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Os jovens podem lutar pelos mais velhos?


Em França, estudantes de liceu estão em greve contra o aumento da idade legal da reforma, junto com os mais velhos. Uma bela contradição 22/10/2010 - por Manuel Queiroz na categoria 'Trabalho'

Mais de meia Europa está a travar a fundo - e não são só os PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha), nem são só as economias mais abertas, ou aquelas que estão ainda em ajustamento depois de se terem libertado do comunismo. O Reino Unido e a França são dois bons exemplos de grandes economias que enfrentam terríveis problemas de consolidação orçamental. No caso britânico, depois de 13 anos de governo trabalhista, no caso de França, após sucessivos presidentes e governos de direita.

E em França desenrola-se, neste momento, um filme de terror com protestos, greves e já um problema de falta de combustível (10% dos postos do país estão já secos), que ameaça parar a economia. Já houve quem lhe chamasse o "Maio de 2010". No centro da questão está a passagem, faseada, ao longo de quatro anos, da idade mínima de reforma dos 60 para os 62 anos.

Há dias um amigo francês explicava-me que a maioria das pessoas já se tinha conformado. "Quem protesta são os funcionários públicos, os outros já não". Em Espanha e na Alemanha vamos para os 67 anos, na Grécia para os 63, em Portugal para os 68 (homens e mulheres), ainda que num horizonte alargado. França é o país onde se passa mais tempo na reforma - 24,5 anos, em média, contra 19,8 anos na União Europeia.

Em Paris, em Marselha e noutras cidades, porém, isto é objecto de protestos violentos, com a imprensa, mesmo de esquerda, a manter algum distanciamento. Esses protestos incluem centenas de liceus fechados, porque os jovens também se sentem apertados e dizem que querem que a idade da reforma seja atingida mais cedo, porque senão não têm lugares disponíveis no mercado de trabalho. E isso é hoje verdadeiro e reflecte muitas das contradições do mundo ocidental.

Hoje a esperança de vida ultrapassou a terceira idade e já vamos na quarta idade - quase 80 anos em Portugal, segundo os últimos cálculos, e com boa qualidade de vida para muitos. Não podemos, obviamente, deixar de trabalhar até mais tarde, se tivermos oportunidade (e nem todos têm). Porque temos forças para isso e porque não podemos apenas ser um fardo para as outras gerações. E vamos todos, queiramos ou não, ter de fazer esse esforço.

Na Suécia nem há idade de reforma legal. Cada um vai conhecendo, por um sistema de pontos, aquilo que pode ter se decidir retirar-se do mercado de trabalho. Cada um arca com os custos e os proveitos desse sistema.

Mas França tem hoje enormes desequilíbrios que, com a reforma que pretende o presidente Sarkozy, garante a estabilidade do sistema por poucos anos apenas.

Estes protestos em França dão uma ideia de um momento de viragem. A Europa ou aprofunda a sua moeda única, o que provavelmente se fará só com mais federalismo, ou então parte-se e acaba com uma moeda única que foi um grande desígnio mas que pode não sobreviver a economias que não se querem reformar nem sustentar.

Os jovens têm, claro, uma palavra a dizer nisto. O ajustamento é duro nos tempos mais próximos, mas a verdade é que, mesmo em França, o desemprego dos jovens (licenciados ou não) já é muito grande mesmo sem reformar a reforma. E, sobretudo, o sistema não vai funcionar se os mais velhos não trabalharem mais tempo. Essa é a primeira premissa, parece. Os mais jovens e os mais velhos estão na mesma luta, mas neste caso os jovens estão a defender privilégios dos mais velhos - não a lutar pelo seu futuro.

Fonte: http://www.ionline.pt/conteudo/84023-os-jovens-podem-lutar-pelos-mais-velhos, Publicado em 19 de Outubro de 2010

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Atualizado em 23/05/2012 22:32:31