) ressaltam a necessidade do acompanhamento do paciente após a conclusão do tratamento, comumente negligenciado não só pelos profissionais, mas também pelos pacientes.  Lesões na fibromucosa podem ocorrer em usuários de PT, tornando importante o controle profissional do trabalho, muitas vezes realizando constantes pequenos ajustes.  Aliás, lesões nos tecidos moles podem ocorrer mesmo em usuários de PTs bem adaptadas (MONTENEGRO et al.6, 2007).

Finalizando, acreditamos serem a técnica e os conhecimentos específicos de extrema valia, e se constituem em instrumentos que serão potencializados pela interdisciplinaridade, agindo sinergicamente no cuidado da saúde global do paciente, na tentativa de proporcionar uma melhor qualidade de vida.


Fig. 1: Paciente sem as próteses totais (vista frontal).

Fig. 2: Paciente com as próteses novas (vista frontal).



Fig. 3: Paciente sem as próteses em vista lateral.


Fig. 4: Paciente com as próteses novas (vista lateral).








Fig. 5: Vista interna das próteses novas, mostrando boa fidelidade de ajuste e acabamento.


Referências bibliográficas

CHIAPPELLI, F. et al. Dental needs of the elderly in the 21st century.  General dentistry, v.50, n.4, p.358-63, 2002.

DURSO, S.C.  Interaction with other health team members in caring for elderly patients.  Dent Clin N Am, v.49, p.377-88, 2005.

FONSECA, A.M.; PAÚL, C.  Saúde e qualidade de vida ao envelhecer: perdas, ganhos e um paradoxo.  Geriatria e Gerontologia, v.2, n.1, p.32-7, 2008.

GONÇALVES, M.G.M. Um olhar sobre o envelhecimento.  Jorn Cons Fed Psico, v.21, n.91, p. 3, 2008.

MARCHINI, L. et al. Próteses totais: orientações e cuidados posteriores. Rev EAP/APCD São José Campos, v.1, n.2, p.14-8, 2000.

MONTENEGRO, F.L.B.; MARCHINI, L.; BRUNETTI, R.F. Aspectos importantes na prótese total para a 3ª. Idade. In: CUNHA, V.P.P.; MARCHINI, L. Prótese Total Contemporânea em Reabilitação Oral.  São Paulo: Ed. Santos, 2007, p.177-94.

MONTENEGRO, F.L.B.; BRUNETTI, R.F.; MANETTA, C.E.  Aspectos psicológicos no atendimento do idoso.  In: BRUNETTI, R.F.; MONTENEGRO F.L.B. Odontogeriatria – Noções de interesse clínico. São Paulo: Artes Médicas, 2002, p.71-84.

PADILHA D.; HILGERT J.B.; HUGO, F. Saúde bucal.  In: FREITAS, E.V. et al. Tratado de Geriatria e Gerontologia. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan, 2006, p.1189-96.

SOARES, J.  Engajamento da família é fundamental.  Metrô News, v.7, n.327, p. 14, 2008.

SPADINI, S.S.; SOUZA, M.C.B.M.  A doença mental sob o olhar de pacientes e familiares.  Rev esc enferm USP, v.40, n.1, p.123-7, 2006.

TIBÉRIO, D.; FERRARI, F.L.; SANTOS, M.T.B.R. Instrumentos avaliativos para o atendimento odontológico aos pacientes geriátricos.  Rev Assoc Paul Cir Dent, v.60, n.5, p. 362-5, 2006.

YELLOWITZ, J.A.  Cognitive function, aging, and ethical decisions: recognizing change.  Dent Clin N Am, v.49, p.389-410, 2005.

________________________
*Stefano Frugoli Peixoto - Cirurgião-dentista do CRI-Leste, Especialista em Odontogeriatria, Mestrando em Saúde Coletiva pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. stefanofrugoli@ig.com.br
Luciana Cassimiro - Psicóloga do CRI-Leste, Gerontóloga, Especializanda em Neuropsicológica pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. 
Fernando Luiz Brunetti Montenegro
- Mestre e Doutor FOUSP, Prof. Adjunto UnG, Pesquisador-mentor do Portal do Envelhecimento (PUC-SP) e coordenador Saúde bucal da Ondina Lobo e CEDPES.

Como publicado na Revista da APCD-EAP, v.8, n.2, Junho 2009, ISSN-1517-4611


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