E de relevante que é tal questão, congrega ela cada vez mais pesquisadores estudando, por exemplo, o sentido da institucionalização: em ILPI, em República de Idosos, em Casas de Repouso, a moradia por opção em bairros destinados a idosos, quando não em albergues de idosos; enfim, tem-se sentidos e mais sentidos postos no Morar na Velhice. Efeitos de sentido, na verdade, pensados na relação contrapartícipe de idoso/moradia/família/companheiros/atividades. Que fazeres podem ser exercidos em casa na velhice? Quais os fazeres licenciados em uma ILPI? Quem manda em quem em uma República? Estas são algumas das problemáticas que surgem ao se trabalhar empiricamente em torno da questão da moradia na velhice.
Era um sonho da Prof.a Suzana A.Rocha Medeiros - que consegue centralizar na Geronto/PUC-SP as reflexões sobre a questão do Morar na Velhice fundadas em perspectivas bastante particulares de profissionais de diversas áreas do conhecimento - ter alguns dos "achados" das pesquisas de mestrado de seus orientandos publicados em um só Caderno Kairós Gerontologia, o de n.° 8, aqui apresentado.
E era sonho que os "achados" fossem apresentados em um pequeno Seminário pelos próprios ex-orientandos que de perto ou longe certamente viriam para tal. Para Professora Suzana, de fato, "Calam mais alto, mais fundo / As pequenas alegrias..." (Quintana, 1997).
Esse Seminário desejado foi se consubstanciar "em ato", por ocasião da 13a Semana de Gerontologia da PUC-SP, "Longevidade, Moradia e Políticas Públicas", em setembro/2011.
Neste volume 8, relativo a novembro de 2010, Professora Suzana consegue "pequenas alegrias" ao fazer ver esses trabalhos, e ainda complementados com novos sentidos trazidos pelas reflexões de orientandos de colegas seus do Programa de Gerontologia da PUC-SP, como de Beltrina Côrte e Ruth G. da Costa Lopes, que puderam também prestar seu tributo à questão ousada pela professora há tanto tempo. Este volume celebra, pois, a conquista da Professora Suzana A.Rocha Medeiros de vivenciar suas "pequenas alegrias".
Dessa forma, tem-se em (1) um artigo de título "Moradia para o idoso: uma política ainda não garantida", ou seja, a preocupação em garantir habitação com qualidade de vida à população envelhecente, de início apontando dispositivos legais que obrigam o poder publico a implantar políticas para viabilizar uma melhor qualidade de moradia à população idosa, como o programa da OMS, Cidade Amiga do Idoso e o projeto desenvolvido pela Secretaria de Habitação do Estado de São Paulo, de habitação de interesse social com o conceito de desenho universal, entre outros. Em (2), as autoras discutem o pertencimento a uma casa: "De quem é essa casa? Dialogando sobre a casa com suas moradoras".
A questão da institucionalização e a da moradia em ILPIs em geral com seus efeitos ainda negativos sobre as pessoas idosas, familiares e sociedade ganham aqui reflexões em vários artigos assim intitulados: (3) "Idosos e seus fazeres na Instituição de Longa Permanência"; (4) "Qualidade de vida de idosos institucionalizados"; (5) "Instituições de Longa Permanência para Idosos: possibilidades contemporâneas de moradia"; (6) "O Envelhecimento e a Moradia: Análise empírica em uma Instituição de Longa Permanência e a perspectiva do residente idoso"; (7) "Institucionalização: Transformações e interpretação de vida dos idosos"; (8) trata das "Reflexões sobre espaço de moradia para idosos e Políticas Públicas".
As sensações dos idosos nos mais variados espaços de moradia estão aqui representadas nos artigos (9) "A arte de morar só e ser feliz na velhice"; (10) "Como moram muitos de nossos velhos? Reflexões sobre um conjunto de visitas a Instituições que abrigam pessoas idosas"; (11) "Novas Formas de Morar: Repúblicas para Idosos"; (12) "Sensações do morar e a concretização de moradia para idosos egressos de um albergue"; (13) "Um modelo de moradia para idosos: o caso da Vila dos Idosos do Pari- São Paulo (SP)" e (14) Barra de Apoio para idosos em habitações populares: a realidade do Município de Santo André (SP), Brasil.
Todos os "achados" trazidos pelos autores dizem bem da problemática de se morar na velhice: cada velho com sua necessidade ou exigência particular. Tal qual únicas são as singularidades; tal qual muitas e diversas são as velhices; tal qual o são as moradias possíveis na velhice; uma pergunta que se coloca é se é possível habitar indiferentemente qualquer delas... Bem o disse sobre os efeitos da casa da gente em cada um de nós o grande poeta:
Quem disse que eu me mudei? Não importa que a tenham demolido: A gente continua morando na velha casa [em que nasceu] (Quintana, 2006).
Assim também nossos desejos são os de que os espaços da Revista Kairós Gerontologia, no seu volume regular, no temático ou no caderno temático, possam ser a velha casa da gente sempre receptiva aos leitores que desejem fazer habitar nela seus novos "achados" no campo do envelhecimento e da velhice.
Referências
Mário Quintana, Canções. Apud: Guimarães, Josué. Enquanto a noite não chega. Porto Alegre: L&PM, 1997: 3.
In: Quintana de Bolso-Mario Quintana. Porto Alegre: L&PM, 2006: 121.