Hoje, eles são 19,6 milhões. Em 2050, serão 64 milhões. Com o aumento do número de idosos na população brasileira, surge uma pergunta inevitável: quem irá cuidar e atender todos esses brasileiros que já atingiram ou atingirão até lá a "fronteira" dos 60 anos? É nesse cenário de (muita) gente de cabelos brancos que uma "profissão de futuro" ganha espaço e ameaça deixar para trás as carreiras ligadas às engenharias ou à área tecnológica: a de gerontólogo, o profissional especializado em envelhecimento e no atendimento a idosos.
Ainda pouco conhecido, esse mercado de trabalho começa a ganhar espaço com a criação de cursos de graduação e especialização que formam profissionais preparados para funções tão distintas como prestar assessoria a instituições previdenciárias e prescrever exercícios de fisioterapia exclusivos para o idoso. Ao mesmo tempo, editais de prefeituras e outros órgãos públicos começam a ofertar vagas direcionadas a esses profissionais, que podem atuar em postos de saúde, parques ou centros de convivência para a terceira idade.
Normatização
Embora importante em um país onde a população envelhece com rapidez – o Brasil levará 22 anos para dobrar sua população idosa, de 7% para 14% do total de habitantes, ao passo que a França atingiu esse índice em 100 anos –, a gerontologia ainda luta por reconhecimento como ciência e profissão.
A atividade, por exemplo, ainda não é regulamentada e não possui um conselho profissional. Por isso, os bacharéis em gerontologia não podem obter o título de especialistas pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), permitido a profissionais de outras áreas. Atualmente, a sociedade trabalha para que a profissão ganhe regulamentação, mas não há previsão de quando isso ocorrerá.
O número de profissionais capacitados, frente ao tamanho do contingente de idosos, ainda é pequeno, embora tenha avançado muito nos últimos anos. De acordo com a presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG, Eliane Blessmann, é importante pensar e aprimorar a capacitação de profissionais, pois a necessidade dessa mão de obra é urgente.
"As necessidades da sociedade de hoje são totalmente diferentes das de antigamente. Hoje, não dá para se pensar apenas na criança e esquecer os idosos", exemplifica. "Eles precisam ter voz, e isso se dá capacitando esses profissionais para enxergar a velhice de forma ampla e sem preconceitos", diz ela.
Graduação

A inclusão da gerontologia nos currículos de graduação é outra medida importante para valorizar a profissão, defendida pela gerontóloga Marília Berzins, que atua desde 1995 na prefeitura de São Paulo em programas de atenção ao idoso. Ela diz que tão importante quanto criar cursos de bacharel em gerontologia é estimular alunos de outros cursos a ter contato com a disciplina durante a graduação.
"Toda profissão, uma hora ou outra, vai se deparar com a questão da terceira idade, seja o direito, a medicina, o jornalismo ou a arquitetura. Por isso, esses profissionais têm de estar preparados para lidar com isso [o envelhecimento]", opina ela. "E é preciso que haja mais pesquisa sendo feita desde cedo, na graduação, através dos trabalhos de conclusão de curso e da iniciação científica. É uma profissão de futuro, quem não prestou atenção para isso deveria prestar", finaliza.
Administração
Atualmente, o estudante ou profissional que queira se dedicar à área do envelhecimento tem à disposição, basicamente, três caminhos para se tornar um gerontólogo – termo bem abrangente que designa város tipos de formação e ainda não está regulamentado. O primeiro é o bacharelado em Gerontologia, curso de graduação hoje oferecido pela Universidade de São Paulo (USP) e pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e que ainda não existe no Paraná.
De acordo com a gerontóloga Marisa Accioly, vice-coordenadora do curso na USP, as funções básicas da profissão são administrar e coordenar serviços ou políticas públicas voltados para idosos: "O bacharel é um gestor que tem uma visão ampla a respeito do envelhecimento, do papel do idoso na sociedade e de suas necessidades", diz, exemplificando: "Por isso, pode tanto prestar assessoria a empresas e trabalhar na criação e no fomento de políticas públicas como administrar instituições de longa permanência para idosos [as ILPI, ou antigos asilos]".
Outro caminho é voltado para profissionais que já possuem uma graduação, como fisioterapeutas, psicólogos e assistentes sociais, e que queiram se especializar em atender pacientes na terceira idade. Neste caso, há os cursos de especialização, que mesclam conteúdos gerais com os específicos de cada área do conhecimento. No Paraná, já começam a surgir cursos desse tipo, fruto da parceria de médicos com universidades particulares, mas ainda não há oferta em universidades públicas.
A psicóloga sistêmica Cláudia Hernandes fez essa opção quando descobriu a vocação ao atender idosas no bairro Borda do Campo, São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba. Ela, que já havia trabalhado com crianças, se encantou pela área, e, após assumir o Centro Dia (modalidade alternativa à institucionalização, onde o idoso permanece sob o cuidado de profissionais durante o dia e volta para a casa da família à noite) do Asilo São Vicente de Paulo em Curitiba, resolveu fazer uma pós-graduação na área.
Hoje, Cláudia conta que passou a entender melhor o processo de envelhecimento, e que esse conhecimento ampliou sua visão a respeito do papel do idoso na família e na sociedade. "No curso aprendemos a ver a velhice como um processo amplo, em seus aspectos social, psicológico e biológico, e não apenas como sinônimo de doença, uma visão que, infelizmente, ainda prevalece", pondera.
Titulação
Os profissionais que já possuem experiência no atendimento à terceira idade e moram em locais onde não há oferta de cursos de especialização podem obter o título de gerontólogo (ou especialista em gerontologia) através de uma prova aplicada pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), que congrega profissionais da área.
Para realizar a prova, o candidato deve possuir ensino superior, estar vinculado ao conselho profissional de sua categoria e ter experiência mínima de quatro anos de atividades com esse público. O conteúdo da prova abrange tanto conhecimentos de Gerontologia quanto os específicos da área do candidato (no caso de um profissional de arquitetura, por exemplo, será cobrado o currículo desse curso).
Após a aprovação do currículo e na prova escrita, há uma segunda fase, onde o candidato é submetido a uma prova oral. Desde que a prova foi realizada pela primeira vez, em 1987, 246 profissionais já obtiveram a titulação. Informações sobre a prova podem ser obtidas no endereço www.sbgg.org.br
Áreas de atuação
Como Bacharel, o foco é na gestão e coordenação de projetos, assim como na administração de programa e instituições. O bacharel em gerontologia pode assumir a direção de uma instituição de longa permanência para idosos – área onde a gestão é feita de maneira informal, por leigos – ou de uma ONG.
Também pode prestar assessoria para ministérios, empresas, Ministério Público e conselhos de defesa dos direitos dos idosos. Pode ajudar na elaboração de projetos culturais, educacionais e de lazer para prefeituras e no aperfeiçoamento da legislação.
Atenção: O bacharel não pode exercer funções exclusivas de outras profissões, como prescrever remédios (função de médicos), dietas (nutricionistas) ou exercícios (fisioterapeutas e educadores físicos).
Como Especialista em gerontologia (que deve ter curso de especialização ou titulação pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia), profissional de uma área regulamentada, como serviço social, pedagogia, medicina e psicologia que se especializa no atendimento ao público idoso.
No caso de um arquiteto, por exemplo, ele estará mais apto a elaborar projetos de acessibilidade e mobilidade voltados à terceira idade, por conhecer melhor a fisiologia do idoso, assim como sua função social e sua relação com o meio ambiente.
*Vanessa Prateano é reporter do Jornal Gazeta do Povo, Editoria de Vida e Cidadania
Curitiba – Paraná. www.gazetadopovo.com.br. Publicado em 04/08/2011. Ver: http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=1154143&tit=Cuidador-uma-profissao-de-futuro